AMIGO é aquele que apunhala pela frente

Não tenho bem certeza se paramos para pensar em aspectos da vida toda virada de ano, se os fatos coincidem ou se chegamos em um ponto que é preciso se auto-esbofetear e acordar para a vida.

Minha Fada predileta – assim como nossa turma – costuma dizer que eu tenho um dedo certeiro para escolhas erradas. Durante muito tempo discordei, acreditando firmemente que as pessoas que considerava amigas, também eram as minhas. Mesmo quando elas aprontavam, mesmo quando me magoavam…

Tem uma Infeliz(e) que já me roubou, se aproveitou de onde eu morava, já me virou a cara inúmeras vezes e eu lá, firme e forte, defendendo esse ser. Uma Fulana que todo esse “bando”  – e mais alguns outros –  diziam que ela tinha inveja de mim e  os encarava pasma, pois a tal nunca teve – sob qualquer ótica – motivo para isso.

Foram anos mesmo, dando murro em ponta de faca, discutindo com meus AMIGOS, defendendo essas duas. Mas então você percebe a diferença entre falar mais tempo com uma pessoa pelo Msn do que ao vivo e de falar com a outra somente por mensagem instântanea; percebe que amizade não é ser escondida dos outros e depois ser “presenteada” com inúmeras fofocas; e, tampouco, exigirem que você seja diferente do que você é porque essa pessoa não gosta! A bem da verdade, nunca fui santa… se por santa você quiser dizer alguém que segue seu comportamento. Verdade absoluta: tudo na vida são escolhas, eu fiz as minhas. Mas nunca para prejudicar ou magoar deliberadamente. Acho hipócrita que as pessoas esperem uma postura de nós que sequer elas mantém!!!

Mesmo com todos os fatos e falações, eu ainda lutei e chorei pela amizade delas, pois me faziam falta, de fato. Aí foi aquela coisa de se amar e respeitar um poquinho mais, sabe? Não preciso de fofocas, de falsos sentimentos e que eu mude para alguém gostar de mim. Amizade é gostar até com os defeitos; não concordar com as atitudes, dar bronca, rusgas são absolutamente normais. Precisei escrever para ter a certeza, HOJE, que não é tanto faz. Simplesmente não faz. Melhor: Infeliz(e) e Fulana não fazem mais parte de mim, da minha vida… e tudo tem sido, e fluído, melhor desde então!

Ter poucos e EXCELENTES amigos (embora faltem 2 homens e 2 mulheres na foto) é o que eu desejo para mim mesma e até para as pessoas citadas, para aquelas que eu não suporto e, também, para as que  não conheço. Porque somente com AMIGOS a gente consegue ser a gente mesma, ser feliz e ter pessoas que estarão conosco em qualquer situação; ao alcance de um teclado, de um telefonema, de um abraço. São essas pessoas que te carregarão pelos anos, pelas lembranças, pelas conversas de bar em bar.

Aposto que muita gente descobriu isso antes de mim, mas antes tarde do que nunca!

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Nas garras do dragão

Meninas-crianças, meninas-garotas, meninas- mulheres… todas elas, todas nós somos tomadas por fantasias. Sejam heróis, cenas românticas, paixões por vilões ou admiração por criaturas mágicas.
Um ou outro item desta lista, talvez todas, bem poucas – raríssimas exceções – nenhuma. Não sei se delírio, fantasia, imbecilidade, vontade de escapar, ingenuidade… sempre me fascinei!

Em recente viagem deparei-me com um mito, com uma criatura mágica fascinante, uma lenda real: um dragão. Não um dragão qualquer, mas um poderoso, sem dúvida alguma. Tomada de um fascínio bestial, despi-me de medos e pudores para encará-lo bem de perto.

Barba espessa, narinas fumegantes, olhos penetrantes, corpo forte e longilíneo, estatura firme, porte majestoso, garras afiadas, boca entreaberta dando passagem a sua língua sibilante.

Parecia estar pronto para me aniquilar. Num movimento ágil enlaçou-me com suas patas dianteiras, reteu-me em seu peito e pude escutar as batidas do seu coração (sim, eles têm um!). Foi assim que me entreguei sem hesitar, estava pronta para o que viesse…

Em retribuição, o Dragão exerceu a recíproca da admiração, do deslumbramento. Fitou-me por longos minutos, olhou dentro dos meus olhos, viu minha alma e me apertou contra suas escamas. Com a ponta de uma de suas garras talhou meu ombro direito e o lambeu logo em seguida, provocando uma cicatriz.

Não fui atacada, devorada ou carbonizada. Como bons amigos passávamos horas juntos, caminhávamos, nos divertíamos. Embora de naturezas diferentes, nos entendíamos sem trocar palavras, somente por olhares, por gestos, sensações.

Tudo nele era grandioso demais: sua força, sua energia, seu porte, seu temperamento, seu comportamento, seus atos carinhosos – o que contrariava qualquer coisa que eu já tivesse escutado sobre dragões. O deslumbramento e admiração por esse mito aumentavam na mesma medida da nossa comunhão.

Diante de tantos sentimentos confusos, cheguei a acreditar que geraria uma espécie de Minodrago, mas por essas ironias da vida, depois de alguns meses, Ele se mostrou – ou eu finalmente enxerguei – o que sempre foi: um animal selvagem. Melhor escrevendo, uma lenda selvagem.

As garras afiadas, os olhos vermelhos, as narinas fumegantes, o corpo grande e pesado demais. Jamais conseguiria trazê-lo para o meu mundo e o Dragão, definitivamente, não estava pronto para abrir mão do seu. Era bicho solto, livre para voar, viver por aí exercendo o fascínio que lhe corria nas veias. Mantê-lo meu, estragaria esse brilho, destruir-se-ia um mito.

Fugi! Enquanto o Dragão dormia, escorreguei de suas garras, alisei sua barba, olhei a marca que Ele deixou em mim e dei o último beijo na ponta de seu nariz quentinho. Diante daquele lagarto adormecido, estirado preguiçosamente nas folhagens, me senti criança outra vez.

Corri até minhas pernas arderem, até meu coração quase explodir. E quando me certifiquei estar bem longe, berrei. Berrei mais do que gata selvagem no cio e chorei duas lágrimas de adeus. Nessa altura era inimaginável viver sem a paz encontrada no contato daquelas escamas, naquele cheiro tão peculiar.

O tempo passou, nunca mais vi ou ouvi “meu” Dragão, ou qualquer outro. Passei muitos dias recordando essa relação tão platônica, tão bizarra. Pelo menos aprendi a não fantasiar mais…

Desejei ter somente fantasiado o mito da minha infância ao invés de vivenciá-lo. Não por estar apaixonada, nem por arrependimento. Talvez porque os mitos devam ser apenas mitos. Ou talvez – TALVEZ – por ter descoberto sermos da mesma natureza e que, portanto, nunca nos pertenceremos.

Comecinho de namoro

As pessoas precisam ter em mente uma única coisa apenas: VERÃO!

Era verão. Eram dias quentes e noites de baladas. Eram dias chuvosos, tardes enlouquecedoras, noites de boemia. Era verão e ponto. Teria sido sempre verão. Sempre será para mim.

Das terças e quintas-feiras depois das aulas de inglês, que mesmo em temperatura alta nos enfiávamos debaixo das cobertas e o dia tornava-se extremamente mais quente, um Saara. Dos joguinhos pra nos ganharmos, dos recadinhos, dos sms’s, dos passeios na praia, das smirnoffs ice, das cervejas, dos capuccinos e pirulitos natalinos.

 Era verão e nos queríamos. Sexo a toda hora, beijos roubados, cócegas, brincadeiras, idas e vindas no serviço, formaturas, viagens e adoração mútua.

Jantares feitos de qualquer jeito, jantares no japonês, piercing, sexo no banheiro do clube, na serralheria, na loja. Manhas, briguinhas tolas, companheirismo, porres, baladas, fotos. Pingentes, alianças, pequenos presentes.

 Um ou outro cão sarnento vagabundeando para atormentar. Cão que ladra, não morde. Saudades de 5 dias longe, quando São Paulo parecia ser mais de 1.000.000.000 de km de Santos, esperas, abraços, beijos e mais sexo. Telefonemas não davam conta de tanto anseio um pelo outro…

Passeios a dois, amizades compartilhadas, idéias divididas, apoio mútuo, suporte, ombro, colo e carinho. Churrascos na casa do seu pai, noitadas de jogatina na casa da sua mãe, almoços com seu padrasto, cinemas, pipocas, séries e mais séries, e um pouco mais de Discovery. Dormir bem agarradinho, apostas, risadas, gargalhadas, olhares, bagunça, muita bagunça!

E quantas estações passaram…

Brigas, escandâlos, cenas, desentendimentos, diferenças, distância, silêncio, gargalhada muda, sorrisos amarelados, mundos totalmente diferentes, visões abismais, duas pessoas que nunca se cruzaram. E quantas mudanças de clima, de estação.

Mas para mim todo dia era verão, ao seu lado. E quando fecho meus olhos, ainda vejo você saindo do mar, coberto de água e sal, vindo ao meu encontro, seja para um beijo, uma foto ou uma tiração de sarro.

Chuva, neve, folhas caídas, tanto faz. No meu coração e nas minhas lembranças, SEMPRE seremos verão

 

 

O que a luz negra não revela

São depois dessas noitadas de sentimentos efêmeros, pessoas fúteis e tristeza mascarada em sorrisos para fotos de sites, que se pode vislumbrar algumas coisas perdidas mais no tempo do que no espaço.
Mesmo que seus amigos estejam lá, você está na companhia deles – talvez, impelido pelo sentimento ilusório e hipócrita de que dias melhores virão – por não ter a opção de estar com quem realmente gostaria.
Alguém para ligar de madrugada e dizer, e ouvir, “eu te amo”, para fazer carinho ou cócegas, que estale seus dedos do pé com maestria ou até mesmo para enxugar suas lágrimas – e reclamar – na enésima vez que você assiste Dirty Dancing, ou qualquer outro filme que lhe provoque pequenos choros.

Ele que te mimou, ninou, cuidou, protegeu, brigou quando necessário, escutou, apoiou, riu ou chorou contigo e amou mais do que qualquer outra coisa até aqui.

Então, no meio daquela multidão, está tudo vazio. Vazio, esse preenchido por Marlboros light, litros de café e capuccino, músicas gravadas nos cd´s que ele se preocupou em fazer para te agradar, fotos, palavras desconexas, Lexotans e comida.

De preferência leite condensado com Nescau ou no sorvete de flocos com granulado. Aí você pensa nas coisas que fez, ou deixou de fazer, para que estejam separados. E não encontra respostas para um maldito por que.

É uma dor pior que cauterização, que tatuagem na bacia. Como se, primeiramente, a alma fosse arrancada igual band-aid, depois esticada como fio de náilon e, por fim, cortado com a habilidade do Jack Estripador. Seu corpo sangra em lágrimas. Dói mesmo. Incomoda como uma queda sem fim; coração, estômago e cérebro na boca, prestes a caírem, caso não toque o chão… e você não toca.

Os sonhos sonhados juntos, o futuro planejado que nem chegou, promessas quebradas, juramentos desfeitos… Diante de qualquer fresta tenta-se enxergar uma luz – de esperança que esse pesadelo termine – no fim do túnel. Mesmo que nenhum dos dois saiba onde este fim está… ou se, de fato, esta história teve um ponto final.

O que acontece é que morremos um pouco a cada dia. Pois nos acostumamos a não ter mais… é isso, acomodação dos fatos. A gente adapta-se a viver uma vida ordinária, sem muita graça. Carregada por sorrisos amarelos, dores nas almas, programas às vezes sem importância. E o que você queria era apenas estar deitada na sua cama, aninhada no peito dele contando alguma piada idiota, fazendo voz de neném.

E saímos desses lugares prometendo não voltar lá tão cedo. Não porque seus amigos não te façam gargalhar – eles são os melhores paliativos – ou porque você não queira se divertir e sair um pouco desse ar carregado de tristeza e arrependimento. Mas porque esses locais reforçam a idéia de solidão.
_ texto escrito antes de chegar em casa, depois do Moby, lá no posto da Francisco com o canal 2. Na companhia de duas xícaras de capuccino, um copo de café e da paciência do Adriano (escrito originalmente em 26/06/2004, mas que se aplica MUITO bem a esses tempos)_