Lidando com a morte

Por mais sombrio que o título possa parecer, uma hora ou outra, todos nós teremos que encarar a morte. E  diferentemente do que pregam, não existe uma maneira “correta” de lidar com isso, existe a maneira pessoal, os bons modos ditados pela sociedade e os ritos culturais.

Com 27 anos eu enterrei (em ordem): meu avô, meu pintinho, meu paidrasto, um primo e alguns tios distantes, meu outro avô e, recentemente, minha avó. E, sinceramente, derramei lágrima duas vezes. Não porque eu seja uma filha da puta insensível e miserável, mas ou eu era pequena demais ou autêntica demais – como vou chorar por alguém que não fazia parte da minha vida? Apenas pelo tal laços de sangue? Se for argumentar minha opinião, não terão caracteres que cheguem!

Enfim, dessa vez foi diferente: era como se eu tivesse encarado a morte pela primeira vez… fato é que só acreditei que estava enterrando minha avó, quando carreguei o caixão. E nessa hora não chorei. Chorei todos os 14 dias em que ela esteve no hospital e por questões de trabalho e quilômetros, só pude vê-la uma única última vez – pelo menos ela estava lúcida, rindo, conversando. Quase cheguei a acreditar que ela sairia de lá, que continuaria ao nosso lado.

Para quê?

Conheci poucas pessoas com uma vida tão fodida como ela teve – sempre se sacrificou em nome dos outros, sempre. Nunca fez nada por si mesma! Adiou inúmeros sonhos, que para alguns poderiam paracer bobos, para dar realidade aos filhos, aos netos que moravam com ela.

Escutei relatos minuciosos de como ele foi definhando, de como ela já não aguentava mais continuar a sobreviver. E eu chorei. Me desloquei para ir acompanhar o velório e o enterro e quando a vi no caixão, com semblante sofrido, eu chorei. Permaneci um dia inteiro nesse ritual (que julgo pesado e desnecessário) e quando fecharam o caixão, não consegui chorar. Fui dar um último beijo na testa enrugada que observei por 27 anos, disse que ela descansasse, que desse um “oi” pro meu Vô e que esperasse por mim, que em breve a encontraria  – nasci com a sensação de que vou morrer cedo, não adianta!

Carreguei o caixão dentro do cemitério, vi cimentarem e fecharem a campa e não chorei. Estava mais com uma sensação de que enfim ela descansaria, do que o pesar. Em casos como esse, a morte só é ruim para quem fica. Escutei as pessoas falarem que eu tinha suportado bem, que nem sequer havia chorado. É necessário nos debulharmos em lágrimas para mostrar amor? Meu pai, filho dela, não derrubou uma lágrima sequer – tinha consciência do sofrimento que minha avó guardava no peito.

Desde então, todo dia sonho com ela e minha filha sempre procura a estrelinha mais brilhante do céu para mandar um beijo, achando que é a bisavó. Eu posso não ter chorado na hora que todos estavam vendo, mas escrevendo esse texto, lembrando de tudo que minha avó fez e o que ela signifca, estou chorando.

Até daqui a pouco Véia!

Aqui jaz Lolytha Kiddo

Quando era criança aprendi que deveríamos ser sempre sinceros, falar a verdade, não enganar ou usar as pessoas. Mas, então eu cresci e vi que poucas pessoas aplicavam essas lições, sobretudo em relacionamentos. Perdi as contas que – por causa do meu físico – fui humilhada, rejeitada, ridicularizada. Como se eu fosse apenas um objeto insensível… diversas vezes, escondida, chorei de raiva, de pena de mim; vomitei meu coração, mastiguei-o novamente pois eu ainda queria acreditar nas pessoas, no amor.

Mas então eu mudei, física e emocionalmente, e me vinguei. Não sei de quem ou porque, pois eu não colecionei sequer uma vitória. E assim, achando que era mais fácil fingir de uma vez não ter sentimentos, que era liberal da cabeça aos pés, que evitando expor que ainda era a mesma criança, não me magoaria. Ledo engano…

Não só tive que lutar constantemente para manter viva minha lenda pessoal, como para esconder de mim mesma que eu sou. Assim diria a pessoa com maior prioridade para falar de mim “uma menina maravilhosa, que se mostra somente para alguns quando você os permite enxergarem através dos seus grandes olhos castanhos quando os espreme para sorrir colocando a ponta da língua entre os dentes. Você tem cabeça de criança, sorriso de criança, coração de criança; não precisa se fazer de forte toda hora só porque o mundo te magoou demais… você é mais do que isso: meiga, carinhosa, sincera, divertida, companheira, o amor da minha vida”.

Sim, depois que tudo virou névoa foi quando mais abusei da minha personagem, foi quando mais precisei de forças para mostrar que isso não me abalaria, que eu se sendo assim eu tinha perdido tudo, porque continuar? Mais quatro anos de Lolytha e o resultado aparece agora: eu cansei!

Cansei de manter uma moldura, uma máscara, uma couraça que usa e abusa de si mesma como se pouco valesse. Não só pelos outros, mas por mim mesma a cada mentira que tentava me convencer, a cada verdade que deixo morrer em meus lábios por medo de rejeição, por não querer esse exemplo para minha filha. A vida consiste de altos e baixos e corajosa é quem a enfrenta sem precisar de armaduras, que agüenta as facadas, as pauladas, os corações vomitados de cara limpa e alma imaculada.

Cansei de fingir que não me importo, que não me apaixono, que sou para ser amante e não para casar, que sou apenas um ser sexual. Eu admito de uma vez por todas que sou frágil, que gosto de ser mimada, amada, bajulada. Que gosto de atenção, de amor, de carinho; que quero um namorado para me fazer companhia nessas noites frias da Paulicéia. Que esteja feliz de ME conhecer, de estar ao MEU lado, que veja filme, vá ao barzinho ou que faça nada e seja legal.

Ainda sou a mesma criança de 10 anos atrás que acredita em amor, que tem ternura, carisma, que tem planos de relacionamento. Ainda temo a solidão, me apavoro com rejeição e sei que vou chorar escondida, ou não, algumas vezes, que vou vomitar coração, fígado e pulmões pelo mais uma vez mais, mas não me permito mais ser levada por sonhos ou ilusões, enfrento a realidade de ser uma mãe solteira com o o temperamento mais oscilante do mundo. No entanto sei o que eu quero e mereço; despir-me assim, me expor da maneira que realmente sou terá conseqüências, mas não pode ser pior do que viver de ficção.

Duas lágrimas de adeus e um minuto de silêncio para quem riu, encantou, ludibriou e seduziu sem pensar nas (in)conseqüências. Para essa mulher que divertiu e escutou os amigos, que foi a mais fiel escudeira diante de tantas batalhas internas, que nunca desanimou ou se amedrontou diante de um desafio…

Que ela possa nos deixar lembranças memoráveis e viva sempre no coração dos que a conheceram, pois ela, sem dúvida, era ÚNICA. Sobretudo que vez ou outra ela possa ser lembrada em rodas de amigos, alegrando os corações daqueles que ela deixa e que tanto a amam. E quem sabe, assim por ventura, num lampejo, ressurja para mostrar sua faceta e fazer o que melhor sabia: sacudir os sentidos, abalar estruturas e deixar apaixonado o homem que ela escolher…

 

[ E eu queria tanto que fosse você ]