Para o amor perdido

Fiquei triste. Num momento você estava aqui e – assim como uma samambaia que deixa de ser regada, murcha e morre – demorei para perceber que há tempos você já não estava mais.Para onde foi tudo aquilo? Que começou tão alegre, descontraído e livre? Para onde foi aquilo que tinha tão seguro, tão apaixonante? Tão certa da sua eternidade. Para onde foi, porra? Meu peito, depósito subitamente esvaziado, aperta-se no meio de tanto espaço.

Tento identificar o preciso instante, quando o que tínhamos se perdeu. Mas nem sei se o perdemos juntos ou se juntos ainda estávamos. Quantos erros misturados como pernas de novos amantes. Erramos juntos? Uma sucessão de erros coroada com um golpe final tão vil. Não sei quem errou primeiro, sei que EU deveria ter tirado o time de campo antes da prorrogação. Me desespera saber que um amor, um dia desses tão arrebatador, tenha desaparecido e deixado tanta mágoa nesse rastro.

A solidão me obriga a recorrer às lembranças. São elas que me dão forças para sobreviver nesse buraco no qual me joguei. São elas que me trazem o melhor de você, de mim, de nós. Surgem como um slide-show, ao som de Plácido Domingos e John Denver, e preenchem – temporariamente – o lado esquerdo da minha cama. As lembranças tornam-se o melhor paliativo quando ainda acredito amar o homem mais decente, generoso, amigo, divertido, engraçado, companheiro, encorajador, desafiador, estimulante, enlouquecedor, irritante que conheci. Pois sim, elas também carregam o pior de você, de mim, de nós…

Então recorro ao poder das cartas. Não as de tarô, mas destas, escritas, enviadas (ou não), publicadas. Cheias de questionamentos, metáforas, saudades, lágrimas subliminares, alívios, rancores, que assim, misturadas numa espécie de dadaísmo sentimental, soam um pouco mais sensatas que as ridículas cartas de amor. O único poder que espero desta, é deixar registrado esse meu estranho momento. Quando o que deveria ser angústia revela-se alívio… e vice-versa.

Não gosto de perder, você sabe. Embora nessa situação, perder também seja ganhar. Ganhar mais autonomia, mais amor-próprio, mais aprendizados e, em troca, perder alguns “amigos” e você… pode-se acreditar numa balança equilibrada. Mas agora, cercada de solidão, procuro o que procurar. Sabendo que não desejo encontrar nada, experimento o desânimo da busca desiludida. Pois se um amor como aquele acaba assim, vale a pena um outro? Será inteligente apostar tanto num novo?

Não desejo nenhuma resposta sua, pois tenho certeza – baseado em suas “verdades” e “conselhos” de amigos – que você está se lixando para tudo isto. Talvez lhe doam os sentimentos, o orgulho, mas o resto é resto. Você seguirá sua vida tranqüilamente e assim deve ser. Pode até achar graça da minha “desgraça”, uma punição por mais uma travessura da Menina Má. Mas se um dia tiver essa mesma vontade idiota que tive, vá em frente: desabafe! Se esse desabafo vier em forma de carta, faça diferente de mim e rasgue-a. Picote em milhões de pedacinhos e jogue-os no lixo, sendo esse o destino mais nobre para as emoções abandonadas.

Então é isso, essa história já tem um final: ao mesmo tempo em que me sinto livre desse relacionamento, apenas precisava de palavras que fizessem jus ao fim do amor que senti. Deixo esse testamento de dor, onde me reconheço fraca e irremediável. Pois embora saiba que nenhum câncer é extirpado sem causar danos, às vezes sinto-me tentada a poder acreditar numa metástase.

Sua ex.

Mulheres alteradas?

Dias de “mãe-dona-de-casa” têm poucas distrações, por isso novelas são um TREMENDO passatempo! A nova trama global conta a história de uma personagem muito interessante, Loreta – interpretada por Irene Ravache. Ela acolheu uma moça com filha e logo depois a moçoila leva-lhe o marido e a casa, deixando-a só, com filho que largou os estudos para sustentar a casa.

Nada de anormal não é? Afinal alguns homens fazem assim mesmo. E embora o ódio que a Loreta despeja pelo ex me assuste, é totalmente plausível!

Imaginem-se na mesma situação! Mulher sofrida, largada ou ciumenta em excesso é perigoso para sociedade! E não precisa chegar ao extremo do personagem do Osmar Prado, não! Faça com que sua namorada, esposa, apenas imagine que você a está traindo… exemplos?

Desde a vingança básica “do-vai-levar-chifre-também” até armadilhas, detetive, flagra, “separação-vou-arrancar-até-aquela-sua-cueca-remendada”… e por aí vai! Aí somos nós, mulheres que foram vítimas, que levamos a culpa! Somos execradas, hostilizadas, julgadas, incompreendidas.

Homens podem acreditar que isso é “coisa de mulher”, mas já são conhecidos os casos de crimes passionais, para manter a honra, de bater – e matar – por ciúmes. Ou seja, trata-se de uma patologia humana, com foco acentuado nas mulheres.

Somos nós capazes de demonstrar emoções mais claramente, o que faz parecer que apenas nossa estirpe seja capaz de tudo ao engolir o orgulho misturado aos cacos do coração.

Lembrei-me de inúmeras cenas que representei, em nome do que julguei ser amor, por não querer sair por baixo ou por vingança no seu estado mais puro. Ligar para colocar a moral do outro bem lá embaixo, beijar o melhor amigo, uma foto em fotolog, ceninhas… Afinal, olho por olho, dente por arcada dentária!

Dá uma falsa sensação de prazer, uma busca desenfreada pelo sofrimento alheio e que, impelida pelo impulso de revide, com fome de vampira sanguinária, quis beber até a última gota!

No fundo, pequenos subterfúgios que não levam à nada, a não ser à auto-destruição e à solidão. A solidão de si mesmo, o imenso vazio da qual vivemos fugindo – vazio de saber que aquilo que nos falta é amor-próprio.

A raiva, mágoa, ódio consomem energia que seria melhor aproveitada se ao invés de pensarmos em revidar, pensássemos em cuidar um pouco mais de nós mesmas. Mas, claro, isso só é compreendido, quando passamos a saber que a vingança é ainda mais saborosa quando degustada fria.