Por você

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Foto: M.V./ Arquivo pessoal

“Eu dançaria tango no teto/ Eu limparia os trilhos do metrô/Eu iria a pé
do Rio à Salvador/ EU ACEITARIA A VIDA COMO ELA É/ Viajaria a prazo pro inferno/ Eu tomaria banho gelado no inverno/ POR VOCÊ!/
Eu ficaria rica num mês…/ Eu mudaria até o meu nome/ Eu viveria em greve de fome…/ POR VOCÊ!/  Conseguiria até ficar alegre/ Pintaria todo o céu de vermelho/ EU ACEITARIA A VIDA COMO ELA É… POR VOCÊ!!!”

Talvez você não entenda, embora sinta, minha ausência há exatamente sete meses. De quando nossos dias eram feitos apenas para mim e você, algumas brincadeiras, passeios e risadas. Meu horário era comandado pelo seu, sua alimentação era a minha e todas minhas horas eram suas.

Talvez você um dia me recrimine pelas horas que faltei, pelas descobertas que não vi, pelas coisinhas que você aprendeu e eu não pude ser a primeira da platéia ou por não segurar sua mão quando esteve doente. Talvez você fique magoada pelos colos que não dei, pelas brincadeiras que não fiz ou pelos passeios que não compareci.

E nessas dúvidas residem minha esperança que, TALVEZ , quando esse dia chegar, você compreenda a razão de eu perder essas coisas tão importantes, para nós duas. A razão é VOCÊ! Desde o dia que soube da sua existência, jurei fazer o melhor, me comprometi a fazer pelo menos uma única coisa correta na minha vida , custasse o que custasse.

E custam. Saudades, ausência, distância, peso na consciência, crises de remorso, minha saúde, auto recriminação, meu tempo, meu descanso, meus neurônios, minha visão, minhas lágrimas. E quando penso em desistir de tudo, é esse sorriso que me dá, quando nos reencontramos, que faz TUDO VALER A PENA.

Neste exato momento, conto as horas para ir assistir sua primeira festa da escola, desejando que você fosse de um Q.I. extremamente elevado e entendesse tudo que vou te contar, tudo que estou sentindo. Pois não há satisfação maior em saber que meus esforços começam a ser recompensados, superando expectativas.

Superior a qualquer conquista profisional, qualquer conquista pessoal… é conquista MATERNAL! É saber que estou no caminho certo, fazendo meus juramentos terem valor… e isso importa SOMENTE para mim e você! É ter a certeza que o dia que estaremos juntas novamente, está mais perto; é sentir o sabor da glória; a felicidade de uma superação; a liberdade que ninguém pode me dar a não ser eu mesma. E tudo, filha, por sua causa.

Eu jamais agüentaria tudo que tenho agüentado, nem teria essa garra, essa força, essa vontade de lutar cada dia mais  – sem me importar com o sangue derramado – esse estímulo, se não fosse POR VOCÊ, se não fosse para EU te dar o melhor. MEU COMBUSTÍVEL É O AMOR RECÍPROCO QUE VIVEMOS, esse amor abundante e genuíno que só conhece quem é MÃE.

Filha, essa conquista – estampada no meu extrato bancário, na minha euforia, no meu sorriso e nas minhas lágrimas – é mérito seu. E não há palavras para agradecer por você me fazer melhor a cada dia.

Para além da eternidade, eu te amo…

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Para os autores de cantigas infantis

Venho por meio desta, expressar minha TOTAL indignação com as músicas que vocês (ah, se eu soubesse quem vocês são!) compuseram anos atrás.

Desde que minha filha nasceu, vasculhei no arquivo da minha memória, as músicas que meus pais cantavam. Ok, confesso lembrei bem poucas… meu cérebro abalado pela quantidade de hits eletrônicos sucumbiu doces lembranças.

Então recorri à sábia experiência da minha mãe: comprei um cd repleto de cantigas!!! Ponho pra tocar, pois tenho que decorar as músicas, e nossa… que horror!!!

Duvidam? Pois bem…

“Atirei o pau no gato…”, “o quartel pegou fogo…”, “Samba–lelê ta doente”, “era uma casa muito engraçada: não tinha teto, não tinha nada…”, “o sapo não lava o pé”… e por aí vai!

Mentira que vocês ainda não viram o meu espanto??? Gente, o óbvio é tão ululante que tira sangue dos olhos!!! Essas músicas não falam apenas da precariedade da situação brasileira (samba-lelê tá doente assim como várias crianças brasileiras, muitas não lavam o pé – e nenhuma parte do corpo – porque nem água tem, a casa que não tem nada é que nem favela do Rio de Janeiro, ou de qualquer lugar), como também incitam a violência.

Primeiro atira o pau no gato e depois mata aposentado à pauladas, depois do quartel pegar fogo, é a vez da Febem, prisões, ônibus lotados de passageiros e até índio Pataxó!

Não bastou? “Sabiá fez um buraquinho na gaiola, voou, voou, voou…”, nada mais claro que o codinome de algum preso que conseguiu escapar por um túnel! “Minhoco você é muito louco, beijou do lado errado, a boca é no outro lado”… essa é a mais pavorosa!!! Pornografia pura! Praticamente vocês incitam as crianças a fazerem sexo oral… REPUGNANTE!

E pensar que gerações cresceram ouvindo isso! Talvez não seja à toa essa onda de criminalidade e pouca vergonha que assola nosso País! (Ok, ok! Não sou puritana, mas tô falando da minha filha!!!)

Se vocês não enxergaram isso, como posso tentar mostrar aos outros pais, que assim como eu estão preocupados com a educação dos filhos? Teremos que recorrer à lavagem cerebral da Xuxa? (Ela é uma idiota, mas as músicas pelo menos são saudáveis!).

 Gostaria de poder encontrá-los e mostrar tintim por tintim, mas acredito que a grande parte de vocês estejam mortos!!! Tiveram o que mereceram, assim espero!

Vocês não devem ter vivido para assistir o que aconteceu com nossas crianças, ou quão assustada estou com a possibilidade das letras de vossas músicas serem levadas ao pé da letra pela minha pequena, e por outras crianças também! Imaginem como o número de marginais aumentará se insistirmos nessas mesmas canções???

Pode ser paranóia (eu sou uma louca em ebulição), histeria ou até mesmo o olhar de um adulto onde os pequeninos não enxergam tal malícia… tá bom, admito: devo estar exagerando! Mas ficaria muito mais tranqüila se traduzíssemos músicas norte-americanas!

Graças à minha mãe – quase sempre ela – tenho um cd de músicas da Disney para dormir. Uma mais meiguinha que a outra, falando de amor de mãe e filho, de bons sonhos, de ter sucesso na vida. Nem de longe se parecem com nossas músicas!

Criminalidade, violência e corrupção estão intrinsecamente ligadas à nossa educação, de fato! Ou alguém aí já esqueceu da impunidade dos mensaleiros, vampiros e sanguessugas? De quantos deputados foram absolvidos? De como nosso queridíssimo Presidente saiu impune de quaisquer acusações? De como nosso ex-presidente Collor está de volta à cena política? De como assistimos os colarinhos brancos sorrirem em seus carrões e um pai, ou mãe, que rouba comida para sustentar o filho famigerado que a desigualdade social criou, vão em cana rapidinho?

Então, futuros compositores pensem bem quando cogitarem a hipótese de escrever uma música infantil. A sua hora de nanar pode não ser mais tão sossegada quanto lhe parecia…

Sem mais, Mãe Indignada.”