Para não dizer que não falei de amor

Me perguntaram, dia desses, bem no olho do furacão, se eu realmente sabia o que era amor, se eu acreditava.

Não respondi.

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Então fui até a parte proibida do meu armário. O álbum de casamento saiu da caixa colorida – refúgio que achei diante das milhares de tentativas de incendiá-lo. Não são fotos assim tão bonitas; um fotógrafo meio amador; eu um tanto gorda, com o cabelo e a maquiagem que desmancharam antes  mesmo de acabar a festa; você, cansado, fatigado pela doença, pela emoção. E nunca fomos tão lindos! Nem naquela viagem, naquele pôr-do-sol, naquele jardim que eu olhava bestamente, amando a natureza. A gente, que ama cidades, a gente sorria com promessa nos olhos.

[A última vez que te vi, depois de tantos meses, foi naquele tabelionato. Nós dois, no final, éramos dois trapos, duas partes. Lembro-me de olhar na porta espelhada, antes de assinar o divórcio, e pensar: como eu cheguei aqui? E de te encontrar em seguida e pensar a mesma coisa: como  esse cara não se cuidou? Porque a gente se fez tão mal?]

As manhãs enrolada no edredom vermelho, esse cúmplice de tantos anos, fazendo manha para não levantar, era só porque eu gostava mais dos cinco minutos com você na cama. Dormindo mesmo. A sua mania invasiva de colocar o peso das pernas  em cima de mim era reconfortante. Nem mesmo a  respiração pesada, ou o ronco, me deixava assustada. Eu já passei noites sem dormir pra garantir o seu sono bom, fazendo carinho no seu rosto e pensando como você poderia não querer filhos. Como o mundo poderia continuar sem ter uma parte de você?

[Passei tantas noites em claro, chorando, sem saber o que fazer. Sem saber como falar com você, sem saber como deixar o medo de lado e avisar que o barco estava afundando. Você nunca, nunca, soube ver as coisas. Eu sou a míope, mas você é quem sempre precisou de óculos fundo de garrafa para enxergar a vida ao seu redor]

Quando a gente debatia sobre filmes e séries e o passado. E virava as noites gargalhando, comendo pipoca, estirados no sofá. Ou quando discutíamos sobre cor e tamanho do cabelo, sobre o trabalho, sobre ciúmes. E passávamos a noite entre cafunés, carinhos e gemidos. Baixos, altos, sussurrados.  Pois só com muita intimidade a gente se sente confortável para revelar nossas vontades mais toscas, nossas taras mais bizarras sem medo de ser feliz ou de ser taxado como pervertido. A gente fodia com a alma. O amor é muito mais imundo que qualquer depravação.

[E então você me privava disso tudo e vinham aquelas brigas que dilaceravam minha alma, que te deixavam puto a ponto de sair de casa. Aquela vontade de sumir de tudo, de nunca mais voltar, de desejar nunca ter te conhecido]

A gente gostava de conversar. Adorava ver você me ensinando suas nerdices, sobre sua profissão. Eu me apaixonava pela sua inteligência e dedicação. Justificava o que muitos jamais compreenderam. Gostava de ver você me vendo, me admirando, rindo do meu sorriso torto, dos meus tombos cômicos, dizendo que meu olhos eram os mais lindos que você já tinha olhado. Justificava o que muitos nunca compreenderão.

[E, na verdade, nem era nada demais. É que juntos podíamos ser nós mesmos, muitos eus, muitos vocês, muitos nós. Mil deles]

A tatuagem no braço direito e tudo o que ela significa, deixa claro que não há passado que realmente tenha passado. Que em determinados assuntos, cenas, séries, músicas e filmes eu resgato você – e algumas sensações minhas ainda têm um pouco de você – e tudo que você significou. É bem mais involuntário do que isso que agora sinto por você.

[Mas isso não vai mudar o fato de que acabou. Não vai mudar o fato de que nós dois não somos mais “nós”. Que a gente foi e foi pra sempre mesmo. Mesmo que sempre seja uma palavra tão pontual que devamos evitar como o tal do nunca. O amor verdadeiro está na renúncia e eu renuncio tudo que existiu, que foi lindo, mas que – como tudo na vida – teve um fim. Dizer que não deu certo seria blasfêmia, deu sim, certo demais, mas acabou. Como um filme bom, que nem Moulin Rouge que toca a gente, mas acaba. Ou como livro que a gente tenta, em vão, ler devagar para o fim não chegar]

Me perguntaram, dia desses, bem no olho do furacão, se eu realmente sabia o que era amor, se eu acreditava.

E na hora de explicar o que chamo amor, acabei não achando um jeito melhor do que falando de nós.

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Não aprendi dizer adeus!

Ainda lembro daquele outubro de 2010; dia 7 para ser precisa. Eu te vi e soube o que era amor à primeira vista.

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Lembro de sair para comprar a fantasia da Manu e ter voltado com você – e todas suas parafernalhas – nos braços. E de como abria um sorriso largo toda vez que eu contava essa história. Lembro de como você mudou toda nossa vida e de como fomos muito mais felizes ao seu lado. Lembro da sua alegria contagiante quando alguém chegava em casa e como era recebido por vários lambeijos. Lembro de você ficar acordado 5 noites inteiras comigo enquanto esperávamos seu pai sair do hospital. Não saiu de perto um minuto sequer e permitiu que minhas lágrimas molhassem seus pelos lindos. Lembro de você correr comigo no parque, acordar a Manu para ela ir à escola, comer minha pipoca e esquentar meus pés nas noites frias…

Como um ser tão pequenino e peludo pôde transformar tudo? Parecia que estávamos lá, só esperando você entrar em nossas vidas!

Também lembro das suas traquinagens e de como queria arremessar você janela afora quando comeu todas minhas fotografias de bebê. Ou o desespero quando você derrubou a Manu e saiu correndo… Você sabe o que é uma mãe tendo que correr atrás de um filho e socorrer outro? Com medo que outra família te pegasse – quem resistiria? – eu fui atrás de você, para depois cuidar dos ferimentos da sua irmã. Francamente…

E o quanto me irritava sua mania de arranhar a porta para dormir na cama, descascando toda a pintura? Ou das artimanhas que precisávamos criar quando queríamos ficar a sós? Ou aquela sua mania nojenta de lamber meu umbigo? Muitas vezes eu perdi a paciência, eu neguei carinho tentando te deixar menos mimado ou evitei fazer barulho para que você não acordasse e pulasse de felicidade, não parando quieto nem quando eu entrava no banho.

Hoje eu chego em casa esperando que, milagrosamente, você venha me receber na porta, lambendo meu queixo freneticamente. Tenho esperança de que eu vá chegar e minhas roupas estarão espalhadas, você deitado em cima delas, para sentir meu cheiro na tentativa de matar a saudades. Essa mesmo que sinto daqui, que dilacera meu peito. E de que na hora em que eu e a Manu formos dormir, você irá se colocar no meio, pedir o cafuné com esses olhos negros pidões que ninguém resiste, suspirar fundo e encostar sua cabeça no meu sovaco – seu lugar preferido para uma soneca.

Como dói saber que você já não faz mais parte da minha vida… É tudo menos colorido sem sua felicidade inabalável e seu carinho infinito. Saudade agride, desconforta, atrapalha. Mas pior que saudade seria não ter conhecido você; você me deu um novo tipo de amor, um carinho inesquecível e foi meu confidente, meu Ursinho Pimpão, por todo o tempo que passamos juntos. Justo eu, que ridicularizava as mulheres que chamavam seus cachorros de filhos…

Não aprendi a dizer adeus, não sei se vou me acostumar! Olhando assim nos olhos seus, sei que vai ficar nos meus a  marca desse olhar… Você, Michael Jackson (MJ, Mikinho), é  minha saudade tatuada na pele com ferro em brasa. Só quem amou um cachorro, só quem amou você, tão leal, tão amável e feliz, entende o que eu quero te dizer!

Por todos os dias, para sempre, eu vou sentir sua falta.

Adeus Sra. Flandoli!

Lembro de quando era pequena (de idade)  passar o dia em casa, fazendo lição, ao som das músicas que minha mãe escutava: Fafá de Belém, Chitãozinho & Xororó, Roberto Carlos, Leandro e Leonardo e por aí vai! E antes de começar a escrever esse texto, um refrão me veio à mente: “Adeus também foi feito pra se dizer. Bye bye, so long, farewell…”.

Cada qual tem seu modo de lidar com as situações que vive; cada qual sabe onde o calo aperta, já diria minha falecida avó.E eu sou uma pessoa chata, que tem opinião para tudo que se passa na minha vida, sob a análise na lente do microscópio, deitada em um divã imaginário, falando sozinha, me perdendo no meio de lembranças minutos antes de dormir.

Fico pensando se todo mundo é assim: que mesmo quando usam a faceta mais forte e valente, ainda são capazes de alguns longos minutos de insônia…

Já não é mais uma dor que dilacera o peito, que deixa meu mundo parado, que me deixa petrificada ao lado do telefone, vasculhando qualquer informação que seja. Já não estou no estado em que a expressão “She’s broken” possa ser usada (e que atire a primeira pedra o filho da puta que nunca teve lembranças de uma época boa)! Hoje é uma dor pela perda do que eu construí – e já falei sobre em um post anterior.

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Oficialmente abandono o meu nome – meu, pois desejei e lutei mais que tudo para tê-lo – para voltar  a ser quem eu sempre fui. E não me despeço sem um pouco de tristeza, sem um monte de alívio. Nada pior que colocar reticências em histórias que há muito deveriam ter um ponto final. E é justamente esse ponto, o final, que começa uma nova história:  outro ritual de despedida, a dor de abandonar o amor que sentíamos, a dor de esvaziar o coração, de remover a saudade, de ficar livre…  Dói também!

A pessoa que nos deixou já não nos interessa mais, mas interessa o amor que sentíamos por ela, aquele amor que nos justificava como seres humanos, que nos colocava dentro das estatísticas: “eu amo, logo existo”. Porque AMOR não é dado de graça, nem semeado no vento, nem encontrado em qualquer edredom. Amor custa caro, é cultivado dia após dia e quando acaba você se pergunta se vale a pena tentar de novo, diante do medo de se despedir dele uma outra vez – eu mesma me questionei isso anos atrás, achando que era amor o que eu sentia… O que eu encontrei depois foi MUITO melhor!

Despedir-se de um amor é despedir-se de si mesmo. É o arremate de uma história que terminou, externamente, sem nossa concordância, mas que precisa também sair de dentro da gente…

Por isso, adeus Sra. Flandoli, a nossa história, enfim, terminou. Obrigada pelos dias inesquecíveis – para o bem e para o mal, obrigada pelo sobrenome lindo no meu RG, mas adeus. Adeus, Sra. Flandoli… Até nunca mais!