Fireworks inside me

Esqueço minha mania de não aceitar cavalheirismos e eu cedo. Foi difícil resistir ao vê-lo parado, com a mão esticada para a porta do carro. Eu sorrio e me afasto enquanto ele, em sua habilidade de ex-pugilista, me vira, segura meu rosto com as duas mãos, me olha baixo e me beija suavemente . As pessoas continuam passando pela ruela, diminuindo o som ao nos verem e eu o beijo com um sorriso tímido nos lábios, confessando um lado que prefiro quase nunca expor. Ele sorri ao constatar essa versão de mim que ainda não tinha visto, me coloca no banco do passageiro e saímos.

Ele dirige sem saber aonde ir e decido levá-lo onde nunca levei alguém antes, mas é o tipo de lugar que ele gosta de estar. É o lugar onde sempre estou. Ele contempla a vista, o interior do meu lugar no mundo e eu sei que ele precisa ver mais. O pedacinho recém-descoberto, com a orla abaixo dos nossos pés e todo mar à nossa frente. Dois braços envolvem meu corpo. A barba por fazer raspa meu ombro e a boca dele deixa rastros da base do pescoço até a ponta da minha orelha esquerda. A temperatura da noite de outono eleva-se subitamente e dentro de mim é apenas verão.

Escadas, ladeira abaixo, ruas e uma única rotatória até chegar onde tudo começou, para mim. Na rádio toca “Your Song”, minha música, e ele fala comigo sem desviar os pequenos olhos escuros dos olhos mais doces que ele já viu. Às vezes, um momento de felicidade está em coisas simples. E eu sei que hoje eu transbordarei.

Ele me envolve, me beija e brinca com meu cabelo. Eu sento em seu colo, beijo todo o rosto, sem pressa. Pequenos beijos salpicados, reconhecendo a fisionomia com os lábios, absorvendo o perfume, sem querer explicação, apenas sentir. Ele sorri de um modo que não sei dizer e antes de falar qualquer coisa, mordo o queixo e sou esmagada entre seu peitoral e o volante. Suas mãos passeiam por todo meu corpo, apertando, sentindo, chamando para si. E eu me entrego.

Sinto a pele dele junto à minha. Sinto seu gosto, seu cheiro e seu toque por todo meu corpo. Engulo suor e saliva com a mesma satisfação que devoraria um prato de mariscos. Seus braços contornam minhas coxas e ele desafia as leis da Física. Eu sinto que o parquinho de diversões abriu somente para eu brincar. Sem pressa, porque ele vai ficar aberto a noite toda e eu me divirto como se não houvesse amanhã, pois, na verdade, não há. Aproveito para aproveitar cada looping com um sorriso bobo, cada subida sentindo o friozinho na barriga, cada fogo de artifício que estoura dentro de mim com gritinhos abafados no pescoço dele. E, como se ainda fosse criança, brinco no escorregador de gozo e suor sem medo da queda. Até que desabo esgotada, arfando.

Ele ainda sorri, eu o beijo sem timidez, sem pudor. Ofereço a ele a vista mais secreta desde então. Eu assim, tão entregue, tão exposta em quase todas as versões de mim mesma. Eu olho pela janela, para o alto e enxergo para dentro. Sorrio ainda mais quando volto para o colo dele. Enquanto ele se aconchega no meu corpo eu sei que não é ele. Mas há tempos  eu não era tão eu com outro alguém. Eu olho para nós dois e sorrio. E, enfim, relaxo.

The show must go on

Olho São Paulo do alto, como nunca havia olhado. Na companhia do Marlboro Light queimando entre os meus dedos,  eu tento alcançar aquela estrela – tenho a mania de sempre querer ir além do que realmente posso.

Encaro a brisa gelada somente de peito aberto. Admiro e estou sendo admirada, enquanto calada – algo raro – tento cadenciar um milhão de pensamentos que só se organizam quando me ponho a correr. Mas eu estou parada, estou aqui – não estou? – exatamente onde quero estar.

spnoite

Bebo as  luzes, palavras, carícias. Mas não me embriago. Com nada. Eu sorrio como há muito não via, assim de forma nua e crua. Sinto-me etérea. E sinto teu calor, teu cheiro e teus dedos me procurando. Músculos retesados e êxtase à paisana. Toda São Paulo vista do alto agora é meu cenário.

E então tudo passa a ser tato…

Meus seios estão em tuas mãos. Teu quadril se encaixa no meu ângulo e tua boca percorre meu 1,62 de altura. Eu não tenho pressa, nunca tive. Você me pede para que eu te peça. E eu te olho nos olhos e  digo: faça com que eu apenas sinta.

E, no entanto, a verdade é que eu quero me mostrar como é que se joga – all in é como se ganha e eu estou cansada de blefes. Eu quero volúpia, quero sensibilidade em cada milímetro do meu corpo. Quero me lembrar de quem fui anos atrás. Quero resgatar meu eu.

E eu me entrego como quem pula de paraquedas. E no ritmo compassado de amantes de longa data que nunca seremos, o gemido vem. Profundo e silencioso. Eu aproveito cada ato do meu espetáculo. Fica quietinho, fica. Mas não se controle. Só espere um pouco mais. Quero vangloriar-me de estampar dois sorrisos débeis em dois rostos tão distintos. E te entrego meu ventre de bom grado, diferente de como Geni deu-se ao seu carrasco.

De cima do palco a visão é ainda mais linda. E a labareda que começou na ponta do pé, passa por panturrilhas, coxas, nádegas, coluna, ombros, nuca e apaga-se num uníssono alto e curto. Desabo esgotada, arfando. Jogo meu corpo para o lado e me espreguiço languidamente.

Saio de fininho, sem fazer barulho. Vou até a varanda, finalmente toda nua, exposta. Acendo mais um cigarro e me perco na fumaça. Eu toco a estrela – a mania que tenho de sempre querer ir além do que realmente posso, nunca me impediu de chegar lá.

Eu sorrio. Eu admiro a noite de São Paulo e suas luzes. Eu respiro fundo e absorvo meu cheiro. Eu sorrio. Sorrio meu sorriso-Lolytha de ponta a ponta do rosto que há meses eu não via. Eu sorrio porque eu sinto.

Eu finalmente sinto.

Quem paga o motel?

Assim como todo tema que se refira ao assunto sexo, a conta do motel é algo que divide opiniões – e como eu sempre resolvo dar as minhas, sinto-me um extraterrestre diante de tanta coisa que ouço e leio por aí.

Para ser bem sincera, quando iniciei minhas atividades extracurriculares de filha única criada com seis irmãos, motel era um pavor para mim. Ficava imaginando que meus irmãos saberiam, que meu pai ou meu parasto poderiam me ver, que meus amigos tomariam um susto, minhas amigas me reprovariam e o recepcionista do estabelecimento saberia que eu estaria transando! Enfim, uma verdadeira paranóia cujos resquícios perduram (francamente, que mulher acha confortável ficar na fila do motel enquanto algum funcionário volta e meia aparece para falar com o cara que está dirigindo?).

No começo desse  ano 3 casais de colegas foram para o mesmo quarto de motel e se divertiram bastante, pelo que eles contaram. Não que isso me deixasse pasma, mas sim o fato de uma das meninas ter transado com seu melhor amigo e dito que não dividiria a conta (BEM alta) de maneira alguma. EU FIQUEI EM CHOQUE! Alguém vai para o motel sem vontade ou obrigada? NÃO! Pela narrativa a Joana* adorou ter transado a noite inteira com o Caio*, divertiu-se horrores com os amigos e disse que foi sensacional! Mas ficava repetindo a frase: “Ní*, cobra lá dele porque eu me recuso a pagar isso, não sou vagabunda!”.

As machistas que me desculpem, mas sinceridade é fundametal – e perdoem-me o trocadilho: vão tomar no cu! A mulherada lá do passado queima sutiã, reinvidica direitos iguais; uma geração mais recente vibra com a conquista do mercado de trabalho, celebra a liberdade sexual e na hora de pagar motel dá uma dessa? Vai entender. Motel não é como restaurante, que se você não gostar do prato, pede para trocar. Na hora do rala-e-rola o que está ali, está ali – ajoelhou vai ter que rezar!

Aí vem a mulherada dizendo que isso é obrigação de homem, que é gentil da parte dele e blá-blá-blá. Queridas, vocês também transaram/treparam/meteram/foderam/fizeram amor! Rola toda uma preparação quando o cara dos sonhos te chama para sair? Claro que rola, mas e daí? Isso só reforça minha opinião que você quer dar para ele tanto quanto ele quer te comer! Se ele te convidou para uma noite especial, se tem todo um clima por trás, ok. Também não estou pregando que somente mulheres devam bancar o bel-prazer, mas é absurda essa ideia de que vai tudo  – perdão pelo trocadilho outra vez – no cu do cara (tem quem curta…).

Eu já rachei conta, já paguei (porque era uma coisa que eu queria fazer para um ex), já fui bancada. Algumas vezes  curti mais que outras, mas quem está na chuva é para se molhar, mesmo! Para ser justa e dizer a verdade,  só fico muito fula de pagar motel quando o serviço é que nem restaurante ruim: você pensa 20 vezes antes de pagar os 10% do garçom!

Se você é um cara que vive bancando essa conta, ou uma mulher que gostaria de economizar um pouco nesse setor (porque pagar sozinho é péssimo para ambos) é só ler essas dicas de como pagar menos no motel e incrementar a relação!

E, por favor, não me passe por aqui e escreva um livro defendendo toda a inocência feminina! Esse mundo tá tão cheio de puta  enrustida como de cafa fofinho. E tenho dito!


*Obviamente os nomes foram trocados!

Mentiras e verdades necessárias

Vem gato –  aqui no meu regaço – e sob minhas garras de aço, deixa teu corpo se entregar. Vem, que eu deixo marca minha em costas tuas e dessa maneira, assim, a menininha mostra-se de forma nua e crua. Aplaca essa volúpia que você libertou e deixa que eu te recompenso. Porquanto esse tesão me consome, devolve-me ao pior dos vícios… mania essa de querer precisar de você, do teu corpo.

[ Este comportamento passivo-agressivo cada vez mais nos confina à sordidez que somos. E quando sinto teu cheiro – ah, este cheiro que aguça meus sentidos – e sinto teu calor, quero macular-me por toda a eternidade do nosso extâse. A visão do teu corpo subindo no meu, fazendo com que os músculos das tuas costas saltem, inicia a poesia de Sade prestes a começar ]

Pega meus seios em tuas mãos e os abocanhe, como se quisesse arrancá-los do meu tórax, enquanto enlaço minhas pernas nos teus quadris, com pressa de ser arrebatada. Sugue toda minha saliva e a espalhe por todo meu corpo, prolongando-se nas reentrâncias acima dos 37ºC. Delicie-se com meu gosto e puxe-me pelos cabelos, erguendo-me para beijar minha boca, deixando-me sem ar. Encare-me nos olhos e não diga nada, faça com que eu apenas sinta.

[ Acelero o meu processo de auto-destruição, entregando-me – sem questionamentos – em submissão  e obediência, embora estas não me sejam pertinentes. Nem bem abro os olhos, uma ânsia me sobe à garganta, não só preciso pensar que mereço estar debaixo do teu corpo,  mas também sob o comando das tuas mãos. E então, o que era adoração transforma-se em ódio, tesão em nojo, vontade em obrigação. Minha cabeça em torpor, apenas gira e é como se eu fosse outra pessoa… Lolytha ]

Saia de cima de mim, pois é minha vez de mostrar como se joga. Você não é páreo para mim neném. E da ponta da tua orelha direita até tuas coxas, tranformo cada milímetro de pele em ponto erógeno. Ajoelho-me como uma  Cinderela escravizada, pagando quantos boquetes forem necessários até tuas pernas tremerem. Mal escuto tua súplica, monto de uma vez só – num pulo digno de um puma – e tua cara de prazer é meu troféu.

[ Nesta hora recordo de mim como a putinha de coração de ouro que costumava ser, quando a vida de sexo vazio era divertida. Nem parece que foi a muitos anos e hoje, sem saber, você resgata todo meu lado perverso e devasso. Vem logo, mete logo, goza logo, sai logo pois cansa fingir prazer e aguentar teus olhos fechados, teu corpo suado. Neste instante tua mente está longe das minhas reflexões e você se julga impune pelo crime que acabou de cometer ]

Bate na minha cara e me chama de vadia, porque assim é mais gostoso. Pede que eu te arranho inteiro, para registrar a marca da tua conquista. E entra no ritmo compassado – como amantes de longa data que nunca seremos – sincroniza teu corpo junto ao meu, para sentir toda a magia do sexo bem executado. Pega-me por trás e acaba com a pureza remanescente nesta pecadora infâme. Explore cada parte de mim com o vigor e brutalidade de um bandeirante.

[ Há a necessidade de render-me de todas as formas, de sucumbir a toda esta degradação. A dor física neste exato momento me é irrelevante. Não sinto nada, a não ser meu orgulho e amor-próprio serem sugados para o esgoto que abriga todas as pessoas sem-caráter e imorais do mundo. É onde vou permanecer, já não tenho como voltar atrás ]

Sei que essa tara do universo masculino não lhe escaparia. Aproveita então a posição concedida somente a você, todavia não se julgue assim tão especial. Espera um pouco mais, controle-se. Quero vangloriar-me de estampar um sorriso débil pós-coito no teu rosto. Não pense, apenas tome meu ventre para ti,  como se disso dependesse toda tua felicidade. Encaixe-se no ângulo das minhas pernas, aperte-se contra minha carne desnuda e inicie teu gingado repetitivo de vai-vém. Nessa troca de fluídos corporais, misturados com sons indecifrávies, compita comigo em busca de um bem comum, como se fôssemos inimigos mortais. Até não aguentarmos mais, até as labaredas começarem a subir pelos dedos dos pés,  por panturrilhas, coxas, nádegas, colunas, ombros, nucas e apagarem-se num uníssono alto e curto. Desabamos esgotados, satisfeitos pela efemeridade de um orgasmo.

[ É tudo tão falso, ilusório como a sensação de felicidade provocada por algums gramas de cocaína nas minhas narinas. O cheiro deste sexo enoja-me e esforço-me para não vomitar. Posso ver minha marca em tuas costas, em tua barriga, em teu peito e nas tuas coxas. Meu rosto ainda arde, contudo é minha alma e meu coração que se encontram destrúidos. Viro para o lado, meio que aceitando teu abraço, para esconder a amarga lágrima de arrependimento que passeia pelo meu rosto. A vida era linda antes de você se mostrar, eu era feliz. Hoje – viciada no teu gosto – sou a sombra do que construí. Retrocesso de mim, sou apenas eu ]

Beijamo-nos com ternura e tua mão desliza pelos meus cabelos. Sinto-me protegida, aninhada em teu peito, com teus braços envolvendo-me, como se, realmente, pudesse amparar-me em você. E o sorriso que me dá, é o mais lindo que já vi: branco, alvo, puro. Olho nos teus olhos, beijo a ponta do teu nariz e suspiro… seria poético eu, você e meus cigarros, sozinhos no mundo. Quase consigo apalpar essa névoa de sentimentos. Quase acredito quando você diz que me adora, que me ama.

[ Dois ou três filetes de sangue marcam o lençol que testemunhou a obscenidade deste ato. Enquanto observo as marcas do sacrifício, julgo-me próxima à rendição que eternamente busco.  Você não entende nada disto, prefere não ver o que é tão claro quanto o dia que acabou de nascer. Preciso de nicotina e cafeína, desesperadamente. Preciso fugir e gritar que enfim estou livre; livre de você, desta pessoa que você desperta, de nós dois. Entretanto, justo neste (maldito) momento – quando me vislumbro fora desta jaula de libertinagem e hipocrisia-  sinto teu sêmen corroendo meu útero seco, igual a um câncer. Nem bem inicia-se a metástase que é você, já não penso em mais nada. A não ser em emporcalhar-me outra vez em suor, saliva, gozo e esperma, no mais baixo nível de depravação ]

Na cama comigo mesma: antes só do que mal-acompanhada!

Algumas das melhores transas que já tive foram comigo. Quer dizer, comigo e Sérgio Marone, comigo e algum dos meus ex’s numa noite solitária, comigo e com meu professor, comigo e um estranho que atendi na Chilli Beans etc. Na minha cabeça vale tudo e quem coordena esse espetáculo erótico sou eu.

Masturbação é uma palavra horrível, assim como ósculo, refestelar, menstruação. Mas além de divertido, o ato em si propicia transas (imaginárias) magníficas, orgasmos incríveis e o silêncio – e espaço – necessário pós-cópula. Sem contar que se conhecendo, fica muito mais fácil dizer ao indivíduo XX quais são suas preferências.

Se para a grande maioria dos homens esse assunto é normal, deveria ser também para mulheres. Não estou falando para sairmos por aí disputando campeonatos de siririca. Acredito apenas que esse tema não deveria ser opressor, tratado como tabu, algo que não se conversa. Masturbação é sexo sim, e de qualidade! Por isso torna-se uma prática necessária.

Porque relaxa, porque à vezes desejamos gozar e não transar, porque é gostoso imaginar, porque o fazer não deve limitar a imaginação, porque a imaginação nos faz aprender, porque somos curiosos. Porque é rápido, porque é um momento só seu, porque temos de nos amar acima de qualquer coisa/pessoa, porque algumas paixões devem ser narcisícas, porque é uma forma de narcótico, porque é um prazer.

Porque estamos sempre pensando em sexo, porque depois a gente esquece, porque não é traição, porque é pacífico, porque não é uma disputa, porque você sempre sai ganhando. Porque dá uma chacoalhada nas idéias, porque faz bem à circulação, porque é muita tentação, porque é apenas uma sacanagem, porque não faz mal à ninguém, porque ninguém escapa de uma onda de tesão repentina.

Porque pensar já é fazer, porque fazer é coerente com certos pensamentos, porque coerência também pode excitar, porque nem tudo é uma experiência “moral-intelectual-sentimental”, porque dá uma espalhada, porque faz bem aos músculos.

Porque te faz enfrentar um dia de cão com mais disposição, porque nem sempre é fácil fazer companhia a si próprio nas noites de inverno, porque insônia é um inferno, porque não se pode perder uma chance assim “tão a mão”, porque se fica à vontade consigo mesma, porque o pecado não existe. Porque SE houvesse pecado é para isso que serve o perdão, porque o perdão só é dado para quem realiza algo, porque pode ser de mentira, porque faz parte do mundo real, porque a verdade é um processo de crescimento, porque nem sempre é confortável encarar a realidade, porque de vez em quando é preciso uma fuga.

Porque alimenta o ego, porque o ego é a maior personificação da humanidade, porque a humanidade se alimenta do bel-prazer, porque nem sempre queremos dividir o pouco que temos, porque basta estarmos acompanhados de nós mesmos, porque – quer queiramos, quer não – morreremos conosco e numa hora dessas é melhor estarmos em boa companhia.

Se você precisa de motivos, estão aí. Esqueça o pré-conceito, o machismo passivo-agressivo social e vá ser feliz!

SE TOCA!!!

 

Bonitinha, mas ordinária

 
Olho para o celular e fico desesperada, estou atrasada e o elevador parece não chegar nunca! Ele surge com um pequeno “plim” e para minha sorte nem está tão cheio. Mas tem gente bonita. Gente de todas as idades. Gente bem vestida. Parece que vamos todos ao mesmo evento. Mesmo tendo espaço, prefiro ir pro fundo para não amassar o vestido.
Penso nas pessoas que tenho que entrevistar, como falar e sinto o primeiro fio de suor escorrer pela minha panturrilha. O nervosismo sempre me consome antes das gravações. O elevador pára com um tranco e antes de tudo escurecer, percebo que tem somente umas dez pessoas ali dentro. Me espremo no canto, tenho uma claustrofobia leve, tenho medo que o elevador despenque, tenho medo que meu chefe, meu produtor, meu câmera e o promoter achem que tive uma diarréia de nervosismo e fugi!

Minha cabeça gira, meu vestido fica ainda mais colado e sem perceber, uma mão escorrega pelas minhas costas, aperta minha virilha e antes que pudesse berrar com o susto, ele sussurra: “sou eu!”. Eu, é o tal promoter, é um coordenador de eventos fantástico! Todo mundo o conhece em São Paulo, não existe um evento que, se ela não organiza, não compareça. Até inauguração de mercearia, se bobear.

Mas deixem que o apresente como ele é pra mim. Deus – como o chamo – é meu amante platônico virtual favorito (pois só nos vemos em compromissos sociais e precisamos manter a ética trabalhista). Por intermédio de e-mails, conversas instantâneas e alguns telefonemas falamos tudo que temos vontade, sem medo ou pudor. Não necessariamente sobre nós dois, mas nossas experiências, nossas vidas.

Somos, antes de tudo, amigos, e no ambiente de trabalho, colegas. Pois onde quer que estejamos, a tensão paira no ar. Se estivéssemos sozinhos no mundo, transaríamos até a exaustão, nos beijaríamos com sofreguidão, nos comeríamos no sentido antropofágico. A curiosidade, a vontade de satisfazer esse desejo reprimido, nos consome quando nossos olhos se encontram.

Conhecemos-nos há uns três anos, assim que entrei no site. Sou repórter, cubro eventos, entrevisto pessoas comuns, pessoas famosas, pessoas pseudo-famosas. Mas abordo outras questões, outros ângulos, algo mais caliente. Minha chefa costuma dizer que o contraste da minha personalidade sedutora, com meu rosto incrivelmente juvenil, deixa as pessoas diante de uma situação confortável.

Nas horas vagas tento sanar minha frustração genética de ter herdado centímetros de menos e alguns quilinhos a mais, desnecessários para uma topmodel, então poso para amigos, ou para mim mesmo, encarnado personagens sensuais, bem ao estilo Nelson Rodrigues, Lolita e pin-ups, mas isso é uma outra história…

Por a + b, Deus acredita que eu seja uma mestra do sexo, phd na multifuncionalidade das mãos e língua. A imaginação nos permite qualquer coisa…

Voltemos ao elevador: prendo a respiração e assim ele tem o controle total de mim. Ele passa a mão pela lateral do vestido, tenta outro ângulo, explora e percebe que estou sem calcinha (hey, meu vestido é de cetim – na cor cenoura, lindíssimo! – o que vocês esperavam?).

Ele se afasta e lentamente tateia minhas pernas pelo lado de dentro, mais vários fios de suor agora, respiro um pouco, prendo –a de novo, ninguém pode escutar. Ele me encontra! Foi como se todos esses anos estivéssemos esperando esse primeiro encontro, mais provocativo.

Seus dedos prestidigitadores começam a funcionar e uma onda de me toma, me engole e, como se fosse possível, o elevador fica ainda mais escuro. Ele sussurra que meus traços juvenis são potencializadores de tesão, pois neles residem os disfarces necessários para encobrir a lascívia das vagabundas. Contorço-me imovelmente, grito um grito mudo de prazer, estou quase explodindo, quando uma voz lá fora avisa que em segundos o elevador voltará a funcionar.

Agradeço, afinal tinha que trabalhar. As luzes se acendem, arrumo meus vestido, corrijo a postura e tento sair com cara de desespero pelo atraso.

Fiz todas minhas entrevistas, entre algumas delas, bebi, dancei e sorri. Mas quando terminei, percebi que Deus não tirava os olhos de mim. Bebemos mais, dançamos mais, rimos demais; toda dança do acasalamento entre animais no ápice do cio.

Já estava cansada de tanta gente, queria ir embora, queria transar. Não agüentei mais, despedi-me do meu chefe, liguei para Deus e avisei: “no seu carro em 5 minutos”. Levamos menos que isso!

Queria ali na garagem, no carro, em qualquer canto, mas Deus insistiu que eu estava mais linda do que nunca e que  precisava de mim na cama. Agüentamos firme todo o caminho para a casa dele. Dez semáforos, um túnel, duas avenidas. Um viaduto, três portas, dois molhos de chave, outra porta, uma escada e , voilá, enfim sós.

Ele fez meu vestido desaparecer em segundos, estava completamente nua a mercê daqueles olhos famigerados. Liguei o som, comecei a dançar e desprovida de qualquer peça, inicie um strip com as roupas dele. Levou muitos minutos, cada tentativa de enlace era um gemido alto de prazer, meu tesão aumentava mediante suas súplicas pelo meu corpo.

Nenhum dos dois agüentou mais, com um beijo faminto tentamos desafiar a Física para provarmos que dois corpos são capazes de ocupar o mesmo espaço. E assim, sucessivamente, ao longo da noite, até a exaustão…

Acendi um cigarro, enquanto observava o movimento na Paulista pela janela.

-“Por que estava mais linda do que nunca essa noite?”.

-“Porque hoje você foi a minha mulher, e será por mais noites, por algumas mais “.

A chuva tinha começado…

-” Algum problema com isso?”. Balanço a cabeça negativamente, ele se confunde.

– “Muitas mulheres se importariam!”, rebate.

– “Não sou muitas mulheres, HOJE fui sua mulher e serei SUA mais algumas noites… “

Ele abre um sorriso admirado.

 “Ah, o mito, a lenda, a farsa são surreais! Mas a realidade, a realidade… é muito melhor”

Para o amor perdido

Fiquei triste. Num momento você estava aqui e – assim como uma samambaia que deixa de ser regada, murcha e morre – demorei para perceber que há tempos você já não estava mais.Para onde foi tudo aquilo? Que começou tão alegre, descontraído e livre? Para onde foi aquilo que tinha tão seguro, tão apaixonante? Tão certa da sua eternidade. Para onde foi, porra? Meu peito, depósito subitamente esvaziado, aperta-se no meio de tanto espaço.

Tento identificar o preciso instante, quando o que tínhamos se perdeu. Mas nem sei se o perdemos juntos ou se juntos ainda estávamos. Quantos erros misturados como pernas de novos amantes. Erramos juntos? Uma sucessão de erros coroada com um golpe final tão vil. Não sei quem errou primeiro, sei que EU deveria ter tirado o time de campo antes da prorrogação. Me desespera saber que um amor, um dia desses tão arrebatador, tenha desaparecido e deixado tanta mágoa nesse rastro.

A solidão me obriga a recorrer às lembranças. São elas que me dão forças para sobreviver nesse buraco no qual me joguei. São elas que me trazem o melhor de você, de mim, de nós. Surgem como um slide-show, ao som de Plácido Domingos e John Denver, e preenchem – temporariamente – o lado esquerdo da minha cama. As lembranças tornam-se o melhor paliativo quando ainda acredito amar o homem mais decente, generoso, amigo, divertido, engraçado, companheiro, encorajador, desafiador, estimulante, enlouquecedor, irritante que conheci. Pois sim, elas também carregam o pior de você, de mim, de nós…

Então recorro ao poder das cartas. Não as de tarô, mas destas, escritas, enviadas (ou não), publicadas. Cheias de questionamentos, metáforas, saudades, lágrimas subliminares, alívios, rancores, que assim, misturadas numa espécie de dadaísmo sentimental, soam um pouco mais sensatas que as ridículas cartas de amor. O único poder que espero desta, é deixar registrado esse meu estranho momento. Quando o que deveria ser angústia revela-se alívio… e vice-versa.

Não gosto de perder, você sabe. Embora nessa situação, perder também seja ganhar. Ganhar mais autonomia, mais amor-próprio, mais aprendizados e, em troca, perder alguns “amigos” e você… pode-se acreditar numa balança equilibrada. Mas agora, cercada de solidão, procuro o que procurar. Sabendo que não desejo encontrar nada, experimento o desânimo da busca desiludida. Pois se um amor como aquele acaba assim, vale a pena um outro? Será inteligente apostar tanto num novo?

Não desejo nenhuma resposta sua, pois tenho certeza – baseado em suas “verdades” e “conselhos” de amigos – que você está se lixando para tudo isto. Talvez lhe doam os sentimentos, o orgulho, mas o resto é resto. Você seguirá sua vida tranqüilamente e assim deve ser. Pode até achar graça da minha “desgraça”, uma punição por mais uma travessura da Menina Má. Mas se um dia tiver essa mesma vontade idiota que tive, vá em frente: desabafe! Se esse desabafo vier em forma de carta, faça diferente de mim e rasgue-a. Picote em milhões de pedacinhos e jogue-os no lixo, sendo esse o destino mais nobre para as emoções abandonadas.

Então é isso, essa história já tem um final: ao mesmo tempo em que me sinto livre desse relacionamento, apenas precisava de palavras que fizessem jus ao fim do amor que senti. Deixo esse testamento de dor, onde me reconheço fraca e irremediável. Pois embora saiba que nenhum câncer é extirpado sem causar danos, às vezes sinto-me tentada a poder acreditar numa metástase.

Sua ex.