quando você me quiser, pode me chamar que eu vou

. eram tantos os desencontros, que eu já havia desistido de encontrar com ele por aí. decidi então andar mais por aqui, trilhar outro caminho. e mesmo indo para longe, ele decidiu que era hora de vir, de não me dar toda essa distância. chegou com barulho, alarde e brincadeiras – bem do jeito dele. é impossível não olhar para ele quando ele chega em algum lugar, qualquer lugar.

ele me pediu. uma visita, alguns cigarros, uma companhia. ele teria café, cerveja e ele, claro. mas não bastava. de imediato não quis ir. não era manha, não era jogo, era apenas a vontade de não jogar mais – o que era difícil entre nós dois.  mas minhas pernas têm memória e elas sabiam o caminho até ele. de cor e salto. quando dei por mim, estava na casa dele. de jeans, tênis e camiseta. não tive tempo de me arrumar.

ele abriu a porta com ar de indiferença, que nunca sei se é parte do charme dele ou se ele é assim mesmo. tanto faz agora também. eu vim porque queria ver ele, dar tchau. entender porque acabou antes mesmo de começar. entrego os cigarros mentolados que ele me pediu, não antes de acender um para cada um de nós. nós? não! um para mim, outro para ele. renego o café, aceito a cerveja. eu sempre preciso de um pouco de álcool quando estou ao lado dele. tomo um longo gole da bebida que não gosto, mas não sei o que dizer. ele nem desconfia quantas vezes fingi não me importar quando ele surgia com mais um compromisso inadiável. quantas desses fingimentos viraram copos de chai latte. por que saberia agora? era melhor beber.

ele inicia a conversa, colocando em dia papos de muitos, muitos dias de ausência. fico absorvida no meu cigarro, com o peito esmagado do que não quero sentir. apenas escuto e balanço a cabeça. até que meu primeiro sorriso tímido, rasgado para o lado esquerdo, com a cabeça um pouco abaixada e o rabo de olho, me trai. desvio o olhar para esconder a alegria que sinto quando estou com ele. para disfarçar minha falha, entro na conversa, tagarelando, gesticulando. e ele para de falar. ele deve ter bebido demais e devo estar berrando. ele se afasta e senta no sofá. me agarro ao banco para não ir junto também. ele me pede mais um cigarro e sinalizo que quero a cerveja em troca. ele fala e sorri. gesticula e para. um jogo sádico onde o prazer não é compartilhado. e então o ataque de ironia começa. não sei outra forma de me defender a não ser quebrando a cara na primeira parede. tento me controlar, até fecho o pulso no ar, mas as piadas saem assim mesmo. seguro a cerveja na boca, arregalo os olhos e vejo ele sacudir a cabeça e os ombros. é quando rimos juntos das brincadeiras que fazemos e fingimos que não.

ele está parado, me encarando. o que será que ele conseguiu perceber? ajusto os olhos e o encaro de volta. acendo mais um cigarro, sem desviar os olhos dele. como poderia? ele e a mania insuportável de me atrair. dois pólos. qual dos dois é negativo? não sei! ele cruza os braços sobre a barriga, empina o nariz e me dá aquele sorriso arrogante. minhas pernas ficam moles. só pode ser efeito do álcool, claro. ele me pergunta porque não pergunto mais do que ele me conta. olho para os quadros. como dizer que saber mais dele é me atirar num precipício, de costas, de olhos fechados, nos braços dos quais abraços eu fujo? “prefiro deixar as pessoas à vontade para falar o que elas quiserem”. ele parece incomodado e aproveito para perguntar o que ele quer saber sobre mim.

ele quebra todas as regras do jogo – thanks God – e se ajoelha na minha frente. assim, rendido, esperando por mim. ele me olha nos olhos e olha demoradamente para meus lábios. meu sorriso rasga o rosto, me traindo por completo. ele me beija com urgência e o envolvo com braços e pernas. me aperto contra ele e o gemido vem, abafado. estou exatamente onde quero estar.  entrelaço meus dedos direitos nos cabelos dele, perto da nuca, e puxo, deixando o queixo exposto para eu me arranhar naquela barba grisalha. sorvo o perfume dele e o aperto. “me peça para ficar”.

ele me pega pela mão e me guia até o quarto. ele me põe no colo dele e afasta a minha franja dos olhos. será que ele odiou? ele me olha como se nunca tivesse visto meu rosto, suspira enquanto seus dedos delineiam meu perfil e me olha nos olhos. não entendo! “você pode parar?”, mas a frase não sai. e tento frear qualquer outra palavra, qualquer outro efeito que ele me causa. por que ele fica assim, tão rendido, na minha presença e depois se afasta tanto? ele me puxa pela nuca e me beija demoradamente. as pernas viraram gelatinas, não tem mais jeito: me jogo na cama ao lado dele.

beijos, abraços, línguas. quero o toque da pele e um rastro rosa da barba áspera denunciando por onde ele passeou. arranco a blusa. a minha e a dele. e, enfim, me entrego. quero engolir ele sem pressa nenhuma. quero ele sem medo. e sem amor. quero ele como for. como ele me quiser.  o telefone toca. o meu. atendo  e tenho a sensação de que  alguém lá em cima gosta mais de mim do que eu mesma. coloco minha blusa e olho para ele com minha melhor expressão de lamento. “fica, por favor!”, mas não escuto nada.

quando dou por mim, estou com a mão nas chaves da porta da casa dele. não é por mal,  foi uma reação natural. melhor sentir que preciso ir do que a sensação de não fazer importância se fico. eu achei que agora tanto fazia. ele se encosta no batente enquanto o elevador sobe os 15 andares. ele está ali, de braços cruzados, apenas olhando e me viro para não ver que não faz diferença eu ter ido. eu vim porque queria ver ele, dar tchau. achei que não ia querer ficar. o elevador chega. vou até ele. dou um beijo leve nos lábios e mordo o queixo – não consigo evitar.

eram tantos desencontros e jogos, que passei a desejar somente  encontros e chegadas. nada de partidas. ele chegou exatamente como naquele setembro cinzento: fazendo barulho, me encantando. fazendo bagunça no que já era caos. por que você não aproveita e fica para o riso juntos, o café bebido nos lábios, os olhares e suspiros? eu prometo que ficarei exatamente onde quero estar e perguntarei tudo que eu quero saber sobre você!  se você me pedir para ficar, eu venho até aqui. com cigarros mentolados e um sorriso estampado na face. não terá fim antes do começo. ou do meio. quando você me quiser pode me chamar de amor.

 

É importante, porra!

No final de semana tive o prazer de reencontrar um amigo que não via há muitos anos. Depois de colocar os assuntos em dia, resolvi fazer uma pergunta que talvez ele não me respondesse – passamos anos sendo confidentes, mas depois de tanto tempo sem ver, que era eu para mexer naquele vespeiro? Mas mexi!

E ele respondeu. Ele me explicou em detalhes como foi ter que abrir mão de um AMOR,  o que ele tentou para não fazer para que o fim não chegasse, o que ele viveu depois disso, o que aconteceu. Eu escutei pacientemente, guardando todas minhas observações apenas para mim. E apesar de não ter visto uma lágrima sequer, eu sabia que tocar nesse assunto era remexer uma ferida, era quebrar um orgulho doído que um taurino teimoso (redundante) pode ter. Ainda mais ele!

Não me cabe aqui desfiar a relação de ninguém, mas eles formavam aquele casal que ninguém achava que se separaria. Ele tinha os planos de vida dele, ela, os dela. E sabendo que para ele ainda é inviável sair de onde está, no caso dela nunca me pareceu. Claro que requeria esforço, sacrifício, doação… Mas não é isso que é um relacionamento? Um AMOR requer isso e um pouco mais! Me pergunto, se para ela, o orgulho, a vaidade e o conforto ainda continuam valendo mais!

Mas por que escrevi isso? Porque essa foi a resposta que eu tive dele: “Pequena, a vida segue. A gente só AMA uma vez na vida, mas ela tem que seguir!”. Em 17 anos de amizade já falamos tanta merda que me perguntei de onde vinha tanta sabedoria. Como, depois de tudo, ele estava ali, inteiro…

A verdade é que ele não está! Além do desgaste emocional, a saúde dele foi embora. Ninguém morre de amor, ou de separação, é verdade. Mas em alguns casos se chega bem perto disso…

Passei a noite inteira me questionando o que era capaz de valer mais a pena que o amor: o ego, o orgulho, o achismo alheio, o $, a vida pautada numa “certeza”? A verdade que nada é mais importante! Talvez não se tenha a chance de voltar atrás, como ele não teve, e a vida siga feliz – embora sem aquela felicidade entorpecedora (o que na minha opinião é conformismo). Mas e quando se tem? Por que não aproveitar a oportunidade? “Opte por aquilo que faz seu coração vibrar, apesar de todas as consequências”, já diria Osho.

Talvez, na minha posição, pareça mais fácil falar do que fazer – e nem vou entrar nesse mérito, afinal cada qual sabe de si. Mas quanto mais eu escuto, mais percebo que convenções, orgulho e ego são coisas para serem deixadas totalmente de lado. Sobretudo quando falamos de AMOR.

Porque toda história tem um começo…

… e esse foi, exatamente, o nosso:

*Para o meu novo objeto de desejo:

“Venho por meio desta, sem rodeios, informar que é VOCÊ quem eu quero! E assim sendo, exponho meu lado mais humano e menos lendário: fraco, medroso e receoso. Sim, por meio desse pedaço de papel exponho demais o que era para ser segredo… mais um grande defeito meu: não sei guardar os MEUS segredos! Não sei bem te dizer quando começou, nem os motivos, mas é fato: quero você TODO, sem pudor algum.

Quando me dei conta, pensava em você! Tudo bem, sempre nos falamos, rimos, conversamos sobre nossas vidas e até hoje o meu interesse por você era nulo. Acontece que sou uma menina dada à epifanias: penso tanto em algo, fico obcecada e – puft! – acontece… e você virou minha recente epifania. Acho que começou quando passei a escutar muito sobre você, quando quis te conhecer ainda melhor, dividir seus segredos.

Só não imaginava um INTERESSE puramente e somente SEXUAL! Ah, você duvida? Então vou dar um exemplo: na hora do banho, pensei em você: como seria bom suas mãos me ensaboarem, vasculhando cada canto do meu corpo, procurando, buscando algo escondido num labirinto de 1,58m. E então você acharia minha boca, me tiraria o ar e sem esperar nem um centésimo a mais, me deitaria no chão gelado, misturado ao seu corpo quente, proporcionando-me sensações ÚNICAS. Nem eu imaginava o poder que tinha em minhas próprias mãos!!! Aí pensei: “puta que pariu, o que é isso Michelle? O ******* é seu amigo!”

– “Mas que se foda, agora ele foi MEU”, retruquei comigo.

Deu para perceber ou você precisa de mais exemplos? Penso em você quando troco de roupa e você poderia estar ali como voyer, quando vejo uma cena de beijo bem dado (o que provavelmente terminará em sexo), quando surge uma onda de tesão do nada e como você poderia dar conta muito bem (é como sua fama corre benhê). Qualquer coisa que me lembre sexo, me lembra você! Hoje escolhi uma calcinha pensando como você gostaria de tirá-la! Ai, minhas epifanias!!!  Acho que no nosso próximo encontro vou de colegial, talvez de Tiazinha, de gueixa… acabei de me lembrar que vamos nos encontrar num cinema! Nossa, que excitante, mas as cadeiras devem ser desconfortáveis!

Viu? É isso que me passa pela cabeça! Assim como a política acaba em pizza, o encontro amigável de Vargas e ****** tem que acabar em sexo! É fato consumado, pois quando a politicagem vai terminar em salada? O medo e o receio ficam por conta da nossa amizade; ela não é de tão longa data assim, mas para mim é valiosa. Não quero que ela se perca pelo óbvio ululante – eu li essa expressão na biografia do Nelson Rodrigues e uso bastante – eu amo você, meu amigo. Não quero ser a fuck buddy de algumas vezes, nem a de sempre, muito menos sua namorada… correria riscos desnecessários! Nesse exato momento, que você tem essa carta nas mãos, desejo dividir uma cama redonda de motel de beira de estrada, com luzes vermelhas – pois o vermelho, que para mim representa tesão/desejo proibido – é sua cor favorita – numa fantasia erótica bem ordinária.

A fantasia tem que ser tão ordinária quanto a realidade, pois além disso você até gosta um pouco do meu namorado. Mas afinal isso contaria? Pois meu namoro anda tão morno… (hey, nem pense em erguer essa duas sobrancelhas aí – como você sempre faz – numa cara fingida de espanto! Se não tem sexo não é culpa minha, ou senão meu ego não estaria nas alturas!). E além do mais, quero você uma vez apenas, para matar minha vontade, meu desejo… e aí que acontece meu dilema: nossa amizade outra vez!

Talvez ela mude, talvez não. Não sei se arrisco, já fiz demais em revelar esse segredo para você! Mas dois meses é tempo demais para mim, preciso gritar o quanto te desejo: QUERO e quero AGORA! Com toda nossa perversão, com tudo que for pedido, sem vergonha, só sexo por sexo, sem hora para terminar. Nessa cabeça atolada de imagens do seu corpo peladão, passa um curta em que você nem terminou de ler tudo, já pegou a chave do seu carro, colocou o cd da sua banda favorita para tocar no rádio do seu carro e está vindo para Rio Claro, só para fazer valer cada palavra minha! Mas, infelizmente, isso é apenas no meu campo de visão imaginário. Essa é uma daquelas cartas que não devem ser mandadas, nem relidas; escreve-se, corrige os erros, lê uma única vez e a rasga em mil pedaços!

E só para garantir, deixa o fogo do isqueiro consumi-la toda. Como você me consumiria, se disso soubesse…!”

* Essa carta tem quase três anos… e quanta coisa aconteceu nesse tempo! Hoje comemoramos um ano de namoro, praticamente casados: vivendo sob o mesmo teto, dividindo muito mais que o tal edredom vermelho! E posso dizer, sem sombra de dúvida, que eu NUNCA fui tão feliz!

Se eu soubesse que teria que ter passado por tudo que passei para estar nos seus braços, eu teria me lançado quantas vezes fossem necessárias naquela empreitada desvairada, louca e politicamente incorreta. Afinal cada um acha a felicidade à sua maneira… e só assim eu achei VOCÊ!

Meu Preto, meu melhor amigo, meu amor: FELIZ UM ANO DE NAMORO!

A dor é temporária, o orgulho para sempre

 

Um relacionamento quando acaba (bem como a amizade) é triste! Mesmo aqueles que duram pouco ou não despertaram o amor… como naquela música do Skank: “uma lágrima de adeus, só porque é triste o fim!”, ou algo do gênero! Enfim, mas triste que acabar um namoro, noivado, casamento e afins; ruim mesmo é quando a gente percebe que o AMOR ACABOU!

Não esse amor que a gente acha que sente, mas AQUELE! AQUELE que sentimos, vivemos, curtimos como se cada dia ao lado do ser amado fosse o último, como se não houvesse amanhã. AQUELE que te ensinou coisas maravilhosas, fez seu mundo ser melhor, um lugar melhor para se viver.

AQUELE que não te fez cometer loucuras, mas te consientizou que para viver esse sentimento não precisava de loucura nenhuma, apenas sentir. AQUELE que era seguro, sólido e confiável: o que eu chamo de AMOR DE VERDADE, o que um dia julguei ser AMOR PARA A VIDA INTEIRA.

A verdade é uma só: até esses acabam! E como é triste…

Mas não falo do amor que acaba “de uma hora para outra” – pois na minha opinião isso nem um dia chegou a ser amor – mas daquele que definha mediante às cirscunstâncias. Seja a distância, a solidão a dois, desgate, incompatibilidade, o que for.

Pois quando acaba é uma sensação de vazio, ausência de si mesmo, surrealidade, não sei! Sim, as lembranças sempre estarão lá, isso ninguém apaga mesmo! Entretanto, elas – com o tempo – se desconfigurarão, se confudirão, mas o que fazer quando queremos mais que abstrações?

Quando queremos dar mais um beijo na bochecha direita ou sentir o calor da mão dele sobre o corpo? Nessas horas do que adiantam lembranças??? O QUE FAZER COM ESSA PORRA DESSAS RECORDAÇÕES??? Pois se elas não se apagam, uma hora viram martírio. Queria ter uma penseira, errorex mental, tanto faz!

A gente pensa em tudo que viveu… não precisa ser amor de anos, basta ser amor de verdade! E relembra, e pensa, e lembra das coisas boas e percebe que não faz diferença! Um oi aqui, outro ali e assim vai… vai indo pro espaço! Pois perde-se também a companhia, a amizade e nesse estágio é ALTAMENTE perigoso, embaraçoso e confuso continuar como amigos. E talvez o passar do tempo tampouco faça com que essa amizade aconteça…

Pena mesmo ter aprendido dessa maneira que aquilo que julgamos ser ETERNO, não foi, nem será…
Não sei dizer os motivos, mas não amo mais! E sei que amei e fui amada. No entanto acabou, para nós dois! Não é alarmante, é real, mas deixa uma certa esperança que não deveria existir, não há direitos de haver!

Tenho as lembranças, espero tê-las por muito tempo. Foi intenso, eterno enquanto durou… fui FELIZ DE FATO, FELIZ DEMAIS, mas ACABOU, enfim!

A vida continua, as coisas mudam, inclusive o sentimento, e seguimos.