E se der errado?

Eu acredito que alguém que já teve uma decepção amorosa verdadeira passa um período com medo (preguiça, desconfiança) de se envolver novamente. A primeira questão que surge é “e se der errado?”. É o temor de sentir novamente o coração sendo sugado pelas costas, das entranhas se revirando em loopings infinitos, das lágrimas arderem na face, de passar dias e noites com saudade, de escutar uma música e ser levada ao passado…

E no ápice do realismo cínico que assola qualquer coração partido, a gente sabe que vai dar errado. Um dia. E nosso ego não está pronto para lidar com outra rejeição. Nossa parte boa se eriça ao pensar que você será o responsável por outro alguém ficar do jeito que você já ficou.

Por segurança, e racionalidade, você decide que o correto é não começar nada. E não começa. E os dias ficam menos coloridos, os filmes de romance são trocados pelos de ação com muito sangue (te amo, Tarantino!), o medo vai colando nas artérias até virar amargor, até você se olhar no espelho e reconhecer que adoraria ter borboletas no estômago ao invés de um coração de ferro – ou pior, um espaço oco.

O tal “mal amada” passa pela sua cabeça – “mal comida” também, sejamos sinceras – e você lembra daquela sua professora de Geografia do colegial e como você prometeu à si mesma que não seria assim de jeito algum. Então você começa a sair do casulo. Bem aos poucos. Começa a reparar nas coisas que te fazem feliz de verdade, por menores que sejam. Começa a olhar para si no mundo e no mundo que há dentro de si. E passa a sorrir. E a atrair sorrisos. E se você persistir, descobrirá o melhor tipo de amor que existe. O próprio.

 

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Até que um dia, sem que você espere – pois as coisas boas acontecem assim, de repente – entre tantos “ois” e sorrisos, um “oi” e um sorriso te chama a atenção. E vira conversa. E a conversa vira flerte. E quando você percebe você fica sem jeito com o jeito que ele te deixa.

Você pensa na barba por fazer, nos olhos negros espremidos quando ele sorri, no jeito que ele segura o cigarro e na mania que ele tem de se exibir para você. Porque você esteve fora do jogo por um tempo, mas sabe todas as regras de trás para frente. Até que o inevitável, que vai contra toda e qualquer razão, acontece.

Li dia desses que pessoas que causam arrepios enquanto a gente sorri merecem moradia no peito. Mas arrepio maior causa a sensação que você sente. “E se der errado?”, você se pergunta. Porque você quer listar os defeitos, as diferenças, o fato de ele não ser tão alto. Você quer listar tudo que vai dar errado e compartilha com a melhor amiga, esperando que ela aponte todos os motivos – porque as amigas sempre têm mais motivos que a gente – porque isso vai dar errado. E ela lista. E você escuta. E você sorri. E o sorriso vira gargalhada por conta do absurdo que acabou de ouvir.

Você gargalha porque percebeu que é capaz de se apaixonar! E percebe também que a vida é muito mais do que se esconder atrás de um coração machucado.  Há muitas pessoas no mundo com muito medo de ter uma chance no amor. Não importa quem você ama ou se essa pessoa ama você de volta.  O fato de que você pode amar é que é importante.

E se der errado? Se der errado, deu. Tudo vai dar errado. Um dia.
Você opta por sorrir sem motivo, por dançar que nem idiota no meio da rua enquanto escuta a música que te lembra ele. E não se importa quando crianças apontam e as pessoas riem da sua cara. O dia está colorido! Você escolhe querer dar oi até para o extintor de incêndio, ficar com a pele bonita, com a autoestima “o céu é o limite”, com o bom humor irradiando.

E se der errado? Pense no que está dando certo – e por dar certo entenda com o que está fazendo bem a VOCÊ! “E se der errado?”, você insiste, em uma última tentativa. Se der errado, deu. Tudo vai dar errado. Um dia. É para isso que existe o recomeço. Cheio de primeiros beijos, primeiras vezes, de cor, de sabor, de música.

Simples assim!

 

 

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A verdade liberta, por mais que doa

Ao longo da vida nos deparamos com diversas situações e as enfrentamos dependendo do grau de conhecimento que temos. Não apenas da vida em si, mas de nós mesmos. A gente até sabe, na prática, como seria o modo “mais correto” de agir em uma ou outra situação, mas leva-se anos para entender que nem sempre estamos, de fato, preparados para certas coisas – mesmo que já tenhamos passado por algo semelhante.

Atire a primeira pedra quem nunca teve reações exageradas, quem nunca chorou quando não deveria ou gargalhou até faltar o ar em um momento ainda menos propício. Vivemos nos preparando, até que algo acontece e reagimos assim, espontaneamente. Com os mecanismos de defesa que construímos ao longo da jornada não é diferente.

Às vezes saímos armados da cabeça aos pés, exibindo um elmo reluzente, escudo ultra resistente e uma lança pronta para atravessar o “oponente” sem dó, nem piedade. Às vezes deixamos toda a indumentária em casa, mas ao sermos pegos desprevenidos, nos cobrimos com qualquer coisa que esteja ao nosso alcance. E isso cansa. Mas também cansa se magoar, decepcionar e sofrer. São ciclos que vão deixando marcas – às vezes superficiais, às vezes profundas – e vão montando a personalidade (inseguranças, neuroses e traumas) de cada um.

O processo para atenuar as cicatrizes é pessoal, cada qual tem seu modo. Tentei de tudo um muito, inclusive culpar o outro e a conjunção estelar para não responder algumas perguntas – afinal, não são raras as vezes que mexer na própria ferida é algo doloroso demais. E a gente inventa teorias, cria respostas prontas e segue a vida.

Mas a vida sempre acerta as contas e numa noite de uma quinta-feira qualquer, um estranho me atingiu com a pergunta que mais evito, bem no meio da cara, com a força de um mamute. A gente culpa aquela que sempre culpamos (“é a vida, às vezes funciona, às vezes não”), desconversa e sorri para evitar desconforto.

Mas uma vez atingida dessa maneira não há como voltar atrás. Não é fácil admitir as próprias falhas, a vulnerabilidade, os medos. É doloroso pensar em paixão/amor e perceber que não eram os outros, mas você quem estava emocionalmente indisponível e não conseguia se manter inteira quando o coração estava em pedaços. É difícil pensar em arriscar de novo quando você sabe tudo que pode perder.

Ao longo da vida nos deparamos com diversas situações e as enfrentamos dependendo do grau de conhecimento que temos. Não apenas da vida em si, mas de nós mesmos. E, embora, a vida não espere que você esteja pronta para encarar seus medos, dar um salto de fé torna tudo mais libertador.

Inclusive o coração.

. escrito em outubro de 2014.