Só agora eu sou assim

Por diversas vezes eu escutei que deveríamos ter cuidado com o que desejamos, afinal desejos podem, de fato, serem realizados. A cada paixão não correspondida, cada briga, cada rompimento, cada lágrima queimando a face, eu pedia ao Universo para ser uma pessoa menos passional, menos emotiva. E, então, eu me tornei cínica!

Sou capaz de ter crises de choros em filmes, seriados, músicas e até vídeos que falem de amor. São lindos, emocionantes e me arrepiam, mas esta é uma realidade desconstruída para mim. Não importa quão incrível seja eu estar com um alguém, há sempre uma barreira entre mim e o potencial desenrolar dos fatos.

Eu desapareço e nem sempre é porque eu quero causar algum mal, apenas prefiro evitar o inevitável. Sem dúvidas, mas cheia de anseios e angústias, eu sei que além disso eu vou me atirar no abismo, no mar, e ficar mergulhada até o pescoço. Eu não sei ser metade. Cheia de tantos “e se”, eu sou intensidade até a última célula.

Contraditório? Tenho a mania de sempre dizer que eu jamais faria algo, até ir lá e fazer. Às vezes é para provocar qualquer possibilidade de autoridade para cima de mim, às vezes é só porque eu realmente mudei de ideia no meio do caminho – depois de analisar tanto, a ponto de ser consumida pela enxaqueca e amanhecer com bolsas embaixo dos olhos. Nem sempre é preocupação com algo, é apenas uma maneira de eu viver diversas vidas, explorando todas as possibilidades. OVER. Over thinking, over reacting, over feeling.

michelle

Mas nada em mim é falso. Se é para rir, dou gargalhadas até perder o ar; se choro, sou uma excelente alternativa para a crise hídrica; se é para ser amiga, troco minha vida pela sua. E mesmo assim, ressalto meu coração negro e peludo, para poder esconder algo que me é tão precioso… Não me dou por inteiro a qualquer um, porque a vida ensinou que nem todo mundo merece o melhor de mim. Difícil? E cansativo também. Mas nada comparado ao desgaste de recolher os cacos do coração, enquanto mãos e joelhos estão sendo cortados ao tentar juntá-los.

Coleciono papéis antigos, postais e lembranças de tudo que passei. Tenho um carinho por todos aqueles que passaram pela minha vida, reconhecendo nisso uma espécie de amor: o que não machuca. Mesmo que eu tente guardar rancor, só guardo nomes. E depois de um tempo, depois de entender o que aquela pessoa me ensinou, eu só passo a desejar que seja feliz na vida que escolheu. Mas que fique longe! Sou orgulhosa até a hora em que preciso deixar de ser. Sou fúria até a hora que a primeira lágrima cai e toda minha muralha cai por terra. E então eu fujo.

Fujo porque só assim me sinto livre: tendo asas para voar (mesmo que eu não saia do lugar) e raízes para voltar. É questão de saber que posso, que não tenho amarras. Ser assim, enfim, tão minha. E ainda que a solidão escolhida tenha seu certo pesar, não existe sorriso falso: todas minhas rugas são as cicatrizes de quanto fui e sou feliz. Não vivo a vida que não é minha, nem crio cenários alternativos para a vida real. É aqui. É assim. É agora!

E agora sou cínica. Sou tudo o que desejei tantas e tantas vezes. Minha frieza não é falta de vontade de viver a sorte de um amor tranquilo. É a vontade de não ver mãos cobertas de band-aids, de não usar merthiolate nos joelhos- porque, na verdade, para mim, doeu sempre! Mas daqui em diante  tudo pode mudar. Eu posso entrar no metrô, no Tinder, no Starbucks e encontrar a pessoa que vai me mostrar porque vale a pena mudar de ideia no meio do caminho.

Mas agora, só agora, eu vou ficar aqui, sorrir e sentir que não dói mais.