O que a luz negra não revela

São depois dessas noitadas de sentimentos efêmeros, pessoas fúteis e tristeza mascarada em sorrisos para fotos de sites, que se pode vislumbrar algumas coisas perdidas mais no tempo do que no espaço.
Mesmo que seus amigos estejam lá, você está na companhia deles – talvez, impelido pelo sentimento ilusório e hipócrita de que dias melhores virão – por não ter a opção de estar com quem realmente gostaria.
Alguém para ligar de madrugada e dizer, e ouvir, “eu te amo”, para fazer carinho ou cócegas, que estale seus dedos do pé com maestria ou até mesmo para enxugar suas lágrimas – e reclamar – na enésima vez que você assiste Dirty Dancing, ou qualquer outro filme que lhe provoque pequenos choros.

Ele que te mimou, ninou, cuidou, protegeu, brigou quando necessário, escutou, apoiou, riu ou chorou contigo e amou mais do que qualquer outra coisa até aqui.

Então, no meio daquela multidão, está tudo vazio. Vazio, esse preenchido por Marlboros light, litros de café e capuccino, músicas gravadas nos cd´s que ele se preocupou em fazer para te agradar, fotos, palavras desconexas, Lexotans e comida.

De preferência leite condensado com Nescau ou no sorvete de flocos com granulado. Aí você pensa nas coisas que fez, ou deixou de fazer, para que estejam separados. E não encontra respostas para um maldito por que.

É uma dor pior que cauterização, que tatuagem na bacia. Como se, primeiramente, a alma fosse arrancada igual band-aid, depois esticada como fio de náilon e, por fim, cortado com a habilidade do Jack Estripador. Seu corpo sangra em lágrimas. Dói mesmo. Incomoda como uma queda sem fim; coração, estômago e cérebro na boca, prestes a caírem, caso não toque o chão… e você não toca.

Os sonhos sonhados juntos, o futuro planejado que nem chegou, promessas quebradas, juramentos desfeitos… Diante de qualquer fresta tenta-se enxergar uma luz – de esperança que esse pesadelo termine – no fim do túnel. Mesmo que nenhum dos dois saiba onde este fim está… ou se, de fato, esta história teve um ponto final.

O que acontece é que morremos um pouco a cada dia. Pois nos acostumamos a não ter mais… é isso, acomodação dos fatos. A gente adapta-se a viver uma vida ordinária, sem muita graça. Carregada por sorrisos amarelos, dores nas almas, programas às vezes sem importância. E o que você queria era apenas estar deitada na sua cama, aninhada no peito dele contando alguma piada idiota, fazendo voz de neném.

E saímos desses lugares prometendo não voltar lá tão cedo. Não porque seus amigos não te façam gargalhar – eles são os melhores paliativos – ou porque você não queira se divertir e sair um pouco desse ar carregado de tristeza e arrependimento. Mas porque esses locais reforçam a idéia de solidão.
_ texto escrito antes de chegar em casa, depois do Moby, lá no posto da Francisco com o canal 2. Na companhia de duas xícaras de capuccino, um copo de café e da paciência do Adriano (escrito originalmente em 26/06/2004, mas que se aplica MUITO bem a esses tempos)_
 

 

 

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