Quando for, será

A luz, ainda pálida, entra pela fresta da varanda que nunca consigo fechar, acertando meus olhos em cheio. Resmungo, me remexo e um dedo enrola o cabelo perto da nuca. Um beijo nas escápulas e um braço que me envolve. Abro os olhos assustada, quase esqueço da noite passada. É que foram muitas noites cortadas pela madrugada. Suas pernas se jogam sobre as minhas, você me puxa mais para perto, me abraça forte, enfia seu nariz na minha nuca, dizendo que meu cheiro é doce e adormece. Viro para te olhar. Lindo você assim, olhos fechados, encontrando paz em meu colo, com os cílios longos batendo no rosto, o nariz mexendo levemente enquanto respira e sua barba raspando em mim.

[Talvez se você não tivesse deitado na minha cama, nós poderíamos ser apenas amigos. Se eu não olhasse para você e me sentisse calma, seria mais fácil. Se eu não me sentisse assim, quase confortável em seus braços, eu poderia passar aqueles minutos de uma manhã recém chegada, dormindo]

“Vem pro meu lado, se encaixa aqui”, você me diz. E faz dos seus braços minha morada. Ainda cheirando a Marlboro Light, você me beija com gosto de café da noite anterior e diz baixinho que se eu não fosse desse meu jeitinho, tão errada, tão linda, você não teria se apaixonado.

[Talvez se alguém tivesse lhe dito isso, desse meu jeitinho, nós poderíamos ser apenas amigos. Se eu não tivesse deixado você chegar tão perto, seria menor a vontade de querer ir para tão longe. Se você não fosse toda essa calma hiperbólica, eu seria menos tempestade]

Vou até a varanda, do jeito que estou. Gosto de sentir a brisa gélida tocando meu corpo. Acendo o primeiro cigarro do dia e vejo as cores do céu se transformarem. Um azul quase cinza vai dando lugar ao meu azul favorito no mundo, esse da cor dos seus olhos. E a palidez vai perdendo a força, colorindo mais uma manhã de outono – esta que passou a ser minha estação favorita. Vou até a cozinha, pé ante pé, e preparo mais um café. Curto e forte. É a primeira dose de realidade que tomarei ao longo do dia.

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[Nós poderíamos ser apenas eu e você, mas se eu não tivesse lhe dado meu coração, o meu corpo e meus desejos – mesmo que você não saiba disso. Há muito mais que eu poderia dizer, mas você cala minha boca com um beijo de paixão e prefiro apagar as palavras no cinzeiro em cima do criado mudo]

Nem percebo quando você chega por trás de mim, me abraçando e soltando frases desconexas antes de me dar bom dia. “Quero um relacionamento sério”, você dispara. Te olho como se não houvesse entendido. Existe um relacionamento que não seja sério? O dia tinha começado doce e acabara de ficar mais amargo que o meu café sem açúcar.

[Não sei o que dizer. Cruel demais usar o clichê “vamos ser bons amigos!”. Então eu passo meu rosto pela sua barba, puxo seu cabelo, olho esses dois faróis que você tem, mordo seu queixo, te beijo, te fodo. E logo depois te aviso que tenho que encontrar minhas amigas para o café da manhã. Você sabe que não é isso, mas sabe que será assim. E você não consegue mais lidar com esse vazio]

Vou até a varanda e observo você ir. Desta vez você se foi mesmo. Vou mudar o telefone e até meu endereço, para que você realmente vá!

Vou até a padaria e me valho da desculpa da manhã fria para pedir um chocolate quente com conhaque às 7h27.  Eu encho a cara, mas o álcool não preenche o vazio. São cicatrizes que a maquiagem, comprada na Sephora em 7x sem juros no Visa, esconde. São dores equilibradas em cima do salto 15cm, que eu usava para alcançar tua boca.

Eu iria para qualquer lugar com você, mas não basta seguir o coração. Vez ou outra, é preciso guiá-lo. E desta vez o caminho mais seguro era na direção oposta. É que eu quero lembrar disso como um sonho bom, sem mágoas, sem ressentimentos, sem dívidas emocionais. Quero que você escute nossa música com um sorriso no rosto, quando seu coração quiser lembrar de mim. Mas que você sinta minha falta porque foi bom. Bom demais.

[Eu iria para qualquer lugar com você, até mesmo se esse caminho me fizesse subir aqueles três degraus que a maioria das mulheres sonha subir e eu tento evitar. Mas antes eu preciso não precisar de maquiagem, nem de salto para me equilibrar]

Quando isto acontecer, eu vou rezar para que o número do seu telefone ainda seja o mesmo e que nenhuma outra mulher tenha tido a sorte de descobrir o homem incrível que você é. Ou como seu beijo faz as pernas virarem gelatina, ou como seu cheiro fica bem na pele alheia, ou o rastro cor de rosa que sua barba mal feita deixa na pele branca. E então daremos uma volta, tomaremos um Starbucks na Hadock, fumaremos alguns cigarros. E não direi que talvez seja melhor que sejamos apenas bons amigos. Eu segurarei sua mão sem medo de ficar presa ali por tanto tempo, me encaixarei no seu peito, te contarei que te dei meu coração, meu corpo, meus segredos e todos meus sorrisos.

E será divertido, por inteiro.

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But I can’t help falling in love with you

Lembrar de você aumenta o silêncio que se encontra no meu quarto. O vento da madrugada parece sólido e quase congela as lágrimas que começaram a se desenrolar, desobedecendo cada forca inútil desperdiçada na ânsia de reter as pestanas. Tudo mudou tanto. Mas continuo sendo a garota de sorriso luminoso embaixo da seta de neon, esperando seu cafuné. Daquelas que passeiam pela Antiga Baixa Augusta, esperando que talvez tenha amor em Essepê. Daquelas que, ao ganhar um elogio, nem sequer levanta a cabeça; está farta de noites de sexo vazio – mesmo sonhando a semana toda com o encontro de corpos. O meu e o seu. Mais nenhum.

Uma descarga elétrica, por favor! Meu ar some só de pensar no que éramos. O amor ficou no passado. Já diria Cher: “do you believe in life after love?”. Eu não, não mais. Pensar amar, escrever amor, tentar dizer amor são atos que me dão crise de pânico. Não porque eu tenha pavor do sentimento; ele é apenas uma lembrança muito dolorida de um passado que, muitas vezes, imploro para esquecer. Não porque não foi lindo e divertido e alegre e feliz e completo e a realização dos meus sonhos e tudo sei-lá-mais-o-que. Mas porque não sei como seguir sem. Sem deixar que ele desapareça, como um sonho bom, bem antes de acordar para um novo dia.

Mas continuo gostando de pensar em você. No que éramos. De quantas vezes você me disse que eu era seu mundo, sendo que sequer me sentia parte dele.  Cappuccino, filme, um bom livro, enrolada no edredom. Esperando sair do casulo e voar borboleta. Pousar no seu ombro e ser sinal de sorte. Nunca mais o toque de Midas ao contrário. Ou qualquer dessas coisas que você disse quando me tirou da sua vida. Ser parte do seu mundo, como nunca me senti. Me livrar do peso de ser todo ele. Ser leve como a borboleta que pousa no seu ombro.

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Soa tão utópico. Soa tão egoísta. Soa como um raio de sol em dias cinza e gelados, encobertos pela neblina, carregados de cheiro de maresia. Mas aí chega a distância se amarrando ao tempo. O tempo se prolongando. A distância aumentando o tempo. O tempo distanciando o que éramos. O silêncio que se impõe. A indiferença intoxicando meus sonhos. A cama vazia. O quarto em silêncio. A cabeça girando em um caleidoscópio de recordações. E o coração que sofre micro infartos a cada saudade. Nunca mais ser o que éramos.

Seu sorriso branco, perfeito, com a covinha do lado esquerdo. Seus olhos negros, pequenos, quase rasgados. Sua boca grande. Seu pé gordinho. Sua tatuagem no braço esquerdo. Seus ombros delineados pelos anos de vôlei. Seu pensamento rápido e afiado. Sua gargalhada que é capaz de preencher esse quarto vazio. A temperatura elevada do seu corpo. Seu profissionalismo. Seu protecionismo. Suas lágrimas ao assistir alguma animação. Seu otimismo. Sua inteligência. Sua coleção de camisetas. Sua curiosidade. Seu romantismo. Seus tudos. Até seus defeitos.

Eu quase estive certa de que não morreria de você. E é exatamente por isso que não consigo evitar me apaixonar por você. Constantemente.  

PS: TEXTO ORIGINALMENTE ESCRITO EM SETEMBRO DE 2012. ACABEI ACHANDO NO MEIO DOS MEUS RASCUNHOS…