Como se fosse a primeira vez

Ela havia acabado de voltar. O local não era novo, ainda que tudo estivesse diferente. Entre caixas e sacolas, notou que precisava ir ao mercado e assim foi. Ela que já não sabia o que costumava saber, nem sequer o notou. Enquanto enchia o carrinho com comida congelada, refrigerante, bolachas recheadas e frutas, seguia sua vida como aprendera a seguir.

Ele tinha as mãos cheias de salada e por isso, em uma reação involuntária, a chamou. Ela, que sempre atendia quando escutava seu nome, olhou. E ficou sem reação. Ele olhou diretamente nos olhos dela e reação não demonstrou. Um abismo de 7 anos então se formou.

Ele riu. Ela também. E corou. Até que ponto tinham mudado?

Tentaram colocar anos em palavras, no espaço de 10 minutos. Ela se despediu, sorriu e se afastou. Não quis forçar outro sorriso. Ela queria contar o mundo que viu, das vezes que sorriu, da falta que sentiu, de quantas lembranças fugiu. Mas não queria fazer desse modo, ao sereno, como se fossem apenas o que realmente eram: estranhos com memórias.

Ele a cabeça abaixou, o peito estufou e, por fim, em uma reação calculada, a chamou. Ela, que sempre atendia quando escutava seu nome, olhou. Ele de ombros deu, sorriu até com os olhos. Ela voltou seus treze passos. Ele a chamou para um café. Ela recusou, não bebia mais. Preferia descer sua existência com Cabernet. Ele torceu o nariz, ela nunca bebeu assim. E no caminho até o apartamento dele nada falaram.

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Naquela noite ela comeu salada, nem lembrou da comida congelada, torpe em vinho não pensou em nada, saboreou gargalhada. Naquela noite ele bebeu vinho acompanhado, se sentiu bem humorado, agiu como adolescente estabanado, desejou não ter se distanciado.

Naquela noite eles falaram do que nunca esqueceram, encerraram mágoas que remoeram, calaram as dores que doeram, sorriram quando perceberam e, por fim, abafaram os gemidos diversos que gemeram.

Depois foram muitas as palavras, tantas descobertas e ela já se sabia não ser mais dele… Nem ele, dela. Naquela noite eles tiveram certeza que não eram mais quem sempre haviam sido. Que nunca mais seriam quem foram, nunca mais os mesmos. Naquela noite outras noites vieram, muitas outras. E a cada noite eles se olhavam como naquela, se vendo como se fosse a primeira vez.

E todas as noites eles reaprendiam o que sempre souberam: independente do vão, nunca houvera um pensamento em vão; ainda que houvesse tempo, espaço e outros nomes, eles sempre se pertenceriam.

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Quando for, será

A luz, ainda pálida, entra pela fresta da varanda que nunca consigo fechar, acertando meus olhos em cheio. Resmungo, me remexo e um dedo enrola o cabelo perto da nuca. Um beijo nas escápulas e um braço que me envolve. Abro os olhos assustada, quase esqueço da noite passada. É que foram muitas noites cortadas pela madrugada. Suas pernas se jogam sobre as minhas, você me puxa mais para perto, me abraça forte, enfia seu nariz na minha nuca, dizendo que meu cheiro é doce e adormece. Viro para te olhar. Lindo você assim, olhos fechados, encontrando paz em meu colo, com os cílios longos batendo no rosto, o nariz mexendo levemente enquanto respira e sua barba raspando em mim.

[Talvez se você não tivesse deitado na minha cama, nós poderíamos ser apenas amigos. Se eu não olhasse para você e me sentisse calma, seria mais fácil. Se eu não me sentisse assim, quase confortável em seus braços, eu poderia passar aqueles minutos de uma manhã recém chegada, dormindo]

“Vem pro meu lado, se encaixa aqui”, você me diz. E faz dos seus braços minha morada. Ainda cheirando a Marlboro Light, você me beija com gosto de café da noite anterior e diz baixinho que se eu não fosse desse meu jeitinho, tão errada, tão linda, você não teria se apaixonado.

[Talvez se alguém tivesse lhe dito isso, desse meu jeitinho, nós poderíamos ser apenas amigos. Se eu não tivesse deixado você chegar tão perto, seria menor a vontade de querer ir para tão longe. Se você não fosse toda essa calma hiperbólica, eu seria menos tempestade]

Vou até a varanda, do jeito que estou. Gosto de sentir a brisa gélida tocando meu corpo. Acendo o primeiro cigarro do dia e vejo as cores do céu se transformarem. Um azul quase cinza vai dando lugar ao meu azul favorito no mundo, esse da cor dos seus olhos. E a palidez vai perdendo a força, colorindo mais uma manhã de outono – esta que passou a ser minha estação favorita. Vou até a cozinha, pé ante pé, e preparo mais um café. Curto e forte. É a primeira dose de realidade que tomarei ao longo do dia.

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[Nós poderíamos ser apenas eu e você, mas se eu não tivesse lhe dado meu coração, o meu corpo e meus desejos – mesmo que você não saiba disso. Há muito mais que eu poderia dizer, mas você cala minha boca com um beijo de paixão e prefiro apagar as palavras no cinzeiro em cima do criado mudo]

Nem percebo quando você chega por trás de mim, me abraçando e soltando frases desconexas antes de me dar bom dia. “Quero um relacionamento sério”, você dispara. Te olho como se não houvesse entendido. Existe um relacionamento que não seja sério? O dia tinha começado doce e acabara de ficar mais amargo que o meu café sem açúcar.

[Não sei o que dizer. Cruel demais usar o clichê “vamos ser bons amigos!”. Então eu passo meu rosto pela sua barba, puxo seu cabelo, olho esses dois faróis que você tem, mordo seu queixo, te beijo, te fodo. E logo depois te aviso que tenho que encontrar minhas amigas para o café da manhã. Você sabe que não é isso, mas sabe que será assim. E você não consegue mais lidar com esse vazio]

Vou até a varanda e observo você ir. Desta vez você se foi mesmo. Vou mudar o telefone e até meu endereço, para que você realmente vá!

Vou até a padaria e me valho da desculpa da manhã fria para pedir um chocolate quente com conhaque às 7h27.  Eu encho a cara, mas o álcool não preenche o vazio. São cicatrizes que a maquiagem, comprada na Sephora em 7x sem juros no Visa, esconde. São dores equilibradas em cima do salto 15cm, que eu usava para alcançar tua boca.

Eu iria para qualquer lugar com você, mas não basta seguir o coração. Vez ou outra, é preciso guiá-lo. E desta vez o caminho mais seguro era na direção oposta. É que eu quero lembrar disso como um sonho bom, sem mágoas, sem ressentimentos, sem dívidas emocionais. Quero que você escute nossa música com um sorriso no rosto, quando seu coração quiser lembrar de mim. Mas que você sinta minha falta porque foi bom. Bom demais.

[Eu iria para qualquer lugar com você, até mesmo se esse caminho me fizesse subir aqueles três degraus que a maioria das mulheres sonha subir e eu tento evitar. Mas antes eu preciso não precisar de maquiagem, nem de salto para me equilibrar]

Quando isto acontecer, eu vou rezar para que o número do seu telefone ainda seja o mesmo e que nenhuma outra mulher tenha tido a sorte de descobrir o homem incrível que você é. Ou como seu beijo faz as pernas virarem gelatina, ou como seu cheiro fica bem na pele alheia, ou o rastro cor de rosa que sua barba mal feita deixa na pele branca. E então daremos uma volta, tomaremos um Starbucks na Hadock, fumaremos alguns cigarros. E não direi que talvez seja melhor que sejamos apenas bons amigos. Eu segurarei sua mão sem medo de ficar presa ali por tanto tempo, me encaixarei no seu peito, te contarei que te dei meu coração, meu corpo, meus segredos e todos meus sorrisos.

E será divertido, por inteiro.

But I can’t help falling in love with you

Lembrar de você aumenta o silêncio que se encontra no meu quarto. O vento da madrugada parece sólido e quase congela as lágrimas que começaram a se desenrolar, desobedecendo cada forca inútil desperdiçada na ânsia de reter as pestanas. Tudo mudou tanto. Mas continuo sendo a garota de sorriso luminoso embaixo da seta de neon, esperando seu cafuné. Daquelas que passeiam pela Antiga Baixa Augusta, esperando que talvez tenha amor em Essepê. Daquelas que, ao ganhar um elogio, nem sequer levanta a cabeça; está farta de noites de sexo vazio – mesmo sonhando a semana toda com o encontro de corpos. O meu e o seu. Mais nenhum.

Uma descarga elétrica, por favor! Meu ar some só de pensar no que éramos. O amor ficou no passado. Já diria Cher: “do you believe in life after love?”. Eu não, não mais. Pensar amar, escrever amor, tentar dizer amor são atos que me dão crise de pânico. Não porque eu tenha pavor do sentimento; ele é apenas uma lembrança muito dolorida de um passado que, muitas vezes, imploro para esquecer. Não porque não foi lindo e divertido e alegre e feliz e completo e a realização dos meus sonhos e tudo sei-lá-mais-o-que. Mas porque não sei como seguir sem. Sem deixar que ele desapareça, como um sonho bom, bem antes de acordar para um novo dia.

Mas continuo gostando de pensar em você. No que éramos. De quantas vezes você me disse que eu era seu mundo, sendo que sequer me sentia parte dele.  Cappuccino, filme, um bom livro, enrolada no edredom. Esperando sair do casulo e voar borboleta. Pousar no seu ombro e ser sinal de sorte. Nunca mais o toque de Midas ao contrário. Ou qualquer dessas coisas que você disse quando me tirou da sua vida. Ser parte do seu mundo, como nunca me senti. Me livrar do peso de ser todo ele. Ser leve como a borboleta que pousa no seu ombro.

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Soa tão utópico. Soa tão egoísta. Soa como um raio de sol em dias cinza e gelados, encobertos pela neblina, carregados de cheiro de maresia. Mas aí chega a distância se amarrando ao tempo. O tempo se prolongando. A distância aumentando o tempo. O tempo distanciando o que éramos. O silêncio que se impõe. A indiferença intoxicando meus sonhos. A cama vazia. O quarto em silêncio. A cabeça girando em um caleidoscópio de recordações. E o coração que sofre micro infartos a cada saudade. Nunca mais ser o que éramos.

Seu sorriso branco, perfeito, com a covinha do lado esquerdo. Seus olhos negros, pequenos, quase rasgados. Sua boca grande. Seu pé gordinho. Sua tatuagem no braço esquerdo. Seus ombros delineados pelos anos de vôlei. Seu pensamento rápido e afiado. Sua gargalhada que é capaz de preencher esse quarto vazio. A temperatura elevada do seu corpo. Seu profissionalismo. Seu protecionismo. Suas lágrimas ao assistir alguma animação. Seu otimismo. Sua inteligência. Sua coleção de camisetas. Sua curiosidade. Seu romantismo. Seus tudos. Até seus defeitos.

Eu quase estive certa de que não morreria de você. E é exatamente por isso que não consigo evitar me apaixonar por você. Constantemente.  

PS: TEXTO ORIGINALMENTE ESCRITO EM SETEMBRO DE 2012. ACABEI ACHANDO NO MEIO DOS MEUS RASCUNHOS…

Como naquele filme que eu não canso de assistir

O alarme do interfone disparou para avisar que o táxi tinha chegado. Você me acompanhou até o elevador, de mãos dadas, meio que querendo me deter, meio que tendo a certeza de me carregar para fora da sua vida. Nos beijamos, com lábios longos, como se não quiséssemos dizer adeus. Eu te abracei, com força, querendo morar em seus braços para sempre. Você segurou meu rosto em suas mãos, como se quisesse para sempre se encontrar nos meus olhos…

Olhei para o chão e me desvincilhei – precisava ir para qualquer lugar longe de nós dois. A porta do elevador se fechou atrás de mim e quando me virei, seus olhos negros marejados foram a última coisa que consegui ver. Me senti como a Julia Roberts em “O Casamento do Meu Melhor Amigo”: eu poderia ter dito que te amava, mas deixei o momento passar. E lágrimas escorreram pela meu rosto.

Desta vez eu tinha certeza que tínhamos nos despedido para sempre.

365 dias


Mima

Naquela manhã em que o  amor deu seu primeiro suspiro rumo a uma morte dolorosa e lenta, havia cacos por todos os lados. Dos artigos de decoração, dos corações explodidos, das lágrimas que tocaram o chão, da confiança estilhaçada, da sua dor e raiva metralhadas. Naquela manhã tudo virou um sonho distante (e um pesadelo revisitado em imagens com blur, vez ou outra); do passado, presente e futuro que vivemos e viveríamos sempre…

Desde o ano passado o amor morreu três vezes: março, outubro e janeiro. E hoje  você resolveu aparecer. Você sempre me tirou o sono, de um jeito ou de outro, mas nunca tinha vindo para mostrar que minha vitimização tanto fez como faz – mesmo que a vitimização tenha sido apenas um método, bem comum, para aliviar a dor; um coração palpitante e um pouco de raiva para passar por cima daquela tristeza-rolo compressor-dos infernos.

E logo depois, já acordada e desperta para a vida, fui acometida por uma saudade súbita de todos os 53 meses antes daquela manhã, fui apunhalada por lembranças que a minha memória não aprendeu a deletar, bloquear ou qualquer coisa que pudesse não aparecer como telas de pop up. Ela me pegou no meio da corrida e corri dela a 14km/h, mas só consegui suar como se tivesse  sido trancada em um sauna no deserto e arranjei uma fadiga muscular nas coxas.

Antigas verdades viraram mentiras! Um tapa na cara, de costas de mão, com o peso de 10 elefantes brancos do Himalaia  para encarar a realidade: o término, o abandono, a superação rápida, o desalento e todas essas pontas soltas que desconcertam. Desconcertam não porque eu gostaria de te ver triste e chorando, mas porque me dá aquela sensação que não foi o que foi.

A gente conseguiu ser tanta coisa ao mesmo tempo… E agora somos só lembrança. Mas se nosso começo não foi rápido, como poderia acreditar que o fim seria? A verdade que em situações assim, a distância, o papel assinado, nada  disso faz diferença! Sem querer e de repente? Não teria sido amor se o fim fosse rápido como arrancar o band aid de um machucado. O fim demora um tempo para ser o fim mesmo.  Tarefa difícil essa de tirar da cabeça o que, na verdade, é do coração.

E apesar de tudo, do que sinto, do que escrevo e do que acredito, o fim, sem dúvida, vai chegar. E quando chegar, vou comemorar.

Mesmo não sabendo por quê.

*muitas frases têm inspiração dos tweets da @soulstripper

Para não dizer que não falei de amor

Me perguntaram, dia desses, bem no olho do furacão, se eu realmente sabia o que era amor, se eu acreditava.

Não respondi.

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Então fui até a parte proibida do meu armário. O álbum de casamento saiu da caixa colorida – refúgio que achei diante das milhares de tentativas de incendiá-lo. Não são fotos assim tão bonitas; um fotógrafo meio amador; eu um tanto gorda, com o cabelo e a maquiagem que desmancharam antes  mesmo de acabar a festa; você, cansado, fatigado pela doença, pela emoção. E nunca fomos tão lindos! Nem naquela viagem, naquele pôr-do-sol, naquele jardim que eu olhava bestamente, amando a natureza. A gente, que ama cidades, a gente sorria com promessa nos olhos.

[A última vez que te vi, depois de tantos meses, foi naquele tabelionato. Nós dois, no final, éramos dois trapos, duas partes. Lembro-me de olhar na porta espelhada, antes de assinar o divórcio, e pensar: como eu cheguei aqui? E de te encontrar em seguida e pensar a mesma coisa: como  esse cara não se cuidou? Porque a gente se fez tão mal?]

As manhãs enrolada no edredom vermelho, esse cúmplice de tantos anos, fazendo manha para não levantar, era só porque eu gostava mais dos cinco minutos com você na cama. Dormindo mesmo. A sua mania invasiva de colocar o peso das pernas  em cima de mim era reconfortante. Nem mesmo a  respiração pesada, ou o ronco, me deixava assustada. Eu já passei noites sem dormir pra garantir o seu sono bom, fazendo carinho no seu rosto e pensando como você poderia não querer filhos. Como o mundo poderia continuar sem ter uma parte de você?

[Passei tantas noites em claro, chorando, sem saber o que fazer. Sem saber como falar com você, sem saber como deixar o medo de lado e avisar que o barco estava afundando. Você nunca, nunca, soube ver as coisas. Eu sou a míope, mas você é quem sempre precisou de óculos fundo de garrafa para enxergar a vida ao seu redor]

Quando a gente debatia sobre filmes e séries e o passado. E virava as noites gargalhando, comendo pipoca, estirados no sofá. Ou quando discutíamos sobre cor e tamanho do cabelo, sobre o trabalho, sobre ciúmes. E passávamos a noite entre cafunés, carinhos e gemidos. Baixos, altos, sussurrados.  Pois só com muita intimidade a gente se sente confortável para revelar nossas vontades mais toscas, nossas taras mais bizarras sem medo de ser feliz ou de ser taxado como pervertido. A gente fodia com a alma. O amor é muito mais imundo que qualquer depravação.

[E então você me privava disso tudo e vinham aquelas brigas que dilaceravam minha alma, que te deixavam puto a ponto de sair de casa. Aquela vontade de sumir de tudo, de nunca mais voltar, de desejar nunca ter te conhecido]

A gente gostava de conversar. Adorava ver você me ensinando suas nerdices, sobre sua profissão. Eu me apaixonava pela sua inteligência e dedicação. Justificava o que muitos jamais compreenderam. Gostava de ver você me vendo, me admirando, rindo do meu sorriso torto, dos meus tombos cômicos, dizendo que meu olhos eram os mais lindos que você já tinha olhado. Justificava o que muitos nunca compreenderão.

[E, na verdade, nem era nada demais. É que juntos podíamos ser nós mesmos, muitos eus, muitos vocês, muitos nós. Mil deles]

A tatuagem no braço direito e tudo o que ela significa, deixa claro que não há passado que realmente tenha passado. Que em determinados assuntos, cenas, séries, músicas e filmes eu resgato você – e algumas sensações minhas ainda têm um pouco de você – e tudo que você significou. É bem mais involuntário do que isso que agora sinto por você.

[Mas isso não vai mudar o fato de que acabou. Não vai mudar o fato de que nós dois não somos mais “nós”. Que a gente foi e foi pra sempre mesmo. Mesmo que sempre seja uma palavra tão pontual que devamos evitar como o tal do nunca. O amor verdadeiro está na renúncia e eu renuncio tudo que existiu, que foi lindo, mas que – como tudo na vida – teve um fim. Dizer que não deu certo seria blasfêmia, deu sim, certo demais, mas acabou. Como um filme bom, que nem Moulin Rouge que toca a gente, mas acaba. Ou como livro que a gente tenta, em vão, ler devagar para o fim não chegar]

Me perguntaram, dia desses, bem no olho do furacão, se eu realmente sabia o que era amor, se eu acreditava.

E na hora de explicar o que chamo amor, acabei não achando um jeito melhor do que falando de nós.

Não aprendi dizer adeus!

Ainda lembro daquele outubro de 2010; dia 7 para ser precisa. Eu te vi e soube o que era amor à primeira vista.

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Lembro de sair para comprar a fantasia da Manu e ter voltado com você – e todas suas parafernalhas – nos braços. E de como abria um sorriso largo toda vez que eu contava essa história. Lembro de como você mudou toda nossa vida e de como fomos muito mais felizes ao seu lado. Lembro da sua alegria contagiante quando alguém chegava em casa e como era recebido por vários lambeijos. Lembro de você ficar acordado 5 noites inteiras comigo enquanto esperávamos seu pai sair do hospital. Não saiu de perto um minuto sequer e permitiu que minhas lágrimas molhassem seus pelos lindos. Lembro de você correr comigo no parque, acordar a Manu para ela ir à escola, comer minha pipoca e esquentar meus pés nas noites frias…

Como um ser tão pequenino e peludo pôde transformar tudo? Parecia que estávamos lá, só esperando você entrar em nossas vidas!

Também lembro das suas traquinagens e de como queria arremessar você janela afora quando comeu todas minhas fotografias de bebê. Ou o desespero quando você derrubou a Manu e saiu correndo… Você sabe o que é uma mãe tendo que correr atrás de um filho e socorrer outro? Com medo que outra família te pegasse – quem resistiria? – eu fui atrás de você, para depois cuidar dos ferimentos da sua irmã. Francamente…

E o quanto me irritava sua mania de arranhar a porta para dormir na cama, descascando toda a pintura? Ou das artimanhas que precisávamos criar quando queríamos ficar a sós? Ou aquela sua mania nojenta de lamber meu umbigo? Muitas vezes eu perdi a paciência, eu neguei carinho tentando te deixar menos mimado ou evitei fazer barulho para que você não acordasse e pulasse de felicidade, não parando quieto nem quando eu entrava no banho.

Hoje eu chego em casa esperando que, milagrosamente, você venha me receber na porta, lambendo meu queixo freneticamente. Tenho esperança de que eu vá chegar e minhas roupas estarão espalhadas, você deitado em cima delas, para sentir meu cheiro na tentativa de matar a saudades. Essa mesmo que sinto daqui, que dilacera meu peito. E de que na hora em que eu e a Manu formos dormir, você irá se colocar no meio, pedir o cafuné com esses olhos negros pidões que ninguém resiste, suspirar fundo e encostar sua cabeça no meu sovaco – seu lugar preferido para uma soneca.

Como dói saber que você já não faz mais parte da minha vida… É tudo menos colorido sem sua felicidade inabalável e seu carinho infinito. Saudade agride, desconforta, atrapalha. Mas pior que saudade seria não ter conhecido você; você me deu um novo tipo de amor, um carinho inesquecível e foi meu confidente, meu Ursinho Pimpão, por todo o tempo que passamos juntos. Justo eu, que ridicularizava as mulheres que chamavam seus cachorros de filhos…

Não aprendi a dizer adeus, não sei se vou me acostumar! Olhando assim nos olhos seus, sei que vai ficar nos meus a  marca desse olhar… Você, Michael Jackson (MJ, Mikinho), é  minha saudade tatuada na pele com ferro em brasa. Só quem amou um cachorro, só quem amou você, tão leal, tão amável e feliz, entende o que eu quero te dizer!

Por todos os dias, para sempre, eu vou sentir sua falta.