Carta para o amor que (se) foi

Você chegou com dia marcado: era um sábado de sol, em 9 de julho de 2016, e eu não acreditava que você estava realmente ali, me esperando na porta da casa da minha prima. Eu também não acreditei enquanto você segurava minha mão, caminhando à procura de um anel, e nem quis acreditar também no casal de velhinhos que conversava com a gente no primeiro Starbucks que dividimos, dizendo que tinham acabado de se conhecer e estavam reaprendendo a amar. Foi só então que acreditei… e eu fugi.

E talvez eu deveria ter te contado que esse foi meu ato covarde, no qual preferi te culpar por quase tudo, porque eu ainda não estava pronta para o que você traria. E que os 9 meses para abaixar minhas armas, me render à você e te amar pacificamente, pareceram anos.

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Mas não foi assim. E nós sabemos disso, nós sempre soubemos. Mas essa carta não é para dizer tudo que já analisamos minuciosamente nos diversos momentos que ficamos juntos, deitados, sentindo a pele um do outro. Eu queria te contar o quanto eu tentei, absurdamente, ser a pessoa que você precisava – sem nem dar atenção à pessoa que eu precisava ser para mim, porque eu estava tão feliz de não ter mais medo de amar, que achei que “o nós” era o mais importante. Eu queria te contar o quanto eu segurava as lágrimas de felicidade quando nós 5 nos juntávamos no sofá e o filho número 2 se aninhava em mim; ou quando o número 3 me deixava beijá-lo e chamá-lo de meu também. Eu queria te contar que eu estava imensamente feliz de dormir em cima do seu peito e escutar as batidas do coração que ninguém mais no mundo tem – e o quanto elas faziam com que eu me sentisse “em casa”; o quanto eu amava cozinhar para vocês, para os seus amigos e de dormir no tapete da sala do seus pais, envolta por você. Ou te contar que de longe eu reconhecia seu cheiro e que eu o amava até quando você voltava da usina de uniforme e com cara de emburrado – e como eu já pensava em uma maneira de fazer você rir, nem que fosse de mim. Eu tentei, tentei te falar tudo isso.

Mas eu não dei atenção aos meus muitos anos de relações turbulentas que se mostravam para você. Eu ignorei que, apesar de nos conhecermos bem, você não sabia que te mandar embora era meu jeito de tentar evitar não te ver ir porque eu te cansei pelo meu jeito agressivo e que se atropela todo em mostrar amor, por mais que fale sobre com toda clareza. E você foi – porque eu também não sabia que você estava segurando tanto e tudo naqueles dias que ainda lhe são bastante difíceis.

Você foi e levou consigo um pedaço do coração que você remontou todinho. Você foi e levou um pouco do meu sorriso, do colorido dos meus dias e da minha recente fé no amor. Mas você deixou tanta coisa… Deixou a certeza que sozinha eu não conseguiria vencer meus obstáculos e fez com que eu fosse, finalmente, em busca de uma felicidade que só eu posso me dar; deixou a certeza que não se ama apenas uma vez e que só o amor nos cura; deixou ainda os ouvidos e conselhos que volta e meia eu busco; deixou palavras bonitas, dizendo que eu tinha te devolvido seu coração também – para quem está acostumada a quebrá-los, isso foi um bálsamo na alma.

E, no fim das contas, por mais que a saudades bata, eu sei que não há mais nada que nos mantenha juntos. O fim veio com motivo: estamos cada um em sua jornada e não poderíamos ser o que desejamos um para o outro. Longe de ter sido fácil, mas sem mágoas, com respeito e com tantas clarezas… e é por esta razão que onde você estiver, com quem você estiver, eu desejo que você seja verdadeiramente feliz. Mas essa carta também não era para te contar isso.

Eu escrevi esta carta para te contar que apesar de tantas coisas que agora eu sei sobre nós, eu não sei do nosso futuro (eu também não duvido de nada entre/com a gente). E há algo aqui dentro, naquele pedacinho do coração que você conquistou depois da conversa mais difícil que tive com você, que me diz que nossa história é meio música do Fábio Júnior. Você veio com dia certo, eu lembro com todos os detalhes, mas eu ainda não sei que dia você vai embora… e aos acasos da vida, eu delego nosso reencontro.

Até lá, you can keep me inside the pocket of your ripped jeans or  next to your heartbeat (where I should be).

Com amor, Mi.

 

 

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Poesia de boteco

 

 

 

 

. você nunca entendeu
que eu jamais suportaria
a doce-amarga agoniaIMG_2378
do nosso amor ficar em breu
era sonhado, latente, secreto
ao lado, discreto, distante
e quanto mais perto
sempre mais errante
se eu te amo
e tu ainda me amas (?)
venha quando eu te chamo
quero nossos corpos em chamas
o fogo que me arde
é cicatriz da solidão
para nós agora é tarde
teu silêncio é meu não
caso leia estes versos fracos
esta confissão atrasada
saiba que era nos teus braços
que eu teria feito minha morada .

Poderia ter sido, mas não foi

Veja bem, meu bem, não me entenda mal, foi tudo real. Do primeiro oi desajeitado, incluindo aqueles “ois” sussurrados após o sexo, até o último beijo. Do primeiro beijo doce até o último sorriso sincero, abafado no teu travesseiro. Da primeiro olhar penetrante até a última saudade, outro ‘poderia ser amor’ se acabou…

Depois do filme, em um noite extremamente quente de inverno, eu me agarrei a sua barba, como já era de costume… Mas você não reagiu como das outras vezes. Eu me agarrei para ter a certeza que você estava ali. Você não estava. Seus doces olhos negros me olharam duas ou três vezes, não mais que isso. Suas mãos não percorreram meu corpo – de repente 160 centímetros pareciam uma distância colossal. Seus dedos não se entrelaçaram nos meus e nem sua respiração quente ardeu em minha nuca. A química era boa, sem dúvida, mas já não causava reação.

Você não estava ali. Olhei para o teto buscando resposta, mesmo sabendo que não acharia nada além de duas sombras imóveis. Mas eu continuava fitando a pintura branca que tantas vezes abrigaram a sombra do meu corpo em cima do seu. Seria mais fácil perguntar para você, com a voz baixinha para não acordar ninguém de madrugada no apartamento vazio, mas eu não quis perturbar seu sono bom.

Veja bem, meu bem, eu me encanto pela maneira que as pessoas se encantam comigo e você, claramente, não via mais encanto algum em mim. A primeira coisa que você deveria saber sobre mim – e nunca soube – é que meu sorriso diz tanta coisa… E muitas vezes ele esconde meu desconforto – como havia acabado de fazer, pouco antes de você virar para o lado e dormir.

 

 

Quando amanheceu, eu ainda não havia dormido. Enquanto você estava ao meu lado, eu queria olhar para você e sorrir de verdade, sem você querer saber o motivo. Eu dei o maior sorriso desses dois últimos anos. Você não entenderia e eu não quero explicar. Não para você. Porque o motivo de eu sorrir tanto nas últimas semanas está mais relacionado ao fato que eu posso sentir outra vez – com o corpo, com a alma e até mesmo, pasme, com o coração – do que isso que tivemos, que nem sei do que poderia chamar.

Quando você acordou,você me beijou, eu te olhei e me vesti, já sem nenhum sinal de amor. Você me envolveu e colocou meu cabelo para trás da orelha como sempre fez. Eu te beijei com urgência, com carinho, sem pressa – para guardar seu gosto na minha boca. Eu percorri todo seu pescoço e rosto com meus lábios, roçando meu nariz, para guardar o cheiro do perfume que você não usa na minha memória que nunca esquece coisa alguma, a não ser de dizer as coisas que nunca te disse. 

Você preparou meu café, exatamente da maneira que eu gosto, e bebi sem me prolongar, por mais que eu quisesse evitar o que estava por vir. Eu não me despedi com um beijo longo, nem uma mordida no queixo – minha marca registrada – ou sequer um carinho na barba com mechas ruivas, na qual já passei horas brincando. Eu te abracei pela primeira vez em 37 dias,  me aninhei no seu peito, encaixei minha cabeça embaixo do seu queixo, beijei seu tórax, murmurei qualquer coisa e evitei seu olhar um tanto surpreso.

Veja bem, meu bem: claro que eu gosto de você – como não? – mas eu gosto mais de mim. Muito mais, hoje eu sei. Eu não me satisfaço mais
com o que é pela metade, me alimento de inteiros. E para isso eu me desfaço da necessidade de tentar entender o que é para ficar subentendido; não tento adivinhar o que não quer ser dito.

Em uma manhã muito quente de setembro outro amor se acabou. Afinal, teve amor para acabar? Poderia ter sido, mas não foi.

Como se fosse a primeira vez

Ela havia acabado de voltar. O local não era novo, ainda que tudo estivesse diferente. Entre caixas e sacolas, notou que precisava ir ao mercado e assim foi. Ela que já não sabia o que costumava saber, nem sequer o notou. Enquanto enchia o carrinho com comida congelada, refrigerante, bolachas recheadas e frutas, seguia sua vida como aprendera a seguir.

Ele tinha as mãos cheias de salada e por isso, em uma reação involuntária, a chamou. Ela, que sempre atendia quando escutava seu nome, olhou. E ficou sem reação. Ele olhou diretamente nos olhos dela e reação não demonstrou. Um abismo de 7 anos então se formou.

Ele riu. Ela também. E corou. Até que ponto tinham mudado?

Tentaram colocar anos em palavras, no espaço de 10 minutos. Ela se despediu, sorriu e se afastou. Não quis forçar outro sorriso. Ela queria contar o mundo que viu, das vezes que sorriu, da falta que sentiu, de quantas lembranças fugiu. Mas não queria fazer desse modo, ao sereno, como se fossem apenas o que realmente eram: estranhos com memórias.

Ele a cabeça abaixou, o peito estufou e, por fim, em uma reação calculada, a chamou. Ela, que sempre atendia quando escutava seu nome, olhou. Ele de ombros deu, sorriu até com os olhos. Ela voltou seus treze passos. Ele a chamou para um café. Ela recusou, não bebia mais. Preferia descer sua existência com Cabernet. Ele torceu o nariz, ela nunca bebeu assim. E no caminho até o apartamento dele nada falaram.

1

Naquela noite ela comeu salada, nem lembrou da comida congelada, torpe em vinho não pensou em nada, saboreou gargalhada. Naquela noite ele bebeu vinho acompanhado, se sentiu bem humorado, agiu como adolescente estabanado, desejou não ter se distanciado.

Naquela noite eles falaram do que nunca esqueceram, encerraram mágoas que remoeram, calaram as dores que doeram, sorriram quando perceberam e, por fim, abafaram os gemidos diversos que gemeram.

Depois foram muitas as palavras, tantas descobertas e ela já se sabia não ser mais dele… Nem ele, dela. Naquela noite eles tiveram certeza que não eram mais quem sempre haviam sido. Que nunca mais seriam quem foram, nunca mais os mesmos. Naquela noite outras noites vieram, muitas outras. E a cada noite eles se olhavam como naquela, se vendo como se fosse a primeira vez.

E todas as noites eles reaprendiam o que sempre souberam: independente do vão, nunca houvera um pensamento em vão; ainda que houvesse tempo, espaço e outros nomes, eles sempre se pertenceriam.

Me lembre de continuar sorrindo assim

Há quem diga que a beleza da vida está em esquecer, que recordar tudo seria por demais doloroso… É verdade! Não é abençoado aquele, que como eu, possui uma memória excelente; sendo, por diversas vezes, invadida por cenas que você desejaria esquecer, apenas para manter a sanidade.

Mas quando vejo você, meus pensamentos fluem com tanta facilidade e rapidez que acabo esquecendo de dizer (que ironia!) qualquer coisa que poderia. Eu sei que sua memória é ruim – você me disse dias desses – mas na próxima vez que eu te encontrar, me lembre de te dizer que eu adoro admirar as expressões que você faz, aquelas que eu coloco no seu rosto. E que seu sorriso de satisfação é tão iluminado, que é através dele que enxergo o quarto mergulhado no breu e acho a sua boca para colocar a minha em cima.

Na próxima vez que você me encarar nos olhos como me encara, me lembre de te dizer que eu não desvio meus olhos dos seus porque eu fico hipnotizada pelo jeito que você me olha enquanto brinca com meu cabelo. E me lembre de te dizer, também, que apesar de eu sempre ter gostado de barbas rentes, mal-feitas, daquelas que deixam rastros cor-de-rosa pelo corpo, é a sua barba com mechas ruivas, onde passo horas fazendo carinho, que agora é a minha preferida. E que procurar pelo seu furinho no queixo é muito mais divertido pelo fato de ela ser grande e cheia – e que me sinto criança que achou o tesouro perdido quando coloco meu indicador nesse vãozinho.

Na próxima vez que a gente dividir um cigarro, me lembre de te dizer que o fato de eu encher o peito e respirar bem fundo não tem a nada a ver com a “enfizema” que compartilhamos. É que quando você me toca, eu preciso segurar o ar para que as palavras não escapem.

 

 

Na próxima vez que ficarmos conversando, abraçados, sentindo a brisa no corpo, me lembre de te dizer que eu tateio seu rosto assim, que nem ceguinha – como você diz, sorrindo –  para não esquecer o formato do seu nariz e o comprimento da cicatriz na sua bochecha esquerda.

Na próxima vez que dormirmos juntos – enquanto meu corpo se acomoda no seu, seu braço esquerdo passa por baixo do meu pescoço, o braço direito me puxa mais para perto e sua mão se encaixa na minha – me lembre de te dizer que a sua respiração quente na minha nuca… Eu nunca dormi sorrindo assim!

Na próxima vez que acordarmos juntos, me lembre de te dizer que eu não quero dizer nada do que eu escrevi. Eu quero escutar que você sente como eu sinto. Porque assim meu sorriso, que tomou proporções descomunais na madrugada, se manterá por todo o dia e finalmente te direi que sorrir virou meu novo vício porque, sim, eu fico mais feliz quando estou com você.

Mas se na próxima vez a sua memória falhar, como de costume, não tem problema. Eu me lembro de esquecer de te dizer tudo isso outra vez.

. hooked on a feeling .

peguei a minha velha camiseta de mangas compridas, que uso há anos para dormir, e senti o cheiro do perfume que você não usa misturado com os cigarros que fumamos na noite passada. escancarei um sorriso sem me esconder.

fechei meus olhos para recordar dos seus, me olhando ora com ternura, ora com puro desejo. enquanto sua mão vai passeando pelo meu cabelo, pelo meu rosto, brincando com as minhas mãos, se demorando em carinho. o barulho da sua risada baixa que ri da mania que tenho de falar baixinho para não acordar ninguém no apartamento vazio enquanto conversamos de madrugada. o jeito que você tem de sorrir sem esforço enquanto meus dedos se entrelaçam na sua barba, ou quando beijo sua bochecha e você respira fundo.

483x322xhot-beard-kiss.jpg.pagespeed.ic.rFpiMcVviYdo calor dos corpos em noites geladas, dos beijos sem pressa e sem fim, da vontade que não cessa, da conversa fácil e dos infinitos sorrisos que abafo no teu travesseiro – o mesmo refúgio dos meus gemidos. o gosto que você tem na minha boca e tudo que eu penso quando encaro seus olhos escuros – que nunca desviam dos meus. e sorrio o sorriso que você questiona qual é a graça e eu sempre respondo “nenhuma”- apenas para não te dizer que há muito eu não me sentia tão à vontade assim ao lado de outro alguém.

você que chegou ontem – com barba-bigode-pouca idade-sem barriga, quebrando todas as regras que criei para me defender de mim mesma – depois de eu não permitir que ninguém mais me adentrasse, tem braços abertos, cafuné e colo para ser recebido. eu penso que é um perigo te trazer comigo, que é para longe que eu deveria ir… você me puxa para mais perto e eu nem sequer resisto.

se for sonho, não me deixe acordar. não antes de saber o que é isso que sinto. se for desejo onírico, que seja. até mesmo se eu for só mais uma, que seja. agora meu coração está sorrindo de orelha a orelha.

quando eu te pedir, por favor, venha

. entre desencontros e jogos e desejo, eu desejava vê-la. ela que sempre andava por aí, talvez pudesse andar até aqui. pudesse sentar, tomar um café e preencher a sala de estar com aquela gargalhada breve e contagiante. ela não respondeu de imediato, claro, isso era bem dela. me desafiar. eu sei que é assim. e eu gosto que seja. não gosto de nada fácil.

ela veio. jeans, camiseta, tênis. ela se sentia confortável assim, sem saber que, apesar da idade, ela cabia perfeitamente naquela roupa, ela era tremendamente sexy nesse jeito adolescente-moleque que ela tem. ela dispensa o café, aceita uma cerveja; abre, dá um longo gole e até espero pelo discreto arroto seguido da passada do antebraço sobre a boca. ela não é sem educação, tome nota, mas parece que ela criou o palavra espontaneidade. ela não se importa nem um pouco em ser ela mesma ou quem quiser ser quando der vontade.

eu começo a falar sobre qualquer assunto enquanto ela acende o cigarro e me passa um; mal pego e ela já está fumando o dela, ora tranquilamente, ora tão absorvida. ela sorri o primeiro sorriso da noite. aquele tímido, repuxado para o lado esquerdo, escondendo o dente quebradinho – que gosto de pensar que ela arranjou em uma briga quando era, de fato, adolescente – e fico tonto. deve ser o álcool misturado com meus remédios. eu disse que agora ela tem uma franjinha? ela tem um rosto tão de menina que ainda tem muito para viver.

ela senta no banco de madeira em frente a mim. ela não cruza as pernas como fazem as moças; ela as afasta ligeiramente, apoia o cotovelo nas coxas, agarra a long neck pelo gargalo, faz um biquinho, toma um gole e, enfim, entra na conversa. e eu assisto à palestra que ela dá enquanto falamos de viagens, séries, artistas e vida. ela comenta, fala com mãos e braços, gesticula. ela não é expert em qualquer dos assuntos, mas ela sabe conversar sobre qualquer coisa. ela me escuta e nunca me repreende. ela não perde a chance de fazer um comentário irônico, pertinente, nem de fazer piada. gosto de como ela fecha a mão quando um pensamento quase lhe escapa e de como ele escapa, apesar dos esforços dela. e de como ela ri de si mesmo. da mania de achar graça, da mania de ser hilária. ele abre bem aqueles dois olhos mel enormes quando vai começar a dar risada. e os ajusta quando me encara.

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e ela faz esse olhar justo no momento que começo a formular uma teoria. ela me olha bem fundo nos olhos, enquanto me pede a cerveja, apenas com o braço estendido, abrindo e fechando a mão. ela já está no quarto cigarro e com ele repousando nos lábios marcados de uma boca pequena, não consegue falar direito. pergunto porque ela não quer saber nada além do que eu conto. ela bebe. o gole é longo e eu não sei o que esperar. ela diz que prefere deixar as pessoas à vontade para falar para ela o que quiserem. ela e essa mania de me deixar confortável na presença dela. ela cruza as pernas e seu olhar atravessa minha nuca. ela soube que eu queria que ela soubesse mais sobre mim e, sem dó, devolve: “o que você quer saber sobre mim?”. eu não quero saber nada, não agora. eu sei o que eu preciso.

vencendo toda minha timidez, violando todas as regras do jogo que criamos, eu saio do sofá e me ajoelho na frente dela. eu quero ela, com a urgência que não senti antes. eu quero ela, como se isso fosse tão natural, tão comum. eu quero ela com gosto de álcool, com cheiro de cigarro, com os erros de gramática, com desatino, sem pudor. eu quero ela e a puxo para mim.

ela rasga o sorriso na hora que nossos lábios se tocam. não é por mal, ela não é diabólica, ela só adora saber que eu me rendo. e seus braços e pernas envolvem todo meu tronco. estou ali, exatamente onde quero estar. as mãos dela se emaranham em meus cabelos, seus seios se apertam contra meu peito, sua respiração fica ofegante. seu dente quebradinho morde meu queixo, seu nariz se esfrega pela minha barba. eu enfio meu rosto em seu pescoço e deixo um rastro de beijos da orelha à clavícula. ela me aperta e tenho vontade pedir para que ela nunca mais me solte. qual seria a resposta? eu não ouso perguntar.

eu a levo para o quarto, pela mão. ela vem sem resistência. eu a ponho no meu colo e a admiro. eu disse que ela agora usa franjinha, não disse? eu brinco com essa cortininha de cabelos, afastando-a do rosto que eu quero olhar. que eu olho profundamente, respirando fundo, segurando o ar, as palavras e o que mais faz com que ele cause o efeito que causa em mim. ela olha de volta, cheia de perguntas nos olhos. não entendo como ela não entende. eu a entendo? ela tem jeito de moleque, comportamento de melhor amiga, rosto de menina e a segurança da mulher que sabe o que quer, que é confortável em ser quem é.

nos enrolamos. beijos, abraços, línguas. me atrevo a percorrer partes do seu corpo, sentir sua pele. eu quero mais dela. eu não quero que ela saiba o que ainda não sei bem. mas eu sei que quero mais. e ela se entrega.  sinto que tenho ela nas minhas mãos e o telefone toca. o dela. ela atende, sem cerimônia. pega a blusa enquanto fala, contorce o corpo para se vestir e fico admirando os desenhos estampados sob a pele branquinha que ela tem. “fica, por favor?”, mas a frase não sai. vejo ela abrir a porta da minha casa como se dela fosse. ela não faz por mal, para criar intimidade, ela só é assim: incrivelmente espontânea. espero o elevador chegar, espero pelo beijo leve e a mordida no queixo que ela vai me dar – marca registrada dela.

entre desencontros e jogos, eu espero por mais encontros e partidas e chegadas. espero que ela ande mais por aqui porque ela quer andar. eu espero que ela chegue com jeans, camiseta e o cabelo bagunçadinho, equilibrando o óculos em cima daquele nariz petulante. eu espero que ela chegue com cigarros mentolados, piadas e o sorriso que mostra a covinha. até que o sorriso tímido vire gargalhada e a sala fique tão cheia de som e de luz, que eu a leve pro quarto. e ela se enrosque toda em mim. e me desafie. até que eu me renda e peça para ela ficar. pelo tempo que ela me quiser.

 

 

. josé castillo .