Pelos olhos teus

 

“Essa mulher aí tem um cabelo liso, daqueles bons de perder a mão no meio, e quando molhados dão aquela sensação de se perder no meio deles.
Ela tem uns olhos curiosos, meio de meninas, apesar de claramente tristes. Grandes, abertos, curiosos; daqueles  de imaginar que vão te olhar por longos minutos antes de tomar qualquer decisão.

Essa mulher aí tem uma boca sem simetria, mas grande, de promessas e um sorriso ‘meio-que-sempre-presente-sem-querer-sorrir’. Tem um nariz empinado, meio arrogante, mas que se explica pelo conjunto nessa cara de menina meio petulante… Mas graciosa, das boas de desafiar e levar com você!

A promessa dos seios, sempre  sob o jogo do ‘mostra-esconde’ do decote…

Essa mulher aí tem mãos pequenas, com unhas curtas que parecem cansadas de serem roídas ou tímidas de se verem crescidas; seria, no passado, chamar de mulher nervosa. Mas quem gosta das calmas?

Essa mulher aí tem pele clara, pele lisa, pele…Quantas tatuagens escondidas? Dá para fazer as contas? E quem se importa com números, mesmo?

Essa mulher aí…”

. dionísio .

 

Capítulo 13

Já era hora de voltar. Foi com que esse pensamento que Noelle levantou da cama king- size, em lençóis egípcios, do alto da suíte presidencial do Plaza. Cansara de ver o mundo de cima, precisava voltar a vivê-lo!

“Passaram-se 13 meses, cansei de fugir. Eu disse 13 meses?”. Não era uma surpresa, de fato; 13 era seu número – a perseguia desde seu nascimento: o número de tatuagens espalhadas pelo seu corpo emoldurado, o número de calças jeans no armário, a quantidade de vezes que tinha viajado pela Europa (afinal ser órfã e única herdeira de ex-rotaryanos tinha que ter uma vantagem) e o número deles… “como será que ele está?”, tão logo surgiu tal pensamento, abriu os olhos com força, como se quisesse acordar de um pesadelo.

Arrumou-se, fez o check-out e horas depois chegava em casa. Tudo lhe parecia estranhamente diferente e igual ao mesmo tempo. Resolveu pegar o carro e dar uma volta, afinal era outono e a paisagem estava cinematográfica.

Passeou pelo Centro, próximo ao lago, aos bares, passeou por quase tudo. Mas sabia aonde exatamente queria/precisava ir.

Mark havia sido incisivo: se ela fosse embora o perderia. Ela não titubeou, foi-se. Era necessário tentar ajeitar a si mesma antes de qualquer coisa. Nem um adeus, nenhum abraço, tornaram-se estranhos no instante que ele a pressionou. E ela se foi…

Passou na Rua 9, nada. A casa estava fechada, em total estado de abandono. “Não foi somente o Mark que abandonei, foi toda nossa história”, admitiu. Uma pequena, tímida, lágrima morreu-lhe na bochecha. Mas era preciso seguir em frente.

Aproveitou para admirar cada canto DAQUELE trecho caminhado embaixo de chuva, pedalado contra o vento, vivificado na história DELES. Quando se aproximava da numeração 1413, Noelle dirigiu cada vez mais devagar, preparava-se para encarar talvez o olhar mais severo de sua vida, ou qualquer outra reação semelhante.

Entretanto não era para aquela cena que ela estava preparada. Com uma freada brusca, carro, olhos e coração haviam parado. Estavam pétreos e uma enxurrada de lágrimas molhavam sua face…