Come what may…

Existe uma beleza nessa solidão voluntária. Existe beleza em tudo que ela me traz; autoconhecimento, discernimento, textos, livros, filmes, passado virando passado.

Existe um “que” de egoísmo. Não daqueles desmedidos, mas daquele necessário. Daquele que a gente só enxerga em tempos assim. Daquele que faz crescer um amor que muitas vezes é deixado de lado.

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A felicidade sempre me doeu como se tivesse a intensidade de uma batida de trem. Mas só porque acreditei que aquilo era tudo que merecia, que receberia. Hoje encaro o trem de frente, sem que as luzes me ceguem, sem que a velocidade me desconcerte. Quero tudo novo, de novo!

E eu não vou justificar, dizendo que fui ferida e quero me permanecer assim, intocada, até que nada mais mexa dentro de mim. Eu tenho sangue correndo nas veias, um coração bombeando cada parte dos meu 1,59m e 8 milímetros de altura. Sou feita de carne, osso e hormônios. Da ponta do pé até a raiz do fio de cabelo.  Sou o que quiser ser sendo; vou sendo como posso e me descobrindo a cada passo.

Sou dessas mocinhas filhas da puta vitimizada de comédia não romântica, dessas que aprontam bastante e que no final – se é que tem um – conseguem um final feliz alternativo. Porque o “happy end”  não significa ter alguém ao lado; significa ser capaz de encarar as decisões, de arcar com as consequências, de aprender com os erros, de expressar os sentimentos, de ser íntegra e verdadeira consigo mesma, de fazer o melhor a cada dia – para si mesma e para aqueles que se ama.

Porque talvez o final feliz seja simplesmente isso: seguir em frente!

Pelo amor ou pela dor

Apesar de eu ter essa frase tatuada por saber que tudo na minha vida (e na da Fada)  foi aprendido de uma forma ou de outra, nunca pensei nela como antagônica. Acredito piamente que o ser humano se descobre – sua força, sua capacidade – nos momentos mais tristes e solitários da vida e que pelo amor,  fortalece esses ensinamentos.

No entanto, há algumas semanas, percebi que a felicidade de uns podem custar muito para outros, mesmo sem querer. O que nos faz sorrir, vibrar e comemorar, pode ser as lágrimas de outra pessoa. Não porque fazemos de propósito, mas porque, indubitavelmente, tudo na vida tem seu preço. Eu não cheguei onde me encontro sem sacrifício, sem tristeza, sem pesar no coração ou um oceano de lágrimas. E esse período, contudo, foi feliz para algumas pessoas; não em detrimento de mim, mas por outras questões, outras vivências.

Eis que nessa madrugada começo a me questionar se existe uma felicidade pura, que não afete ninguém, se pelo menos  quatro pessoas conseguem exibir um sorriso diante da mesma situação. Se por essas palavras (amor e dor) rimarem, devem sempre coexistir, como imãs de polaridade idêntica.

Será que sempre alguém pagará um preço?

Por isso entendi que nossa alegria não deve ser “esfregada na cara” de ninguém, por maior e mais merecida que ela seja. Você gostaria de estar na pele do outro, se sua reação fosse inversamente proporcional? Pois é… colocar-se  no lugar de um terceiro é algo difícil de fazer, mas é necessário. Até porque você passa a entender melhor os sentimentos – seus e deles.

Meu estudos nesse campo começam agora, pois entre minhas muitas metas está ser uma pessoa melhor, para mim e para os outros. E aprenderei de qualquer maneira – seja pelo amor ou pela dor.

Ps.

danca7

“Se queres sentir a felicidade de amar, esquece a tua alma.
A alma é que estraga o amor; as almas são incomunicáveis.
Deixe o teu corpo entender-se com outro corpo, porque os corpos se entendem, mas as almas não.”

Ao menor contato da sua pele, meu corpo estremece em ondas e revoltas dignas de tsunamis. As pontas dos seus dedos percorrendo minhas costas,  arrepiam meus sentidos e tudo é torpor.

Enroldo-me nos seus braços, encosto meu rosto no seu, inalo seu perfume, eriço minha coluna e iniciamos o compasso de uma dança sem fim; marcada por diversos ritmos, passadas e contrapassos.

Nessas horas, e em tantas mais, não quero nada além do seu corpo, além do contato das suas mãos e as músicas cantadas ao pé do ouvido. Seus vocês… a alma, a essência, o âmago, o lado B, eu sei.

Os fatos, quando devem acontecer, encontram seus próprios meios. Relutância inválida, temor desnecessário, negação desperdiçada… o futuro é incontestável; caberá a nós o que há de vir.

Dizia Shakespeare que não se deve cantar a felicidade, pois a inveja tem sono leve.  Então eu a danço; embalada nos seus braços, guiada pelos seus olhos, compenetrada no seu sorriso…

You’ve got a letter

“Todas as cartas de amor são ridículas. Não seriam ridículas se não fossem cartas de amor”_ Fernando Pessoa.

Assim poderia começar um belo texto de amor, de paixão. Mas aqui não é o lugar para isso. Não agora, não em breve.

Anos atrás, esse trecho escrito por Fernando Pessoa me fez pensar muito e passei a reler cartas dos meus ex’s. Ele tem razão: cartas de amor são rídiculas. Relia e pensava “que cara mais idiota” ou “quanta promessa quebrada” ou até mesmo ria, relembrando certos momentos.

Nostalgia, boa ou ruim, é palavra de ordem nesse momento fatídico que resolvemos abrir aquela caixinha que sempre está entocada em algum canto do armário. Um Tonny Bennet de fundo, Malrboro light queimando no canto da boca e metade de um Talento vermelho completam a cena, quando mergulho nessas águas profundas.

Pensei em quanta idiotice eu já devo ter escrito também. E deve ser muita… pois certa vez mesclei 11 mil “eu te amo” escritos à mão, com desenhos, poemas, letras de música. E já tinha dezoito anos! Triste essa parte da paixão de adolescência – ou seria da vida inteira?

Mas eu me considerava uma pessoa de sorte por nunca ter relido nada que escrevi no ápice do meu amor. Até o fim de semana que passou. Ao abrir a mala da minha filha, com a força de uma manada de elefantes, reapareceu uma caixa cheia de fotos coladas, feita como parte do presente do Dia dos namorados de 2005, e dentro inúmeras lembranças, cartas e recordações.

Confesso que chorei, que me machucou ter aquilo tudo de volta nas minhas mãos. Pois horas foram gastas, sentimentos verbalizados, ou um lapso de saudades que não deixou o guardanapo do boteco escapar ileso. Não entendi, achei que era brincadeira. Mas era tudo palpável, pegável: carteira, brinquedinhos, pingente. Meu passado ressurgia e não tinha como fugir!

Esperei que a criatura que eu e o antigo dono daquelas cartas geramos, dormisse e tomei a caixa em minhas mãos. Somente com uma toalha no corpo e uma garrafa d’água reli uma por uma das 147 cartas escritas ao longo dos 3 anos, 2 meses e 9 dias que passamos juntos.

Embora há muito ele jurasse não me amar, guardou cada pedacinho de papel que escrevi, cada brinquedo que comprei. Não sabia mais se chorava por ter lido que um dia existiu sentimento, por ele ter juntado tudo ou por ter me devolvido.

Mas Pessoa me deu outro tapa na cara: eu era uma rídicula. Nunca li tanta falta de amor-próprio, tanta baixa auto-estima, tanta dependência camuflada em palavras que berravam liberdade e desapego. Eu era uma doente terminal e não sabia. Já não era amor, era doença. Mais forte que heroína, mais viciante que o crack, mais difícil de vencer que minha bulimia.

Eu não só  – achava que – amava desesperadamente, como tinha certeza da felicidade efêmera e da eternidade desse câncer. Quando terminei a última carta, e pela data era uma das primeiras, eu me senti esgotada física e emocionalmente. Como se tivesse feito sexo a noite toda e depois brigado com a minha mãe.

Eu precisava me livrar de todas as cartas, pois há meses luto para resgatar o que eu era antes de conhecê-lo, a melhor parte disso, na verdade. Eu não podia encarar aquela sombra de mulher por mais um segundo sequer.

Pensei em devolver, em ligar para ele e perguntar o por que dessa ousadia, em pôr  fogo. Porém, como alguém normal, joguei uma por uma no lixo, dando adeus àquela verborréia que não mais fazia parte de mim. Enquanto o fazia, me sentia cada vez mais livre, cada vez mais forte…

Quando, por fim, despejei todo o conteúdo na lixeira do prédio, me senti livre, forte, amada por mim, renovada. Não havia mais vestígios de tudo que vivemos, de tudo que eu ludibriei. Tinha me libertado dele, de nós de UMA VEZ POR TODAS!

Quem sabe um dia eu escreva para ele e conte sobre a quarta vez que ele me proporcionou FELICIDADE. E será a mais rídicula das cartas de amor, será a MINHA.