E que nada seja por acaso

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Eles se amam. Todo mundo sabe mas ninguém acredita.

Não conseguem ficar juntos. Simples. Complexo. Quase impossivel. Ele continua vivendo sua vidinha idealizada e ela continua idealizando sua vidinha.

Alguns dizem que isso jamais daria certo. Outros dizem que foram feitos um para o outro. Eles preferem não dizer nada. Preferem meias palavras e milhares de coisas não ditas.

Ela quer atitudes, ele quer ela.

Todas as noites ela pensa nele, e todas as manhãs ele pensa nela. E assim vão vivendo até quando a vontade de estar com o outro for maior do que os outros.

Enquanto o mundo vive lá fora, dentro de cada um tem um pedaço do outro. E mesmo sorrindo por ai, cada um sabe a falta que o outro faz.

Nunca mais se viram, nunca mais se tocaram e nunca mais serão os mesmos.

É fácil porque os dias passam rápidos demais, é dificil porque o sentimento fica, vai ficando e permanece dentro deles. E todos os dias eles se perguntam o que fazer.

E imaginam os abraços, as noites com dores nas costas esquecidas pelo primeiro sorriso do outro.

E que no momento certo se reencontrem e que nada, nada seja por acaso.”

. tati bernardi .

A primeira vez a gente NUNCA esquece. Ocasionalmente, a última também não

– “Tenta sim. Vai ficar lindo.”

Sempre ouvi essa frase de inúmeras amigas, falando da bênção da depilação: os pêlos demoram a crescer, namorados adoram. Comentando com meu namorado da época, ele adotou a idéia e tal qual eu fui à depiladora.
Fiz meia-perna, buço, virilha e axila. Ok, tudo normal, não morri. Depois que engravidei e minha rebenta nasceu, passou-se mais de um ano e cismei de voltar à depilação da virilha e buço.

Eis que chego à depiladora e ela começa um pequeno interrogatório:

– “Virilha normal ou cavada?”

Eu nem sabia o que seria uma virilha cavada. Mas já que era pra fazer, quis fazer direito. “Cavada mesmo”, sentenciei. Tinha escolhido uma calcinha apresentável e a Néia pediu que eu a seguisse até o local onde o ritual seria realizado.

 Adentrei num longo corredor, onde, de um lado a parede e do outro, várias cortinas brancas. Por trás delas ouvia gemidos, gritos, conversas. Uma mistura de Calígula com O Albergue – pois até então eu fazia tudo com uma depiladora que atendia em casa, nunca havia freqüentado tal espécie de clube de swing. Eis que chegamos ao nosso cantinho: uma maca, cercada de cortinas.

– “Querida, pode deitar.

Tirei a calça e, timidamente, fiquei lá estirada de calcinha na maca. Mas a Néia mal olhou pra mim. Virou de costas e ficou de frente pra uma mesinha. Ali estavam os aparelhos de tortura. Vi a panela, uma máquina de cortar cabelo, uma pinça. De repente ela vem com um barbante na mão e amarrou as laterais da calcinha.

– “Quer bem cavada?”

– “É…”. e nesse momento apenas fiquei pensando quem, afinal das contas, apreciaria minha ousadia!

– “Os pêlos estão altos demais. Vou cortar um pouco senão vai doer mais ainda.”

– “Ah, sim, claro.”

De repente, ela volta da mesinha com uma espátula melada de um líquido viscoso e quente – a cera!

– “Abre as pernas assim, como se fosse uma borboleta” (joelhos dobrados, uma perna pra cada lado).

– “Assim?”

– “Não, arreganha mais, assim…”

 Arreganha mais assim? Nenhum cara com quem eu tivesse trepado, metido, fudido me falou nesses termos! Aí uma loira, alta, bonita, vem e fala assim comigo? Me senti estuprada! E foi tão óbvio, pois até corada eu fiquei. Ela riu. Que situação, quis arrebentar o nariz de batata dela.

 

Ela passou a primeira camada de cera quente em minha virilha e a sensação já era conhecida, até a hora de puxar. Foi rápido e fatal: achei que toda a pele de meu corpo tivesse saído, que apenas minha ossada havia sobrado na maca. Não tive coragem de olhar, achei que havia sangue jorrando até o teto. Segurei o grito, tentei não expressar toda minha dor, mas a Néia perguntou se estava tudo bem quando me notou roxa. Tinha esquecido de respirar, com medo que pudesse doer ainda mais.

O processo medieval continuou. A cada puxada eu tinha vontade de espancá-la. Lembrava das minhas depilações anteriores e cogitei a hipótese de que alguma filha da puta que me odeia, tivesse contratado aquela loira nazista para acabar comigo.

– “Posso depilar os lábios todos, ou você quer que deixe um bigodinho?”

Bigodinho? Era parente do Hitler mesmo, provavelmente uma neta, cujo filho ele deve ter escondido. Caralho, que coisa ficar com a xoxota que nem de nenê, mas topei. Quem está na maca é para se fuder mesmo.

Não bastasse minha condição, a depiladora do lado invade o meu cafofinho e dá uma conferida. “Olha, tá ficando LINDA essa depilação.”

– “Menina, mas tá cheio de encravado aqui. Olha de perto.”

Se tivesse sobrado algum pentelhinho, ele teria balançado com a respiração das duas, estavam bem perto das portas do paraíso. Cerrei os olhos e pedi que fosse um pesadelo – até pedi a algum anjo que me teletranspotasse para qualquer lugar BEM longe dali – só voltei à terra quando entre uns blábláblás ouvi a palavra pinça.

– “Vou dar uma pinçada aqui porque ficaram um pelinhos, tá?”

– “Pode pinçar, não tô sentindo nada mesmo.”

Estava enganada. Senti cada picadinha daquela pinça filha da puta arrancar cabelinhos resistentes da pele já dolorida. E quis matá-la, mas mal sabia que o real motivo para isso ainda estava por vir

– “Fica de quatro agora?”

– “Hein?” Fiquei estática! “De quatro pra quê?”

– “Para fazer a parte cavada.”

Pior não podia ficar: não bastasse a dor, a arreganhação toda, duas mulheres conferindo cada centímetro da minha virilha, agora eu ia ficar com a bunda projetada para o alto, a Deus dará. Nunca na minha vida tinha sido tão humilhada! No entanto, obedeci. Respirei fundo, deitei de bruços e na maior cerimônia, me pus de quatro, esperando pelas próximas orientações

– “Segura sua bunda aqui?”

– “Hein?”

– “Puxa as duas bandas para abrir mais e não grudar.”

Tive vontade de chorar: eu não podia ver o que ela via, o que ela faria, mas ela estava de cara para ele, o olho que nada vê… Quantos haviam visto, à luz do dia, aquela cena? Nem meu ginecologista, nem meu namorado. Quis chorar, gritar, peidar na cara dela, como se pudesse envenená-la. Mas de repente fui novamente trazida para a realidade.

Senti o aconchego falso da cera quente besuntando meu olho cego, não sabia se ficava com mais medo da puxada ou com vergonha da situação. Sei que ela deve ver mil cús por dia, o que até aliviava minha situação, afinal por que ela lembraria justamente do meu entre tantos?

Fui impedida de continuar meu questionamento particular, a Néia puxou a cera: achei que o pouco de bunda que Deus me deu, tivesse ido embora. Num puxão só, ela arrancou qualquer coisa que tivesse ali, com certeza não havia nem uma preguinha pra contar história.

Apenas uma lágrima solitária escorreu de meus olhos. Era dor demais, vergonha demais, aquilo não fazia sentido. Estava me depilando pra quem afinal? Ninguém ia me comer, muito menos ver o tobinha tão de perto daquele jeito.

– “Terminamos. Pode virar que vou passar maquininha.”

– “Máquina pra quê?!”

– “Pra deixar ela com o pêlo baixinho, que nem campo de futebol. Só precisa tirar a calcinha”

Mais um choque! Como alguém fala isso sem antes pegar no peitinho? Nunca aconteceu comigo e olha que não tirei a calcinha poucas vezes! Mas o choque foi substituído por uma total redenção: ela viu tudo, da xoxota ao cú.

– “Prontinha. Posso passar um talco?”

– “Pode, vai!”

– “Tá linda! Pode namorar muito agora.”

Namorar, namorar o caralho! Eu estava com sede de vingança. O resultado foi fenomenal: bonito, lisinho, sedoso, mas doía e incomodava demais. Queria virar feminista, morrer peluda, protestar pelo reflorestamento da floresta. E que venham elogiar, dedicar horas de sexo oral… eu ainda opto por barba, cabelo e bigode!

 

 

O que a luz negra não revela

São depois dessas noitadas de sentimentos efêmeros, pessoas fúteis e tristeza mascarada em sorrisos para fotos de sites, que se pode vislumbrar algumas coisas perdidas mais no tempo do que no espaço.
Mesmo que seus amigos estejam lá, você está na companhia deles – talvez, impelido pelo sentimento ilusório e hipócrita de que dias melhores virão – por não ter a opção de estar com quem realmente gostaria.
Alguém para ligar de madrugada e dizer, e ouvir, “eu te amo”, para fazer carinho ou cócegas, que estale seus dedos do pé com maestria ou até mesmo para enxugar suas lágrimas – e reclamar – na enésima vez que você assiste Dirty Dancing, ou qualquer outro filme que lhe provoque pequenos choros.

Ele que te mimou, ninou, cuidou, protegeu, brigou quando necessário, escutou, apoiou, riu ou chorou contigo e amou mais do que qualquer outra coisa até aqui.

Então, no meio daquela multidão, está tudo vazio. Vazio, esse preenchido por Marlboros light, litros de café e capuccino, músicas gravadas nos cd´s que ele se preocupou em fazer para te agradar, fotos, palavras desconexas, Lexotans e comida.

De preferência leite condensado com Nescau ou no sorvete de flocos com granulado. Aí você pensa nas coisas que fez, ou deixou de fazer, para que estejam separados. E não encontra respostas para um maldito por que.

É uma dor pior que cauterização, que tatuagem na bacia. Como se, primeiramente, a alma fosse arrancada igual band-aid, depois esticada como fio de náilon e, por fim, cortado com a habilidade do Jack Estripador. Seu corpo sangra em lágrimas. Dói mesmo. Incomoda como uma queda sem fim; coração, estômago e cérebro na boca, prestes a caírem, caso não toque o chão… e você não toca.

Os sonhos sonhados juntos, o futuro planejado que nem chegou, promessas quebradas, juramentos desfeitos… Diante de qualquer fresta tenta-se enxergar uma luz – de esperança que esse pesadelo termine – no fim do túnel. Mesmo que nenhum dos dois saiba onde este fim está… ou se, de fato, esta história teve um ponto final.

O que acontece é que morremos um pouco a cada dia. Pois nos acostumamos a não ter mais… é isso, acomodação dos fatos. A gente adapta-se a viver uma vida ordinária, sem muita graça. Carregada por sorrisos amarelos, dores nas almas, programas às vezes sem importância. E o que você queria era apenas estar deitada na sua cama, aninhada no peito dele contando alguma piada idiota, fazendo voz de neném.

E saímos desses lugares prometendo não voltar lá tão cedo. Não porque seus amigos não te façam gargalhar – eles são os melhores paliativos – ou porque você não queira se divertir e sair um pouco desse ar carregado de tristeza e arrependimento. Mas porque esses locais reforçam a idéia de solidão.
_ texto escrito antes de chegar em casa, depois do Moby, lá no posto da Francisco com o canal 2. Na companhia de duas xícaras de capuccino, um copo de café e da paciência do Adriano (escrito originalmente em 26/06/2004, mas que se aplica MUITO bem a esses tempos)_
 

 

 

Para a válvula de escape

  

 “Como seu próprio nome diz, você serve para consolar na hora que tudo parece estar estourando e preciso fugir daquele caos. É uma abnegada, em meio aos meus desesperos eternamente efêmeros, surge na exata hora que eu necessito: não importa se é de madrugada, domingo ou feriado. Te encontro assim que preciso e nem preciso te gritar via celular. Que todas as pessoas soubessem do seu enorme benefício e companheirismo, e assim sendo, não tivessem medo de conferssar-te, de utlizar-te. Um mundo sem máscaras, reais ou virtuais.

Por intermédio seu, encontro minha face mais infiel, porém. Ao meu lado você teve várias e várias versões; não me mantive fiel, perdoe-me. Sou o tipo de pessoa que enjoa fácil e busca outros prazeres, sobretudo em meio à dor.

Você já foi meus Marlboros, meus chocolates, meus amores, meus cafés, meu narcisismo, meu blog, meus flogs, minhas baladas, meus porres, meus xingamentos, meus momentos de solidão, meus atos deliberados de rebeldia a agressão verbal. E agora é meu José!

Diante da mutação da vida, tive que te adornar conforme minhas necessidades, não restou alternativa. Somente nos seus braços encontro o pouco da sanidade e paz de espírito que ainda me restam.

Talvez eu seja uma covarde que não saiba caminhar sozinha, que teme que isso aconteça. Talvez eu seja honesta ao confessar que todo mundo precisa de alguém, independentemente do orgulho que alimento. Talvez eu seja tantas coisas que eu não saiba…

Sou eu – e os meus comigos – meu constante tormento. Você sabe bem do que falo: você é quem guarda todos meus segredos, você é a mão que afaga meus cabelos – e minha alma – quando todos os outros estapeariam meu rosto se me conhecessem de verdade.

Mesmo sendo-te infiel, és minha lealdale diária. Por isso, lhe devo satisfações e confesso que nossa amizade durará muito tempo. Nada mais justo do que antecipar suas prováveis futuras formas e te poupar dos dissabores:

José (essa será minha única constante), horas diante do teclado construindo meu mundinho fictício necessário, baladas ocasionais eu que eu dance até meu pé sangrar, milk-shakes, noites em claro olhando fixamente para o teto, corrida e muito tempo ao lado da minha filha e, novamente, meus Marlboros light. Chocolate engorda e quero continuar emagrecendo!

E se nada disso me adiantar, venha ao meu encontro com uma alternativa realmente eficaz. Antes que eu sucumba, antes que eu morra e continue a existir.”