Para a minha filha

Nunu,

por mais que você leia histórias para eu dormir e entenda alguns textos, vão se passar anos para que você entenda tudo que lhe digo enquanto você está dormindo – Mamãe tem essa mania de conversar com as pessoas quando elas dormem, apenas porque, embora eu fale muito, nem sempre consigo falar sobre o que me transborda.

Mas espero que no dia certo, quando você entender mais sobre a vida, do que textos em si, você possa ler esses textos que tenho escrito para você , desde o ano de 2007. É sempre perto do seu aniversário, ou na data, que me pego refletindo mais sobre você, sobre mim, sobre nós e como tenho a inacreditável benção de ser a mãe da criança maravilhosa que você é.

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Hoje, enquanto escrevo, sei que poucas coisas me acalmam. Não importa quantos Marlboros Light eu acenda, quantos quilômetros eu corra, ou quantos minutos eu passe esmurrando a parede com as luvas de boxe. É você quem me acalma. Você e seus raciocínios incríveis; brincar com você, sentar para jantar com você e escutar como foi seu dia.

E quando você sorri desse jeito – o riso torto com a cabeça  jogada para o lado, após uma longa gargalhada, como eu faço – eu sei que eu não preciso ter medo. De nada. Nem do futuro. Porque olhar para você assim, a apenas um mês de completar 7 anos, me dá a certeza que, por mais tortas que  tenham sido, eu fiz as melhores escolhas.  Porque TODAS elas me levaram a você, me levaram ao mundo que posso criar. Que é meu e seu. Só nosso. E que eu sei que não existiria se todo o resto estivesse bem.

Você é a dona dos meus sorrisos mais sinceros. Você aquece meu coração – mesmo que poucas coisas hoje em dia o façam. Mas vai passar. Eu sei. Eu sei disso porque você vai estar ao meu lado. Porque por um bom tempo você ainda vai segurar minha mão, procurando segurança. Sem ao menos desconfiar que eu só me sinto segura quando estou assim: de mãos dadas com você.

Quando eu olho para você, eu não me sinto como me sinto na maioria dos dias. Eu me sinto capaz de erguer o mundo, de suportar qualquer coisa com um sorriso no rosto. Mesmo que eu queira chorar. Gritar. Ou fugir. Aí eu olho para você. E eu não existiria em um mundo longe de você, sabe? Quer dizer, claro que eu existiria. Mas eu não seria mais eu sem você.

Eu acho lindo que a sua religião pregue que eu deva amar o próximo como a mim mesmo. E que correntes psicológicas digam que devemos nos amar acima de qualquer um, ou qualquer coisa. Essas pessoas não tiveram filhos. Eles não entendem que a partir do momento que temos um, ou mais, não somos mais donas de nós. Muito menos do nosso amor. Passamos a amar nossos rebentos mais que a nós mesmos. E olha que você tem uma mãe bem egocêntrica.

Eu passei um tempo desejando que você fosse muito mais do que eu sou, puxando sua educação, para que você possa ser exatamente quem você quiser. Mas hoje, enquanto escrevo, eu só quero que você seja feliz. E se não for pedir muito, que você seja sempre assim: minha fonte de alegria, força, orgulho inesgotável.

Porque é só eu olhar para você e eu sei. Sei que não importa que eu não tenha prêmios da melhor profissional do ano. Nem pilote uma CRV. Nem tenha uma cobertura de frente para a praia. Se você olhar para mim e continuar dizendo que sou a melhor mãe do mundo, eu serei a pessoa mais feliz que já existiu.

E se hoje muitas pessoas reclamam que falta amor nesse mundo, é porque eu peguei todo ele para te dar.
Mamãe.

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Para os autores de cantigas infantis

Venho por meio desta, expressar minha TOTAL indignação com as músicas que vocês (ah, se eu soubesse quem vocês são!) compuseram anos atrás.

Desde que minha filha nasceu, vasculhei no arquivo da minha memória, as músicas que meus pais cantavam. Ok, confesso lembrei bem poucas… meu cérebro abalado pela quantidade de hits eletrônicos sucumbiu doces lembranças.

Então recorri à sábia experiência da minha mãe: comprei um cd repleto de cantigas!!! Ponho pra tocar, pois tenho que decorar as músicas, e nossa… que horror!!!

Duvidam? Pois bem…

“Atirei o pau no gato…”, “o quartel pegou fogo…”, “Samba–lelê ta doente”, “era uma casa muito engraçada: não tinha teto, não tinha nada…”, “o sapo não lava o pé”… e por aí vai!

Mentira que vocês ainda não viram o meu espanto??? Gente, o óbvio é tão ululante que tira sangue dos olhos!!! Essas músicas não falam apenas da precariedade da situação brasileira (samba-lelê tá doente assim como várias crianças brasileiras, muitas não lavam o pé – e nenhuma parte do corpo – porque nem água tem, a casa que não tem nada é que nem favela do Rio de Janeiro, ou de qualquer lugar), como também incitam a violência.

Primeiro atira o pau no gato e depois mata aposentado à pauladas, depois do quartel pegar fogo, é a vez da Febem, prisões, ônibus lotados de passageiros e até índio Pataxó!

Não bastou? “Sabiá fez um buraquinho na gaiola, voou, voou, voou…”, nada mais claro que o codinome de algum preso que conseguiu escapar por um túnel! “Minhoco você é muito louco, beijou do lado errado, a boca é no outro lado”… essa é a mais pavorosa!!! Pornografia pura! Praticamente vocês incitam as crianças a fazerem sexo oral… REPUGNANTE!

E pensar que gerações cresceram ouvindo isso! Talvez não seja à toa essa onda de criminalidade e pouca vergonha que assola nosso País! (Ok, ok! Não sou puritana, mas tô falando da minha filha!!!)

Se vocês não enxergaram isso, como posso tentar mostrar aos outros pais, que assim como eu estão preocupados com a educação dos filhos? Teremos que recorrer à lavagem cerebral da Xuxa? (Ela é uma idiota, mas as músicas pelo menos são saudáveis!).

 Gostaria de poder encontrá-los e mostrar tintim por tintim, mas acredito que a grande parte de vocês estejam mortos!!! Tiveram o que mereceram, assim espero!

Vocês não devem ter vivido para assistir o que aconteceu com nossas crianças, ou quão assustada estou com a possibilidade das letras de vossas músicas serem levadas ao pé da letra pela minha pequena, e por outras crianças também! Imaginem como o número de marginais aumentará se insistirmos nessas mesmas canções???

Pode ser paranóia (eu sou uma louca em ebulição), histeria ou até mesmo o olhar de um adulto onde os pequeninos não enxergam tal malícia… tá bom, admito: devo estar exagerando! Mas ficaria muito mais tranqüila se traduzíssemos músicas norte-americanas!

Graças à minha mãe – quase sempre ela – tenho um cd de músicas da Disney para dormir. Uma mais meiguinha que a outra, falando de amor de mãe e filho, de bons sonhos, de ter sucesso na vida. Nem de longe se parecem com nossas músicas!

Criminalidade, violência e corrupção estão intrinsecamente ligadas à nossa educação, de fato! Ou alguém aí já esqueceu da impunidade dos mensaleiros, vampiros e sanguessugas? De quantos deputados foram absolvidos? De como nosso queridíssimo Presidente saiu impune de quaisquer acusações? De como nosso ex-presidente Collor está de volta à cena política? De como assistimos os colarinhos brancos sorrirem em seus carrões e um pai, ou mãe, que rouba comida para sustentar o filho famigerado que a desigualdade social criou, vão em cana rapidinho?

Então, futuros compositores pensem bem quando cogitarem a hipótese de escrever uma música infantil. A sua hora de nanar pode não ser mais tão sossegada quanto lhe parecia…

Sem mais, Mãe Indignada.”