Come what may…

Existe uma beleza nessa solidão voluntária. Existe beleza em tudo que ela me traz; autoconhecimento, discernimento, textos, livros, filmes, passado virando passado.

Existe um “que” de egoísmo. Não daqueles desmedidos, mas daquele necessário. Daquele que a gente só enxerga em tempos assim. Daquele que faz crescer um amor que muitas vezes é deixado de lado.

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A felicidade sempre me doeu como se tivesse a intensidade de uma batida de trem. Mas só porque acreditei que aquilo era tudo que merecia, que receberia. Hoje encaro o trem de frente, sem que as luzes me ceguem, sem que a velocidade me desconcerte. Quero tudo novo, de novo!

E eu não vou justificar, dizendo que fui ferida e quero me permanecer assim, intocada, até que nada mais mexa dentro de mim. Eu tenho sangue correndo nas veias, um coração bombeando cada parte dos meu 1,59m e 8 milímetros de altura. Sou feita de carne, osso e hormônios. Da ponta do pé até a raiz do fio de cabelo.  Sou o que quiser ser sendo; vou sendo como posso e me descobrindo a cada passo.

Sou dessas mocinhas filhas da puta vitimizada de comédia não romântica, dessas que aprontam bastante e que no final – se é que tem um – conseguem um final feliz alternativo. Porque o “happy end”  não significa ter alguém ao lado; significa ser capaz de encarar as decisões, de arcar com as consequências, de aprender com os erros, de expressar os sentimentos, de ser íntegra e verdadeira consigo mesma, de fazer o melhor a cada dia – para si mesma e para aqueles que se ama.

Porque talvez o final feliz seja simplesmente isso: seguir em frente!

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Se o amor não fosse brega, Roberto Carlos não venderia discos

Nunca sabemos ao certo quando um amor acaba, apesar de vez ou outra termos a convicção plena de que tudo é passado. Mas então, a vida – como sempre – pode te surpreender e não da melhor maneira. E tudo que te faz companhia a partir daí são as recordações e uma solidão interna que não pode ser preenchida, nem deixada para trás. Ela te acompanha quando desce seca pela garganta, quando você folhea seus álbuns com dedos trêmulos ou escuta uma canção com ouvidos de tuberculoso.

E você se pergunta se ele ainda pode saber seu número, seu endereço, seu email ou se bloqueou o MSN. Pois nessas horas qualquer notícia aliviaria seu coração, principalmente se ele estiver tão miserável quanto você. Assim sendo, porque vocês não poderiam dividir um lenço para enxugar as lágrimas e se apoiarem nos ombros alheios para curtir essa dor dividida em dois? E fantasiosamente vocês podem até dividir – só por aquele instante de ressucitamento – o edredom e esquentarem um pé um do outro enquanto riem como no dia mais alegre da vida a dois. Desprentensiosa e sinceramente, como se o mundo fosse apenas viver feliz.

É algo mais sutil e menos óbvio, por isso tão doído quando resolve ressurgir. Era para ser esquecido, relegado ao frio do descaso e indiferença, como aquele último bilhete idiota pintado no espelho do banheiro, que desapareceu com o vapor do banho quente após a ressaca do crível. Porque, afinal, que porra é essa de invadir os pensamentos em dias e momentos mais impróprios? Quando a vida acha seu meio de se fazer feliz e colorida novamente? São as imagens em preto e branco que vem incomodar como os pernilongos em noites insuportáveis de verão!

Lembranças… é o que se tem. A pessoa não está ao seu lado. Não te abraça para que chores copiosamente. Não volta da cozinha com um copo cheio de Coca-cola. Não faz um cafuné quando não sabe mais o que dizer para você se sentir melhor. Não existe a pessoa para encontrar um meio de fazer um sorriso bastar. Só o vazio das recordações, só sua lágrima fazendo um baque surdo na fronha do seu travesseiro, que você agarrou com todas as forças para se permitir um luto tardio.

Talvez a vida goste de sacanear, de trazer amores errantes – e errados – assim. Pessoas que compartilharam e quando não lhes bastou mais, foram embora sem sequer lembrarem das promessas e juras declamadas ao pé do ouvido entre dentes alvos graciosamente desalinhadinhos. Talvez tenha sido isso, talvez a culpa seja sua. E então esse rímel borrado e esse batom manchado, transformando seu rosto em uma pintura patética, lhe caiam bem, merecidamente. Porque o tempo transforma todo amor em quase nada – e embora “quase” seja apenas mais um detalhe – ainda existem amores além da mediocridade, além do lugar comum.
Amor como esse: exatamente esse que você perdeu…. e quase esqueceu.

Para o amor perdido

Fiquei triste. Num momento você estava aqui e – assim como uma samambaia que deixa de ser regada, murcha e morre – demorei para perceber que há tempos você já não estava mais.Para onde foi tudo aquilo? Que começou tão alegre, descontraído e livre? Para onde foi aquilo que tinha tão seguro, tão apaixonante? Tão certa da sua eternidade. Para onde foi, porra? Meu peito, depósito subitamente esvaziado, aperta-se no meio de tanto espaço.

Tento identificar o preciso instante, quando o que tínhamos se perdeu. Mas nem sei se o perdemos juntos ou se juntos ainda estávamos. Quantos erros misturados como pernas de novos amantes. Erramos juntos? Uma sucessão de erros coroada com um golpe final tão vil. Não sei quem errou primeiro, sei que EU deveria ter tirado o time de campo antes da prorrogação. Me desespera saber que um amor, um dia desses tão arrebatador, tenha desaparecido e deixado tanta mágoa nesse rastro.

A solidão me obriga a recorrer às lembranças. São elas que me dão forças para sobreviver nesse buraco no qual me joguei. São elas que me trazem o melhor de você, de mim, de nós. Surgem como um slide-show, ao som de Plácido Domingos e John Denver, e preenchem – temporariamente – o lado esquerdo da minha cama. As lembranças tornam-se o melhor paliativo quando ainda acredito amar o homem mais decente, generoso, amigo, divertido, engraçado, companheiro, encorajador, desafiador, estimulante, enlouquecedor, irritante que conheci. Pois sim, elas também carregam o pior de você, de mim, de nós…

Então recorro ao poder das cartas. Não as de tarô, mas destas, escritas, enviadas (ou não), publicadas. Cheias de questionamentos, metáforas, saudades, lágrimas subliminares, alívios, rancores, que assim, misturadas numa espécie de dadaísmo sentimental, soam um pouco mais sensatas que as ridículas cartas de amor. O único poder que espero desta, é deixar registrado esse meu estranho momento. Quando o que deveria ser angústia revela-se alívio… e vice-versa.

Não gosto de perder, você sabe. Embora nessa situação, perder também seja ganhar. Ganhar mais autonomia, mais amor-próprio, mais aprendizados e, em troca, perder alguns “amigos” e você… pode-se acreditar numa balança equilibrada. Mas agora, cercada de solidão, procuro o que procurar. Sabendo que não desejo encontrar nada, experimento o desânimo da busca desiludida. Pois se um amor como aquele acaba assim, vale a pena um outro? Será inteligente apostar tanto num novo?

Não desejo nenhuma resposta sua, pois tenho certeza – baseado em suas “verdades” e “conselhos” de amigos – que você está se lixando para tudo isto. Talvez lhe doam os sentimentos, o orgulho, mas o resto é resto. Você seguirá sua vida tranqüilamente e assim deve ser. Pode até achar graça da minha “desgraça”, uma punição por mais uma travessura da Menina Má. Mas se um dia tiver essa mesma vontade idiota que tive, vá em frente: desabafe! Se esse desabafo vier em forma de carta, faça diferente de mim e rasgue-a. Picote em milhões de pedacinhos e jogue-os no lixo, sendo esse o destino mais nobre para as emoções abandonadas.

Então é isso, essa história já tem um final: ao mesmo tempo em que me sinto livre desse relacionamento, apenas precisava de palavras que fizessem jus ao fim do amor que senti. Deixo esse testamento de dor, onde me reconheço fraca e irremediável. Pois embora saiba que nenhum câncer é extirpado sem causar danos, às vezes sinto-me tentada a poder acreditar numa metástase.

Sua ex.

Quando passa a ser sério

 

 

Mais um dia como dona-de-casa e mais um filme na Tv. Mas não é qualquer filme, é o meu favorito: “O Casamento do Meu Melhor Amigo”; e não pude deixar de extrair algo importante.
Em determinado ponto, a personagem da Julia Roberts (Julianne) e do Dermot Mulroney (Michael) estão em um barco-restaurante e ele comenta sobre a importância de falar as coisas no instante em que elas acontecem, que há um instante para cada coisa ser dita e que depois daquele instante, tudo passa e a mesma coisa, ainda que seja dita, não é a mesma, não tem o mesmo impacto.

Há 10 anos me pergunto o motivo de Julianne ter desconversado, não ter falado que o amava, apenas hoje entendi que é o medo que a deixa paralisada. Talvez tenha demorado em compreender, pois sou conhecida por não ter medo de falar o que me vier à cabeça, de seguir meus impulsos. Então me deparei com certas questões: o que eu temo? O que a maioria das pessoas teme? Quando superamos um medo? Será que todo mundo tem medo de alguma coisa?

Nenhum medo é bobo, nem idiota, embora existam os medos comuns; de barata, rato, aranha, escuro, injeção. Mas quero falar daqueles medos que nos petrificam, que são difíceis de serem superados. Somente cada um de nós sabe o que nos deixa sem reação, que nos faz aceitar coisas que normalmente não aceitaríamos. A morte me vem à cabeça agora, mas todos nós morreremos mesmo, então…

Paralisa-me pensar na solidão. Não aquela que sentimos de vez em quando, mas uma permanente e dolorosa. Embora tenha amigos incríveis, eles têm vida própria. Embora eu tenha uma filha, filhos são criados para ganhar o mundo, não para grudar-se em nossas saias. É aquela solidão de não ter um companheiro, de não ter alguém que envelheça ao meu lado. É imaginar que meus dias passarão de lembranças, de rever minha juventude pelos os olhos da minha peuqena.

Porque as mulheres que casam não são como eu!

Às vezes me pego pensando se uma vida normal aconteceria comigo… e hoje, talvez pela primeira vez, eu percebi que não é uma vida padrão que me faria feliz, porque enfim eu vi que eu não sou uma mulher padrão. Posso parecer forte como um muro, mas qualquer um que olhe dentro dos meus olhos por mais de cinco segundos consegue ver que, de verdade, eu sou uma criança assustada, e que muitas das minhas reações explosivas não são nada mais que uma defesa.

Mas tem uma coisa que eu realmente não posso negar: cada vez que eu caio, cada vez que eu acho que a coisa vai mesmo pro saco eu tenho alguém que me chacoalha e que me lembra que a vida sempre caminha para frente. E um dia eu sei que eu vou acreditar nisso, até porque eu vou entrar em terapia de eletro choque se eu não acreditar – rs!

Uma vez eu li um cartão postal com um sapo e estava escrito “Un jour ton prince viendra” (um dia seu príncipe virá). Por mais que hoje eu não tenha nem o sapo, no fundo eu sei que a coisa vai andar… no MEU padrão e para frente!

texto escrito a quatro mãos: minhas e da minha irmã

 

 

 

 

 

O que a luz negra não revela

São depois dessas noitadas de sentimentos efêmeros, pessoas fúteis e tristeza mascarada em sorrisos para fotos de sites, que se pode vislumbrar algumas coisas perdidas mais no tempo do que no espaço.
Mesmo que seus amigos estejam lá, você está na companhia deles – talvez, impelido pelo sentimento ilusório e hipócrita de que dias melhores virão – por não ter a opção de estar com quem realmente gostaria.
Alguém para ligar de madrugada e dizer, e ouvir, “eu te amo”, para fazer carinho ou cócegas, que estale seus dedos do pé com maestria ou até mesmo para enxugar suas lágrimas – e reclamar – na enésima vez que você assiste Dirty Dancing, ou qualquer outro filme que lhe provoque pequenos choros.

Ele que te mimou, ninou, cuidou, protegeu, brigou quando necessário, escutou, apoiou, riu ou chorou contigo e amou mais do que qualquer outra coisa até aqui.

Então, no meio daquela multidão, está tudo vazio. Vazio, esse preenchido por Marlboros light, litros de café e capuccino, músicas gravadas nos cd´s que ele se preocupou em fazer para te agradar, fotos, palavras desconexas, Lexotans e comida.

De preferência leite condensado com Nescau ou no sorvete de flocos com granulado. Aí você pensa nas coisas que fez, ou deixou de fazer, para que estejam separados. E não encontra respostas para um maldito por que.

É uma dor pior que cauterização, que tatuagem na bacia. Como se, primeiramente, a alma fosse arrancada igual band-aid, depois esticada como fio de náilon e, por fim, cortado com a habilidade do Jack Estripador. Seu corpo sangra em lágrimas. Dói mesmo. Incomoda como uma queda sem fim; coração, estômago e cérebro na boca, prestes a caírem, caso não toque o chão… e você não toca.

Os sonhos sonhados juntos, o futuro planejado que nem chegou, promessas quebradas, juramentos desfeitos… Diante de qualquer fresta tenta-se enxergar uma luz – de esperança que esse pesadelo termine – no fim do túnel. Mesmo que nenhum dos dois saiba onde este fim está… ou se, de fato, esta história teve um ponto final.

O que acontece é que morremos um pouco a cada dia. Pois nos acostumamos a não ter mais… é isso, acomodação dos fatos. A gente adapta-se a viver uma vida ordinária, sem muita graça. Carregada por sorrisos amarelos, dores nas almas, programas às vezes sem importância. E o que você queria era apenas estar deitada na sua cama, aninhada no peito dele contando alguma piada idiota, fazendo voz de neném.

E saímos desses lugares prometendo não voltar lá tão cedo. Não porque seus amigos não te façam gargalhar – eles são os melhores paliativos – ou porque você não queira se divertir e sair um pouco desse ar carregado de tristeza e arrependimento. Mas porque esses locais reforçam a idéia de solidão.
_ texto escrito antes de chegar em casa, depois do Moby, lá no posto da Francisco com o canal 2. Na companhia de duas xícaras de capuccino, um copo de café e da paciência do Adriano (escrito originalmente em 26/06/2004, mas que se aplica MUITO bem a esses tempos)_