Nas garras do dragão

Meninas-crianças, meninas-garotas, meninas- mulheres… todas elas, todas nós somos tomadas por fantasias. Sejam heróis, cenas românticas, paixões por vilões ou admiração por criaturas mágicas.
Um ou outro item desta lista, talvez todas, bem poucas – raríssimas exceções – nenhuma. Não sei se delírio, fantasia, imbecilidade, vontade de escapar, ingenuidade… sempre me fascinei!

Em recente viagem deparei-me com um mito, com uma criatura mágica fascinante, uma lenda real: um dragão. Não um dragão qualquer, mas um poderoso, sem dúvida alguma. Tomada de um fascínio bestial, despi-me de medos e pudores para encará-lo bem de perto.

Barba espessa, narinas fumegantes, olhos penetrantes, corpo forte e longilíneo, estatura firme, porte majestoso, garras afiadas, boca entreaberta dando passagem a sua língua sibilante.

Parecia estar pronto para me aniquilar. Num movimento ágil enlaçou-me com suas patas dianteiras, reteu-me em seu peito e pude escutar as batidas do seu coração (sim, eles têm um!). Foi assim que me entreguei sem hesitar, estava pronta para o que viesse…

Em retribuição, o Dragão exerceu a recíproca da admiração, do deslumbramento. Fitou-me por longos minutos, olhou dentro dos meus olhos, viu minha alma e me apertou contra suas escamas. Com a ponta de uma de suas garras talhou meu ombro direito e o lambeu logo em seguida, provocando uma cicatriz.

Não fui atacada, devorada ou carbonizada. Como bons amigos passávamos horas juntos, caminhávamos, nos divertíamos. Embora de naturezas diferentes, nos entendíamos sem trocar palavras, somente por olhares, por gestos, sensações.

Tudo nele era grandioso demais: sua força, sua energia, seu porte, seu temperamento, seu comportamento, seus atos carinhosos – o que contrariava qualquer coisa que eu já tivesse escutado sobre dragões. O deslumbramento e admiração por esse mito aumentavam na mesma medida da nossa comunhão.

Diante de tantos sentimentos confusos, cheguei a acreditar que geraria uma espécie de Minodrago, mas por essas ironias da vida, depois de alguns meses, Ele se mostrou – ou eu finalmente enxerguei – o que sempre foi: um animal selvagem. Melhor escrevendo, uma lenda selvagem.

As garras afiadas, os olhos vermelhos, as narinas fumegantes, o corpo grande e pesado demais. Jamais conseguiria trazê-lo para o meu mundo e o Dragão, definitivamente, não estava pronto para abrir mão do seu. Era bicho solto, livre para voar, viver por aí exercendo o fascínio que lhe corria nas veias. Mantê-lo meu, estragaria esse brilho, destruir-se-ia um mito.

Fugi! Enquanto o Dragão dormia, escorreguei de suas garras, alisei sua barba, olhei a marca que Ele deixou em mim e dei o último beijo na ponta de seu nariz quentinho. Diante daquele lagarto adormecido, estirado preguiçosamente nas folhagens, me senti criança outra vez.

Corri até minhas pernas arderem, até meu coração quase explodir. E quando me certifiquei estar bem longe, berrei. Berrei mais do que gata selvagem no cio e chorei duas lágrimas de adeus. Nessa altura era inimaginável viver sem a paz encontrada no contato daquelas escamas, naquele cheiro tão peculiar.

O tempo passou, nunca mais vi ou ouvi “meu” Dragão, ou qualquer outro. Passei muitos dias recordando essa relação tão platônica, tão bizarra. Pelo menos aprendi a não fantasiar mais…

Desejei ter somente fantasiado o mito da minha infância ao invés de vivenciá-lo. Não por estar apaixonada, nem por arrependimento. Talvez porque os mitos devam ser apenas mitos. Ou talvez – TALVEZ – por ter descoberto sermos da mesma natureza e que, portanto, nunca nos pertenceremos.

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