O anel que tu me deste

(Na verdade, que me dedicaste).

Não era de vidro, tampouco se quebrou – ok, uma peça caiu, mas ele não se partiu. Quebrou-se, sim, tudo que um dia quisemos tanto construir; quebrou-se também o encantamento e, a julgar pelos estilhaços no chão, o coração não está mais inteiro – o meu, que tu tinhas.

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E o anel inteiro? Ele agora, ironia, é um relógio  no pulso em que não pulsa mais meu nome. Inevitável não fazer uma analogia: dos planos e sonhos passamos ao tempo perdido? Tenta-se recuperar o tempo que deixou de ser vivido ou vive-se a olhar o tempo passar e deixar que as lembranças virem apenas pó?

A pulsação escondida na pulseira de couro, que leva às batidas do coração que mais ninguém no mundo tem (aquelas que são capazes de me trazer à realidade e, ainda assim, me libertar dela), continua a se dividir em 3 sílabas, como os estalos da língua que fazia ao chamar por você em pausa, em languidez libertina ao te pedir.

O anel que tu (não) me deste, faz-me falta. Parece que as histórias, quando têm de terminar, encontram meios próprios de se extinguirem. Trocadas, repostas… como eu também já fui e serei.

“É apenas um símbolo”, me dizem. Mas não sabem o que é olhar para algo que, ao carregarmos, carrega tanta história, que – diferentemente do que pensam – liberta, nos faz leves e bravos para dizer ao mundo que agora você encontrou alguém para dividir os privilégios e sortilégios da vida. Que sorte a nossa, eu pensava – embora não soubesse que estava enxergando nada além de mim mesma.

Contudo, o anel virou relógio e o tempo, ele não perdoa. Mesmo que eu saiba a resposta, ainda me questiono, nas noites frias enquanto olho o anel que eu te dei (junto com todo o amor que tinha, em forma de pedido de casamento):  o amor que tu me tinhas não era pouco, então por que se acabou?

 

 

*Texto escrito em abril de 2018 – e que acabei de achar nas notas do celular (provavelmente escrito em mais uma dessas noites frias) foi ligeiramente modificado hoje.
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Eu tenho o céu de abril pra desintristecer

Era uma noite de começo de outono que ela, como boa caiçara, apreciava bastante: céu limpo, temperatura amena e uma leve brisa que transpassava o tecido do vestido sem causar-lhe desconforto. O cabelo, agora mais comprido, balançava por sobre os ombros enquanto ela caminha Selva de Pedra adentro.

Fechou os dedos com um pouco mais de força ao redor do copo de 500ml de Matcha Latte do Starbucks, sempre com leite de soja light e uma dose extra de baunilha sem açúcar, olhou para a avenida que lhe desperta tantas coisas no coração – não, não é a Ipiranga, nem a São João – acendeu o cigarro e caminhou.

Ela sentia, embora não conseguisse nomear, que algo acontecia. O oceano dentro dela estava agitado; não era o tsunami no qual já estava habituada a se afogar, tampouco era mar calmo – algo que ela agradecia, pois gostava de ser boa marinheira. Mas ela sentia as ondas, a mudança das marés, subindo e descendo. Ela sabia que tudo estava mexido, mudando, causando alguns desconfortos similares à travessia do Cabo Horn. E, surpreendentemente, ela não estava incomodada apesar de.

Ela deu um trago fundo, quase transcendental, absorvendo os pensamentos e as toxinas e o mar que a inundava, transbordou. Sentiu a água salgada escapar-lhe pelos olhos e molhar-lhe a face. Não era tristeza, ela tinha certeza; ela apenas se preparava para as despedidas que chegariam. Ela não podia garantir quando aconteceriam, mas ela sabia. Ela sentia, por antecipação, a saudade, o alívio e, em menor grau, o medo que acompanhava o novo.

Parou para admirar os quilômetros de asfaltos à sua frente, decorados com os faróis (que as pessoas insistem em chamar de semáforos, mesmo eles guiando milhares de veículos e transeuntes dia a dia), ladeados por icebergs de concreto em ambos os lados, cercados de tantas e tantas memórias. Tomou um bom gole do chá morno. Respirou fundo. Não era saudades do pretérito que um dia julgou perfeito; chorava agora – sem pudor algum – por uma saudade que ecoava no futuro do pretérito. Velejava em si.  Conjugava os sentimentos e estava ali, parada, esperando a tormenta passar e tudo que fosse possível se acomodar. O menor movimento a levaria para onde os sentimentos e as certezas já estavam.

Soltou o ar como quem suspira, usou as mangas do vestido para secar os olhos – ela já não usava mais echarpe alguma para esconder o que lhe vinha ao peito (ou para se sentir segura que algo o adentrasse) – apagou o cigarro no pouco de chá que ainda restava no copo e olhou o horizonte para se orientar pelas estrelas. No céu poluído de São Paulo não era possível vislumbrar nenhuma, mas ela seguiu – fazendo de cada poste de luz na Paulista, o brilho para iluminar seu caminho.

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Carta para o amor que (se) foi

Você chegou com dia marcado: era um sábado de sol, em 9 de julho de 2016, e eu não acreditava que você estava realmente ali, me esperando na porta da casa da minha prima. Eu também não acreditei enquanto você segurava minha mão, caminhando à procura de um anel, e nem quis acreditar também no casal de velhinhos que conversava com a gente no primeiro Starbucks que dividimos, dizendo que tinham acabado de se conhecer e estavam reaprendendo a amar. Foi só então que acreditei… e eu fugi.

E talvez eu deveria ter te contado que esse foi meu ato covarde, no qual preferi te culpar por quase tudo, porque eu ainda não estava pronta para o que você traria. E que os 9 meses para abaixar minhas armas, me render à você e te amar pacificamente, pareceram anos.

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Mas não foi assim. E nós sabemos disso, nós sempre soubemos. Mas essa carta não é para dizer tudo que já analisamos minuciosamente nos diversos momentos que ficamos juntos, deitados, sentindo a pele um do outro. Eu queria te contar o quanto eu tentei, absurdamente, ser a pessoa que você precisava – sem nem dar atenção à pessoa que eu precisava ser para mim, porque eu estava tão feliz de não ter mais medo de amar, que achei que “o nós” era o mais importante. Eu queria te contar o quanto eu segurava as lágrimas de felicidade quando nós 5 nos juntávamos no sofá e o filho número 2 se aninhava em mim; ou quando o número 3 me deixava beijá-lo e chamá-lo de meu também. Eu queria te contar que eu estava imensamente feliz de dormir em cima do seu peito e escutar as batidas do coração que ninguém mais no mundo tem – e o quanto elas faziam com que eu me sentisse “em casa”; o quanto eu amava cozinhar para vocês, para os seus amigos e de dormir no tapete da sala do seus pais, envolta por você. Ou te contar que de longe eu reconhecia seu cheiro e que eu o amava até quando você voltava da usina de uniforme e com cara de emburrado – e como eu já pensava em uma maneira de fazer você rir, nem que fosse de mim. Eu tentei, tentei te falar tudo isso.

Mas eu não dei atenção aos meus muitos anos de relações turbulentas que se mostravam para você. Eu ignorei que, apesar de nos conhecermos bem, você não sabia que te mandar embora era meu jeito de tentar evitar não te ver ir porque eu te cansei pelo meu jeito agressivo e que se atropela todo em mostrar amor, por mais que fale sobre com toda clareza. E você foi – porque eu também não sabia que você estava segurando tanto e tudo naqueles dias que ainda lhe são bastante difíceis.

Você foi e levou consigo um pedaço do coração que você remontou todinho. Você foi e levou um pouco do meu sorriso, do colorido dos meus dias e da minha recente fé no amor. Mas você deixou tanta coisa… Deixou a certeza que sozinha eu não conseguiria vencer meus obstáculos e fez com que eu fosse, finalmente, em busca de uma felicidade que só eu posso me dar; deixou a certeza que não se ama apenas uma vez e que só o amor nos cura; deixou ainda os ouvidos e conselhos que volta e meia eu busco; deixou palavras bonitas, dizendo que eu tinha te devolvido seu coração também – para quem está acostumada a quebrá-los, isso foi um bálsamo na alma.

E, no fim das contas, por mais que a saudades bata, eu sei que não há mais nada que nos mantenha juntos. O fim veio com motivo: estamos cada um em sua jornada e não poderíamos ser o que desejamos um para o outro. Longe de ter sido fácil, mas sem mágoas, com respeito e com tantas clarezas… e é por esta razão que onde você estiver, com quem você estiver, eu desejo que você seja verdadeiramente feliz. Mas essa carta também não era para te contar isso.

Eu escrevi esta carta para te contar que apesar de tantas coisas que agora eu sei sobre nós, eu não sei do nosso futuro (eu também não duvido de nada entre/com a gente). E há algo aqui dentro, naquele pedacinho do coração que você conquistou depois da conversa mais difícil que tive com você, que me diz que nossa história é meio música do Fábio Júnior. Você veio com dia certo, eu lembro com todos os detalhes, mas eu ainda não sei que dia você vai embora… e aos acasos da vida, eu delego nosso reencontro.

Até lá, you can keep me inside the pocket of your ripped jeans or  next to your heartbeat (where I should be).

Com amor, Mi.

 

 

teu sorriso é o que vou guardar comigo

 

ela era um rosto entre muitos. mas não era qualquer rosto, também não era uma Grace Kelly, Audrey Hepburn ou qualquer desses ícones de beleza que saltam aos olhos. ela era um rosto tão dela, completamente dela. e o sorriso? este rasgava o rosto, de ponta a ponta, exibindo muito mais que muitos dentes.

desde que a conheci tem um algo engasgado no peito. à primeira vista, toda vez que ela sorria, eu sentia uma vontade quase incontrolável de ser o motivo. mesmo que ela endurecesse as feições, assunto ou outro, abria os olhos, surpresa, e, sem saber, revelava uma certa tristeza, meiga até, daquelas que você quer abraçar e dizer que tudo vai ficar bem. porque você quer que ela não sinta nada além do que você também está sentindo.  e então, não mais que de repente, foi uma vontade insana de beijá-la e ficar de vez ao lado dela. e ela me deu o primeiro sorriso de muitos que seriam só meus, de mais ninguém.

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estar com ela era tão simples como devorar um pote de pasta de amendoim. ela era o furacão que me dava paz. ela bagunçou todos os meus planos e eu me senti realmente sortudo por isso. eu também fiquei confuso. eu fiquei o quanto pude, da melhor maneira que pude: por inteiro. tempo é sempre algo relativo quando o que existe é verdadeiro – e avassalador. mas somos todos estragados por dentro. ela era mais do que eu podia lidar agora. ela não, a situação. como é possível cair aos pés de alguém quando ainda se está de joelhos?

eu vi o sorriso morrer em olhos espremidos segurando as lágrimas, mesmo que ela tentasse olhar fixamente para a xícara de café. e vi quando ela veio certeira em minha direção e me envolveu  em um abraço. com força e que me atingiu de um jeito que só ela sabe. ela sorriu no meu pescoço, eu sei, eu senti. ela respirou fundo, sorveu meu perfume e abriu outro sorriso. era um sorriso diferente, eu não acho que tenha visto em mais ninguém em toda minha vida. ela me disse que não estava triste. ela disse que eu tinha que ir porque era melhor assim: sem mágoas como herança. era um sorriso de empatia, daquele tipo que entende a dor do outro e dá espaço para que as feridas sarem e os traumas se minimizem

eu vi ela ir, provavelmente secando as lágrimas ou procurando um cigarro. ela não olhou para trás. eu não fui atrás dela, como disse que iria caso ela fugisse de mim. eu sabia que tinha encontrado alguém com quem queria fazer planos a longo prazo, assistir filmes no sofá e ficar admirando. mas fiquei parado olhando ela ir. porque eu sabia que ninguém a segurava. ela era dela, completamente dela, mesmo quando ela quis ser minha.

desde que a conheci tem um algo engasgado no peito que vai ficar, assim como a lembrança desse sorriso, que não para de surgir na minha mente. é o que vou guardar comigo.

 

. josé castillo .

Carta para minha filha, aos 9.

Oi Nunu!

Eu estava assistindo ao filme “O quarto de Jack”, um dos indicados ao Oscar 2016, e comecei a pensar em você, em nós. Faz dois anos desde que eu escrevi uma última carta por aqui. Dois anos é bastante tempo, independente da idade que temos –embora na idade da Mamãe eles pareçam passar muito mais rápido – e o (nosso) mundo mudou muito.

Nossa relação também. Eu me fechei mais para o mundo, passei a trabalhar o triplo do que costumava, passei a dividir você com seu pai, suas avós, suas amigas, seus interesses, suas séries, seus filmes, seus documentários; meus trabalhos, meus estudos, minhas viagens, meus treinos, meus filmes. A vida é assim: ela roda como o planeta Terra, sem parar. Mas algumas vezes caímos – na vida real a gravidade não exerce sua força – o que é bom, pois isto ensina a nos levantarmos e tentarmos mais uma vez. Aprendemos a andar de skate melhor, a ler melhor, a correr melhor, a escrever melhor, a comer melhor, a ser melhor!

Eu vi você perder o medo de ser você, de dar sua opinião, de sorrir mais; vi você fazer novos amigos, demonstrar carinho com mais facilidade e conversar mais sobre seus sentimentos – mesmo que você ainda faça a mesma cara torta quando quero te apresentar uma nova comida! Eu aprendi que fica cada vez mais difícil criar você sem conflitos, sem culpa, sem achar que eu só faço besteira. Eu também deixei meu mundo virtual mais de lado e passamos a compartilhar aprendizados; lemos dicionários, assistimos aos documentários, escrevemos redações, discutimos o futuro do planeta, fazemos roteiros das nossas viagens, conversamos sobre religião, política e diferentes tipos de pum.

Às vezes tudo dá certo, às vezes eu não sei o que fazer com você e você não sabe como lidar comigo. Mas eu sei que você me ama, com todo amor que conhece, e eu te amo com um amor que jamais achei que conheceria. Eu ainda continuo não me importando em ter um apartamento de frente para o mar, uma H-RV ou um prêmio pela minha profissão. Eu vejo você deitada no meu colo – seja por sono, chamego ou porque se machucou – e seus braços se transformam no lar mais aconchegante e maravilhoso que morei; você cria suas histórias e piadas e eu voo ao seu lado, nos seus sonhos e devaneios; você respeita meu espaço, pergunta sobre o que eu faço e fica admirada como eu faço para dar conta de tanta coisa… E este é meu prêmio!

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Eu já não converso mais com você enquanto você dorme. Ao olhar para você eu perco a fala e o fôlego. Fui eu quem pus você no mundo, que te transformei nessa criança de quem me orgulho tanto? Parece mentira! Passo longos minutos da madrugada admirando seus cabelos ondulados, seus olhos grandes, seu narizinho arrebitado e penso no que posso ter feito de tão bom para o Universo para ter você, exatamente do jeitinho que é, ao meu lado.

E a verdade é que a resposta é o que menos me interessa, já que você está comigo. Embora eu saiba que muitos mais conflitos estão por vir, também sei que no final das contas seremos eu e você, como somos desde que a minha vida passou a fazer sentido de verdade. De todo meu coração, me perdoe por todas as vezes que não fui a melhor mãe que poderia ter sido e já coloca mais algumas outras vezes na conta – eu ainda vou errar antes de achar que cheguei perto de acertar. E obrigada, infinitamente obrigada, por ter me escolhido. Eu nada seria se não fosse você!

Com amor, hoje e sempre.

Mamãe.

Só agora eu sou assim

Por diversas vezes eu escutei que deveríamos ter cuidado com o que desejamos, afinal desejos podem, de fato, serem realizados. A cada paixão não correspondida, cada briga, cada rompimento, cada lágrima queimando a face, eu pedia ao Universo para ser uma pessoa menos passional, menos emotiva. E, então, eu me tornei cínica!

Sou capaz de ter crises de choros em filmes, seriados, músicas e até vídeos que falem de amor. São lindos, emocionantes e me arrepiam, mas esta é uma realidade desconstruída para mim. Não importa quão incrível seja eu estar com um alguém, há sempre uma barreira entre mim e o potencial desenrolar dos fatos.

Eu desapareço e nem sempre é porque eu quero causar algum mal, apenas prefiro evitar o inevitável. Sem dúvidas, mas cheia de anseios e angústias, eu sei que além disso eu vou me atirar no abismo, no mar, e ficar mergulhada até o pescoço. Eu não sei ser metade. Cheia de tantos “e se”, eu sou intensidade até a última célula.

Contraditório? Tenho a mania de sempre dizer que eu jamais faria algo, até ir lá e fazer. Às vezes é para provocar qualquer possibilidade de autoridade para cima de mim, às vezes é só porque eu realmente mudei de ideia no meio do caminho – depois de analisar tanto, a ponto de ser consumida pela enxaqueca e amanhecer com bolsas embaixo dos olhos. Nem sempre é preocupação com algo, é apenas uma maneira de eu viver diversas vidas, explorando todas as possibilidades. OVER. Over thinking, over reacting, over feeling.

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Mas nada em mim é falso. Se é para rir, dou gargalhadas até perder o ar; se choro, sou uma excelente alternativa para a crise hídrica; se é para ser amiga, troco minha vida pela sua. E mesmo assim, ressalto meu coração negro e peludo, para poder esconder algo que me é tão precioso… Não me dou por inteiro a qualquer um, porque a vida ensinou que nem todo mundo merece o melhor de mim. Difícil? E cansativo também. Mas nada comparado ao desgaste de recolher os cacos do coração, enquanto mãos e joelhos estão sendo cortados ao tentar juntá-los.

Coleciono papéis antigos, postais e lembranças de tudo que passei. Tenho um carinho por todos aqueles que passaram pela minha vida, reconhecendo nisso uma espécie de amor: o que não machuca. Mesmo que eu tente guardar rancor, só guardo nomes. E depois de um tempo, depois de entender o que aquela pessoa me ensinou, eu só passo a desejar que seja feliz na vida que escolheu. Mas que fique longe! Sou orgulhosa até a hora em que preciso deixar de ser. Sou fúria até a hora que a primeira lágrima cai e toda minha muralha cai por terra. E então eu fujo.

Fujo porque só assim me sinto livre: tendo asas para voar (mesmo que eu não saia do lugar) e raízes para voltar. É questão de saber que posso, que não tenho amarras. Ser assim, enfim, tão minha. E ainda que a solidão escolhida tenha seu certo pesar, não existe sorriso falso: todas minhas rugas são as cicatrizes de quanto fui e sou feliz. Não vivo a vida que não é minha, nem crio cenários alternativos para a vida real. É aqui. É assim. É agora!

E agora sou cínica. Sou tudo o que desejei tantas e tantas vezes. Minha frieza não é falta de vontade de viver a sorte de um amor tranquilo. É a vontade de não ver mãos cobertas de band-aids, de não usar merthiolate nos joelhos- porque, na verdade, para mim, doeu sempre! Mas daqui em diante  tudo pode mudar. Eu posso entrar no metrô, no Tinder, no Starbucks e encontrar a pessoa que vai me mostrar porque vale a pena mudar de ideia no meio do caminho.

Mas agora, só agora, eu vou ficar aqui, sorrir e sentir que não dói mais.

 

 

 

Fireworks inside me

Esqueço minha mania de não aceitar cavalheirismos e eu cedo. Foi difícil resistir ao vê-lo parado, com a mão esticada para a porta do carro. Eu sorrio e me afasto enquanto ele, em sua habilidade de ex-pugilista, me vira, segura meu rosto com as duas mãos, me olha baixo e me beija suavemente . As pessoas continuam passando pela ruela, diminuindo o som ao nos verem e eu o beijo com um sorriso tímido nos lábios, confessando um lado que prefiro quase nunca expor. Ele sorri ao constatar essa versão de mim que ainda não tinha visto, me coloca no banco do passageiro e saímos.

Ele dirige sem saber aonde ir e decido levá-lo onde nunca levei alguém antes, mas é o tipo de lugar que ele gosta de estar. É o lugar onde sempre estou. Ele contempla a vista, o interior do meu lugar no mundo e eu sei que ele precisa ver mais. O pedacinho recém-descoberto, com a orla abaixo dos nossos pés e todo mar à nossa frente. Dois braços envolvem meu corpo. A barba por fazer raspa meu ombro e a boca dele deixa rastros da base do pescoço até a ponta da minha orelha esquerda. A temperatura da noite de outono eleva-se subitamente e dentro de mim é apenas verão.

Escadas, ladeira abaixo, ruas e uma única rotatória até chegar onde tudo começou, para mim. Na rádio toca “Your Song”, minha música, e ele fala comigo sem desviar os pequenos olhos escuros dos olhos mais doces que ele já viu. Às vezes, um momento de felicidade está em coisas simples. E eu sei que hoje eu transbordarei.

Ele me envolve, me beija e brinca com meu cabelo. Eu sento em seu colo, beijo todo o rosto, sem pressa. Pequenos beijos salpicados, reconhecendo a fisionomia com os lábios, absorvendo o perfume, sem querer explicação, apenas sentir. Ele sorri de um modo que não sei dizer e antes de falar qualquer coisa, mordo o queixo e sou esmagada entre seu peitoral e o volante. Suas mãos passeiam por todo meu corpo, apertando, sentindo, chamando para si. E eu me entrego.

Sinto a pele dele junto à minha. Sinto seu gosto, seu cheiro e seu toque por todo meu corpo. Engulo suor e saliva com a mesma satisfação que devoraria um prato de mariscos. Seus braços contornam minhas coxas e ele desafia as leis da Física. Eu sinto que o parquinho de diversões abriu somente para eu brincar. Sem pressa, porque ele vai ficar aberto a noite toda e eu me divirto como se não houvesse amanhã, pois, na verdade, não há. Aproveito para aproveitar cada looping com um sorriso bobo, cada subida sentindo o friozinho na barriga, cada fogo de artifício que estoura dentro de mim com gritinhos abafados no pescoço dele. E, como se ainda fosse criança, brinco no escorregador de gozo e suor sem medo da queda. Até que desabo esgotada, arfando.

Ele ainda sorri, eu o beijo sem timidez, sem pudor. Ofereço a ele a vista mais secreta desde então. Eu assim, tão entregue, tão exposta em quase todas as versões de mim mesma. Eu olho pela janela, para o alto e enxergo para dentro. Sorrio ainda mais quando volto para o colo dele. Enquanto ele se aconchega no meu corpo eu sei que não é ele. Mas há tempos  eu não era tão eu com outro alguém. Eu olho para nós dois e sorrio. E, enfim, relaxo.