Only love can break your heart

A temperatura caiu. A chuva cessou. O frio se instalou. A rua, à noite, quase sempre vazia, quase sempre tão fria, estava ainda mais vazia, ainda mais fria. E era seguro passar por ali. Protegida pelo sobretudo preto e echarpe de ursos coloridos, ao som de The Corrs e aquecida pela fumaça que queimava na ponta do Marlboro Blue Ice – este que agora é o novo cigarro que eu me ponho a queimar freneticamente, quando tudo aperta. Seja saudade, seja fome.

Era o estar só para me sentir segura. Eu, que passei tantos anos acreditando que precisaria de alguém para me sentir bem… Talvez, na verdade, seja apenas como muitas outras coisas que não experimentei na vida por medo de gostar demais. A liberdade adquirida, o prazer da minha solidão escolhida; um sabor doce que me permite andar por aqui, por ali e por aí. Sem rumo, com prumo.

E eu quase não escutei os passos, entre uma canção e outra; eu quase não senti o perfume enquanto o odor de nicotina e menta adentravam minhas narinas e eu quase não olhei, mesmo quando seu braço levantou – involuntariamente – para se fazer notar. Em uma cidade cinza, numa noite cinza, é quase impossível não ser ofuscada pelo brilho azul que emana dos seus olhos. E mesmo que eu quisesse evitar, você exibiu seu melhor sorriso, como se saído de um comercial de clareamento dental.

E foi só por isso que me senti ligeiramente tonta e meu corpo se aqueceu mais rápido do que se eu tivesse sido jogada na fogueira – tanto faz se da Inquisição ou de São João.

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Eu achei que no dia em que nos encontrássemos outra vez, eu estaria curada. De você. De nós. Da mania que eu tenho de te empurrar para longe de mim, quando quero me envolver nos seus braços, me aninhar no seu peito. Sem medo, sem vergonha, sem tempo de acabar. Acenei com a mão esquerda, sem tirar o cigarro da boca, e sorri com fumaça de mil toxinas. 

Você saberia se algo tivesse mudado, eu teria te procurado. Faria a madrugada virar dia, a semana ser feriado. Esticaria as horas, daria a taça do Copa para o Brasil e São Paulo seria a festa sem fim, um Carnaval sem fim, onde não acabaria amor nenhum. Sem desculpas. Porque a gente insiste em achar desculpas para nos iludir, mesmo sabendo que quando a gente quer, não há desculpas – apenas vontade de fazer, de ser.  Mas era tudo igual em mim – essa mania de manter o orgulho inteiro e o coração em pedaços. E você já não queria mais lidar com isso.

Protegida pelo sobretudo preto e echarpe de ursos coloridos, ao som de The Corrs, eu seguia. Sem rumo, sem prumo. O frio que resolveu entrar por todos os poros, gelava pulmões e coração. E resolvi acender mais um Marlboro Blue ice – este que agora é o novo cigarro que acendo quando tudo aperta. Especialmente a saudade.

Mais um café, por favor!

Era uma noite qualquer na Pauliceia. Era uma noite em que meu único plano era andar por aí, tropeçando em meu caminho, desfazendo meus rastros, meio andarilho tentando trilhar novos passos. Era uma noite em que só queria rir ao lado de uma amiga. Beber um café e comer um pedaço de bolo de cenoura. E foi o que eu fiz. Não era sábado à noite e eu não estava esperando coisa alguma. Era uma quarta-feira chuvosa, uma noite fria de setembro – mas, pela primeira vez, minha temperatura e a do dia eram as mesmas. Dura, fria, gélida, chuvosa. Era confortável assim, se misturar à paisagem.

Eu não me dei ao trabalho de me importar quando você irrompeu a bolha, trazendo consigo uma lufada de ar quente, e se botou debaixo do meu guarda-chuva. Nem mesmo  me incomodei com o arrepio que você provocou – choque térmico, claro – ou, sequer, seu sorriso ofuscante, digno de comercial de pasta de dente, me chamou a atenção. Você era mais um entre tantos. Mais uma voz, mais um conhecido depois de passar duas horas tagarelando com a gente, mais um a ser gentil e me oferecer carona – que eu protestei veemente enquanto o táxi não passava e eu me encolhia embaixo do ponto de ônibus, para me proteger da chuva.

E você ria da minha mania de ser sempre brava e não aceitar gentilezas com facilidade – eu não sabia que era assim tão fácil me entender, mas você entendeu. E mesmo quando você já estava dentro do carro, brincando sobre a minha expressão carrancuda, eu me neguei a ir. Você voltou, deu quatro passos embaixo daquelas grossas gotas geladas – o suficiente para deixar seu cabelo todo molhado – me segurou pela mão, abriu seu melhor sorriso e disse “vem”.

Mas nada disso teve importância; você era mais um entre tantos: mais uma voz, mais um conhecido, mas uma pessoa gentil. Mais um novo cheiro, mais uma nova mão, mais um cavalheiro. Viu, nem era assim nada demais!

 

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Então percebi que você tinha a mania de falar, de falar muito e gesticular mais um tanto, até mais do que eu. Eu quis inúmeras vezes sair do carro e caminhar a pé, mesmo as ruas estando desertas, mesmo a chuva tendo engrossado. Mas você também tinha essa mania de prender a atenção, de ser interessante. E , assim sendo, quando você me chamou para um café, pensei que não havia problema algum em conversar um pouco mais com alguém inteligente e engraçado. Afinal, era preciso rir muito de vez em quando.

Eu não sabia que café poderia ser tão doce, quando bebido nos lábios de alguém. Nem que meu rosto poderia ter várias expressões conforme as luzes da Rua Sílvia. Eu não imaginava que eu cabia no seu abraço ou que a sua fisionomia se transformaria diante de sorrisos, suspiros e surpresas. A gente duvidou da força dos olhos nos olhos até nos olharmos. Segundos que pareceram muito mais tempo do que deveriam e uma fome que não foi notada até então- mesmo depois dos aperitivos que desfrutamos no balcão de um bar qualquer – fez-se presente, revirando as entranhas.

E nos reviramos de diversas maneiras. Em diversas pessoas. Por horas. Ora entregues ao calor dos edredons. Ora entregues à brisa da varanda.

Sentávamos e ríamos enquanto as cinzas do cigarro se consumiam e a noite escura tinha risos coloridos. E eu estava ali porque queria, porque você trazia consigo uma lufada de ar quente em uma noite fria.

Eu sabia sem querer saber que depois você seria mais um entre tantos, mais uma voz, mais um novo cheiro, mais um outro conhecido.

Eu não tinha calculado os riscos, tomei todos eles misturados com adoçante – era doce, mas não era açúcar.

Foi doce, mas não seria mais do que aquela noite. De luzes, de tantas fisionomias, de tantos gemidos.

Era um entre tantos. Mas era o um que tinha trazido ar quente, que se enfiou debaixo do meu guarda-chuva, que segurou minha mão.

 

E eu fui.

The show must go on

Olho São Paulo do alto, como nunca havia olhado. Na companhia do Marlboro Light queimando entre os meus dedos,  eu tento alcançar aquela estrela – tenho a mania de sempre querer ir além do que realmente posso.

Encaro a brisa gelada somente de peito aberto. Admiro e estou sendo admirada, enquanto calada – algo raro – tento cadenciar um milhão de pensamentos que só se organizam quando me ponho a correr. Mas eu estou parada, estou aqui – não estou? – exatamente onde quero estar.

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Bebo as  luzes, palavras, carícias. Mas não me embriago. Com nada. Eu sorrio como há muito não via, assim de forma nua e crua. Sinto-me etérea. E sinto teu calor, teu cheiro e teus dedos me procurando. Músculos retesados e êxtase à paisana. Toda São Paulo vista do alto agora é meu cenário.

E então tudo passa a ser tato…

Meus seios estão em tuas mãos. Teu quadril se encaixa no meu ângulo e tua boca percorre meu 1,62 de altura. Eu não tenho pressa, nunca tive. Você me pede para que eu te peça. E eu te olho nos olhos e  digo: faça com que eu apenas sinta.

E, no entanto, a verdade é que eu quero me mostrar como é que se joga – all in é como se ganha e eu estou cansada de blefes. Eu quero volúpia, quero sensibilidade em cada milímetro do meu corpo. Quero me lembrar de quem fui anos atrás. Quero resgatar meu eu.

E eu me entrego como quem pula de paraquedas. E no ritmo compassado de amantes de longa data que nunca seremos, o gemido vem. Profundo e silencioso. Eu aproveito cada ato do meu espetáculo. Fica quietinho, fica. Mas não se controle. Só espere um pouco mais. Quero vangloriar-me de estampar dois sorrisos débeis em dois rostos tão distintos. E te entrego meu ventre de bom grado, diferente de como Geni deu-se ao seu carrasco.

De cima do palco a visão é ainda mais linda. E a labareda que começou na ponta do pé, passa por panturrilhas, coxas, nádegas, coluna, ombros, nuca e apaga-se num uníssono alto e curto. Desabo esgotada, arfando. Jogo meu corpo para o lado e me espreguiço languidamente.

Saio de fininho, sem fazer barulho. Vou até a varanda, finalmente toda nua, exposta. Acendo mais um cigarro e me perco na fumaça. Eu toco a estrela – a mania que tenho de sempre querer ir além do que realmente posso, nunca me impediu de chegar lá.

Eu sorrio. Eu admiro a noite de São Paulo e suas luzes. Eu respiro fundo e absorvo meu cheiro. Eu sorrio. Sorrio meu sorriso-Lolytha de ponta a ponta do rosto que há meses eu não via. Eu sorrio porque eu sinto.

Eu finalmente sinto.

Tchau setembro maldito!

O dia de hoje amanheceu mais cinzento que qualquer outro que já vi nessa Selva maluca. Estava tão cinzento quanto meu humor, quanto minha esperança, quanto minha alma… parece que faz anos a última vez que me senti como São Paulo nos seus piores dias. Mas hoje eu acordei assim. E nem uma ida à famosa 25 de Março me animou… voltei de lá com as mãos praticamente vazias!

A madrugada que precedeu os palidérrimos raios de sol da manhã, foi o golpe final de um mês que mais pareceu agosto, ou o pior inferno astral ever... melhor: foi agosto de uma matilha de cachorros selvagens loucos misturado ao inferno astral acumulado e uma pitada de tpm de 45 dias.

E o que não aconteceu, ficou num quase extremamente dolorido – minha família quase foi destruída, eu quase participei de um projeto bacanudo pacas… já dizia o poeta: ” Ainda pior que a convicção do não e a incerteza do talvez é a desilusão de um quase./ É o quase que me incomoda, que me entristece, que me mata trazendo tudo que poderia ter sido e não foi.”

Senti como se tivesse construído um frágil castelo de cartas e desse singelo ponto comecei a questionar minha força, minha habilidade como mãe, minha gana em vencer, meu amor, minhas razões, minhas competências profissionais. “O que estou fazendo aqui?” ; “porque não desiste logo e volto para casa da sua mãe?”;  “Encare a verdade é veja que você não é nada do que pensou ser”; “tudo que você construiu é ilusão”; “sua filha não ficará por muito mais tempo”…cinco malditas frases que retumbaram a noite inteira na minha cabeça: um prego sendo martelado sem piedade; uma enxaqueca latejando cada vez mais forte; uma faca cega cortando meu pulso cada vez mais fundo…

Mas agradeço à sabedoria universal – e de alguns homens – de terem criado o dia e a noite; dividido o dia em horas; criado as semanas, os meses, os anos… porque dentro de algumas horas será um novo dia de um novo mês, que poderá me trazer uma nova esperança, uma visão melhor de mim mesma. Dentro de 1 hora e 8 minutos já será outubro… e todos os desastres pessoais/profissionais de setembro estarão no passado. Me sentirei livre para recomeçar, reencontrar minha força e me certificar que não estou aqui à toa, por estar.

Então vai embora setembro, vai mesmo. A gente nunca se deu bem mesmo… para que continuar fingindo? Eu te odeio, sempre te odiei! Me deixe sentir a doçura de outubro, pois essa paixão é de longa data e linda!

Uma segunda-feira qualquer

Segunda-feira. 10 horas manhã. São Paulo. Chuva. Eu odeio todas as manhãs de segunda-feira .

Odeio acordar cedo e caminhar quatro quilômetros para estar apta a trabalhar. Um verdairo tormento mental e físico, completado pelo barulho, pelo trânsito, pela música que sai do meu MP3, pelo Marlboro Light e pelas constantes batalhas de pensamento.

Caminhando pela Augusta, que se transforma na Avenida Europa, fico surda com os gritos que só eu ouço. A ressaca física e moral vinha cobrar tamanha ousadia pelo excesso de Cuervo, pelo excesso de divertimento, de felicidade, de comida gostosa. Eu não queria pensar, mas era obrigada… não sei como ninguém escutava o retumbo do meu maquinário.

Conversas, saídas, mensagens, álcool, auto-crítcas, cenas do filme, tequila e hambúrguer misturavam-se como um bolo no meu estômago, dando inúmeras voltas e fazendo que eu suasse, mesmo a uma temperatura de 14ºC. A saudades da minha filha apertou, meu remorso bateu, meu senso de responsabilidade alardeou… sentia-me uma adolescente de 15 anos, questionando-se sobre as decisões da vida – como se nessa idade soubessémos o que era de fato vida.

Divaguei,e julguei, na maternidade (e de como, constantemente, sinto-me uma péssima mãe), na qualidade de vida que levo, na minha profissão, do que deveria fazer, do que deveria fugir… eu tinha dormido tão feliz, acordado sorrindo, mas era segunda, estava em São Paulo, chovia  e fazia frio.

Eu queria poder ainda estar na escola e alegar que não iria porque estava cansada, com sono, sei lá; e minha mãe entenderia e me deixaria dormir até meio-dia, enrolada em edredons quentinhos, sonhando com a vida perfeita que tinha traçado para mim. E ela seria exatamente conforme planejei…

Mas então a realidade veio em forma de uma freada brusca de um Palio roxo – ai, eu odeio carros com cores berrantes, nessas horas sou discreta. Mas ele me sacudiu corpo e mente e o bolo de sentimentos foi vomitado num jato só, juntamente com a tequila e o hambúrger. Quando me ergui, avistei uma folha de maple, bem verdinha, como nunca havia visto. Sempre as vi secas e marrons, sem vida, e as admirava mesmo assim.

E entendi isso como um sinal de renovação, de algo vindouro e bom, MUITO bom…

 

 

[ E a vida, por assim dizer, sempre descobre meios de surpreender ou de fazer eu apreciar uma segunda-feira que deveria ser qualquer ]