Enquanto o amor não vem

Enquanto o amor não vem, eu vou viver histórias de paixonite e vou escrever sobre todas; torná-las mágicas e especiais – até porque alguns momentos foram e serão. E espero que elas deem errado, porque tudo na vida dá. E que eu passe um tempinho cabisbaixa, me consolando com as amigas, encontrando desculpas para comer brigadeiros e tomar shots de tequila. E logo depois eu recomeço. Mais uma vez. Quantas mais forem necessárias. E que os recomeços sejam cheios de sorrisos, beijos e pegação.

Eu vou dedicar muito tempo aos treinos para me sentir mais gostosa e receber muitos olhares aonde quer que eu vá. Vou aproveitar para cuidar do meu cabelo, deixá-lo crescer como tento há anos, ter paciência para procurar os muitos fios brancos e arrancá-los com pinça. Eu vou aproveitar para fazer maratonas de série, assistir muitos filmes – online, no Netflix ou no cinema.Vou estar sempre rodeada dos amigos, largar qualquer outra coisa para ajudá-los. Ou cercada dos meus bebês. Ou passar um domingo inteiro dentro do quarto, lendo um livro, arrumando memórias enquanto tomo café e fumo meu único cigarro do dia. Ou vou sair para correr, para ir à igreja, para tirar fotos do pôr do sol.

Eu vou aproveitar para usar calcinhas grandes e confortáveis, para não ser tão pontual com a depilação ou com a manicure, para usar mais das minhas calças de moletom e minhas camisas surradas. Vou aproveitar para usar batom vermelho, daqueles que borram muito, sem ter que ouvir o namorado reclamar – afinal não é sempre que beijarei alguém. Vou aproveitar as noites de insônia para otimizar o trabalho, para reler as mensagens do whatsapp do novo casinho ou para escrever mais um texto. Vou aproveitar para deixar o celular longe e não correr para atender quando ele tocar.

E se perguntarem por mim diga que estou ótima!

E se perguntarem por mim diga que estou ótima!

 

Vou aproveitar para não me planejar. Vou aproveitar para explorar outros lugares sozinha, ir à exposições. Sem ter que dar satisfações. Eu vou aprender algo diferente todo dia. Sobre mim, sobre os outros, sobre o mundo, sobre social media. Eu vou aproveitar para tentar ser vegetariana.Vou aprender a cozinhar novos pratos. Ou vou viver de miojo por uma semana. Eu vou sair para dançar ou vou para um bar. E aproveitar para suar todo o vestido ou ficar tão alegre, que as palavras saiam enroladas e as pernas bambas. Nada de “caçar”. Muitas vezes só queremos nos divertir muito, ao lado de pessoas que gostamos muito. Estar sozinha não é estar à procura de um cara qualquer, que ocupe o lado esquerdo da sua cama – e os buracos do seu corpo – apenas para marcar presença. Entre um sexo meia boca e a felicidade de dormir 12 horas direto, sozinha na cama de casal, fico sempre com a segunda opção.

Enquanto o amor não vem, eu não vou mais ficar na janela, vendo a vida passar. Não há vida para ser desperdiçada. E não há tempo a perder com pessoas que me olham com pena, que acham que eu me cerco de pessoas para preencher o vazio. Não há vazio algum. É muito amor para dar, na forma que for. E eu dou, como posso, para quem eu quiser. Não adianta nada eu esperar pelo o amor de outro se eu não aprender que o melhor amor é o próprio. Ser solteira não significa estar sozinha, embora às vezes eu me sinta, significa que aprendi que para estar ao meu lado tem que ser melhor do que a minha própria companhia. As pessoas esperam que o amor seja o alívio para suas dores, sem saberem que o amor é a recompensa por você já tê-las superado e saber se bastar.

Quando o amor chegar, eu vou saber. E sei que a vida será diferente e vai mudar. Quem não vai mudar serei eu, pois enquanto o amor não vem eu estou aprendendo a me amar mais do que nunca.

Anúncios

A primeira vez a gente NUNCA esquece. Ocasionalmente, a última também não

– “Tenta sim. Vai ficar lindo.”

Sempre ouvi essa frase de inúmeras amigas, falando da bênção da depilação: os pêlos demoram a crescer, namorados adoram. Comentando com meu namorado da época, ele adotou a idéia e tal qual eu fui à depiladora.
Fiz meia-perna, buço, virilha e axila. Ok, tudo normal, não morri. Depois que engravidei e minha rebenta nasceu, passou-se mais de um ano e cismei de voltar à depilação da virilha e buço.

Eis que chego à depiladora e ela começa um pequeno interrogatório:

– “Virilha normal ou cavada?”

Eu nem sabia o que seria uma virilha cavada. Mas já que era pra fazer, quis fazer direito. “Cavada mesmo”, sentenciei. Tinha escolhido uma calcinha apresentável e a Néia pediu que eu a seguisse até o local onde o ritual seria realizado.

 Adentrei num longo corredor, onde, de um lado a parede e do outro, várias cortinas brancas. Por trás delas ouvia gemidos, gritos, conversas. Uma mistura de Calígula com O Albergue – pois até então eu fazia tudo com uma depiladora que atendia em casa, nunca havia freqüentado tal espécie de clube de swing. Eis que chegamos ao nosso cantinho: uma maca, cercada de cortinas.

– “Querida, pode deitar.

Tirei a calça e, timidamente, fiquei lá estirada de calcinha na maca. Mas a Néia mal olhou pra mim. Virou de costas e ficou de frente pra uma mesinha. Ali estavam os aparelhos de tortura. Vi a panela, uma máquina de cortar cabelo, uma pinça. De repente ela vem com um barbante na mão e amarrou as laterais da calcinha.

– “Quer bem cavada?”

– “É…”. e nesse momento apenas fiquei pensando quem, afinal das contas, apreciaria minha ousadia!

– “Os pêlos estão altos demais. Vou cortar um pouco senão vai doer mais ainda.”

– “Ah, sim, claro.”

De repente, ela volta da mesinha com uma espátula melada de um líquido viscoso e quente – a cera!

– “Abre as pernas assim, como se fosse uma borboleta” (joelhos dobrados, uma perna pra cada lado).

– “Assim?”

– “Não, arreganha mais, assim…”

 Arreganha mais assim? Nenhum cara com quem eu tivesse trepado, metido, fudido me falou nesses termos! Aí uma loira, alta, bonita, vem e fala assim comigo? Me senti estuprada! E foi tão óbvio, pois até corada eu fiquei. Ela riu. Que situação, quis arrebentar o nariz de batata dela.

 

Ela passou a primeira camada de cera quente em minha virilha e a sensação já era conhecida, até a hora de puxar. Foi rápido e fatal: achei que toda a pele de meu corpo tivesse saído, que apenas minha ossada havia sobrado na maca. Não tive coragem de olhar, achei que havia sangue jorrando até o teto. Segurei o grito, tentei não expressar toda minha dor, mas a Néia perguntou se estava tudo bem quando me notou roxa. Tinha esquecido de respirar, com medo que pudesse doer ainda mais.

O processo medieval continuou. A cada puxada eu tinha vontade de espancá-la. Lembrava das minhas depilações anteriores e cogitei a hipótese de que alguma filha da puta que me odeia, tivesse contratado aquela loira nazista para acabar comigo.

– “Posso depilar os lábios todos, ou você quer que deixe um bigodinho?”

Bigodinho? Era parente do Hitler mesmo, provavelmente uma neta, cujo filho ele deve ter escondido. Caralho, que coisa ficar com a xoxota que nem de nenê, mas topei. Quem está na maca é para se fuder mesmo.

Não bastasse minha condição, a depiladora do lado invade o meu cafofinho e dá uma conferida. “Olha, tá ficando LINDA essa depilação.”

– “Menina, mas tá cheio de encravado aqui. Olha de perto.”

Se tivesse sobrado algum pentelhinho, ele teria balançado com a respiração das duas, estavam bem perto das portas do paraíso. Cerrei os olhos e pedi que fosse um pesadelo – até pedi a algum anjo que me teletranspotasse para qualquer lugar BEM longe dali – só voltei à terra quando entre uns blábláblás ouvi a palavra pinça.

– “Vou dar uma pinçada aqui porque ficaram um pelinhos, tá?”

– “Pode pinçar, não tô sentindo nada mesmo.”

Estava enganada. Senti cada picadinha daquela pinça filha da puta arrancar cabelinhos resistentes da pele já dolorida. E quis matá-la, mas mal sabia que o real motivo para isso ainda estava por vir

– “Fica de quatro agora?”

– “Hein?” Fiquei estática! “De quatro pra quê?”

– “Para fazer a parte cavada.”

Pior não podia ficar: não bastasse a dor, a arreganhação toda, duas mulheres conferindo cada centímetro da minha virilha, agora eu ia ficar com a bunda projetada para o alto, a Deus dará. Nunca na minha vida tinha sido tão humilhada! No entanto, obedeci. Respirei fundo, deitei de bruços e na maior cerimônia, me pus de quatro, esperando pelas próximas orientações

– “Segura sua bunda aqui?”

– “Hein?”

– “Puxa as duas bandas para abrir mais e não grudar.”

Tive vontade de chorar: eu não podia ver o que ela via, o que ela faria, mas ela estava de cara para ele, o olho que nada vê… Quantos haviam visto, à luz do dia, aquela cena? Nem meu ginecologista, nem meu namorado. Quis chorar, gritar, peidar na cara dela, como se pudesse envenená-la. Mas de repente fui novamente trazida para a realidade.

Senti o aconchego falso da cera quente besuntando meu olho cego, não sabia se ficava com mais medo da puxada ou com vergonha da situação. Sei que ela deve ver mil cús por dia, o que até aliviava minha situação, afinal por que ela lembraria justamente do meu entre tantos?

Fui impedida de continuar meu questionamento particular, a Néia puxou a cera: achei que o pouco de bunda que Deus me deu, tivesse ido embora. Num puxão só, ela arrancou qualquer coisa que tivesse ali, com certeza não havia nem uma preguinha pra contar história.

Apenas uma lágrima solitária escorreu de meus olhos. Era dor demais, vergonha demais, aquilo não fazia sentido. Estava me depilando pra quem afinal? Ninguém ia me comer, muito menos ver o tobinha tão de perto daquele jeito.

– “Terminamos. Pode virar que vou passar maquininha.”

– “Máquina pra quê?!”

– “Pra deixar ela com o pêlo baixinho, que nem campo de futebol. Só precisa tirar a calcinha”

Mais um choque! Como alguém fala isso sem antes pegar no peitinho? Nunca aconteceu comigo e olha que não tirei a calcinha poucas vezes! Mas o choque foi substituído por uma total redenção: ela viu tudo, da xoxota ao cú.

– “Prontinha. Posso passar um talco?”

– “Pode, vai!”

– “Tá linda! Pode namorar muito agora.”

Namorar, namorar o caralho! Eu estava com sede de vingança. O resultado foi fenomenal: bonito, lisinho, sedoso, mas doía e incomodava demais. Queria virar feminista, morrer peluda, protestar pelo reflorestamento da floresta. E que venham elogiar, dedicar horas de sexo oral… eu ainda opto por barba, cabelo e bigode!