Para o desavisado II

Se você chegou aqui procurando uma história de amor, veio ao lugar errado.

Não quero falar de como você passou uma noite inteira me olhando, do nosso primeiro beijo, do cinema que fomos, do restaurante que você me levou, das conversas, do seu rosto admirado quando me via, da sua gargalhada, do meu sorriso pateticamente bobo quando via um sms seu ou de como me viciei em Armani Code.

Quero relatar o emocionante reencontro que você me proporcionou:

Após 10 anos deixei ressurgir “meu eu” que tanto lutei para enterrar: jeito meigo, modos desarmados e educados, sorriso doce, ares romanceados, comportamento divertido, conversas francas na medida certa. Conforme você sentenciou: BONEQUINHA!

Levei alguns dias para absorver a idéia, mas enfim ergui a bandeira branca à minha identidade conflitada, após passar uma tarde inteira com um dos meus melhores amigos a filosofar sobre nosso existencialismo egocêntrico e permanentemente neurótico. Sim, admiti ser uma bonequinha. E o pior, das mais típicas!

Finalmente acreditei estar pronta para mostrar a todo mundo o que concedo a uma parcela ínfima – e privilegiada – do meu círculo social. Mas eu disse que não era uma história de amor e, portanto, a queda veio… e de muito alto.

Quando tinha 17 anos, fui trocada por uma loira de 13. Nossa, meu mundo caiu e resolvi sucumbir (claro que houve fatores mais decisivos que esse, mas a troca foi um empurrão)! Hoje, aos 25, ser “trocada” por uma loira de 40? MERDA!!!

Atentem ao detalhe: minha mãe tem 40 (e 3). Minha mãe é loira… deixo essa explicação para Freud, numa outra oportunidade.

Um fora nunca é agradável. Auto-estima, ego e orgulho são jogados penhasco abaixo e se você for uma neurótica como eu, ficará maaaaaaal por uns dias. Não sei dizer o que doeu mais e resolvi não me importar. Desisti de entender, nem quero esperar para ver o que vai ser. Talvez seja melhor assim…

Pois diferente disso, meu super subconsciente mega auto-destrutivo acabaria por deixar cada um de nós em um canto.

Você, provavelmente, iria para balada com os amigos e beijaria uma morena de cabelo curto bem gostosa. Eu, certamente, estaria enrolada nos meus edredons, acumulando bitucas de Marlboro Light, ingerindo litros de Coca-cola Light, assistindo “O casamento do meu melhor amigo” pela zilionésima vez e praguejando por não me apaixonar de vez pelo MEU melhor amigo e ter uma vida feliz!

Apesar de tudo, quero deixar meus agradecimentos a VOCÊ: muito obrigada, mesmo. Esse reencontro de mim comigo mesma me fez rever atitudes, pontos de vista, pensamentos, certezas. E se um dia a gente se encontrar por aí, preste MUITA atenção… nem sempre o que se vê, é o que se tem!

(Viu? Eu disse que não era uma história de amor, mas eu preferia que tivesse sido…)

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A importância que tem os amigos

Eu não quero falar sobre o que não é amizade, tampouco fazer declarações de amor aos meus amigos. Quero falar de como é estranha essa ligação e de como são as situações em que a percebemos.
Testimoniais, palavras, cartas e blá-blá são lindos, mesmo. Mas nem sempre condizem com a realidade da amizade, pois elas – algumas vezes – não se transmitem em atos, no cotidiano.

Percebemos nossos amigos por similaridades, afinidades e combinações. Sabemos quem são quando você está bem no fundo do poço e esses anjos esquecem um pouco dos problemas deles, da vida deles, para ajudar aquele outro membro lá jogado. Temos certeza deles quando até você mesmo já desistiu de você e eles não. Eles se metem – de uma maneira boa – na sua vida, te dizem coisas duras até, sempre no intuito de você perceber seu valor, observar uma conduta inapropriada, corrigir seus defeitos para tornar-se lguém melhor.

SIMPLESMENTE PORQUE TE AMAM!
Mas não é só isso: vocês conseguem conversar sobre qualquer assunto, dos mais culturais aos mais bizarros, há piadas pessoais, zoações, brincadeiras… e ninguém sai magoado! As gargalhadas são altas e sinceras, aquelas de tirar o fôlego, a companhia é sempre uma prazer… até mesmo se for para ver Tv, ou fazer nada.

O silêncio não constrange e você pode ser a retardada que realmente é ao lado deles. Eles te dão asas para suas loucuras, mas lembram-se de pôr uma bola de ferro no seu pé.

São esses amigos que vão te socorrer mesmo, que se um namorado não for com sua cara será até um probleminha para eles, que não vão te deixar de lado por causa de boatos, que vão conversar ao invés de brigar e que vão querer te contar sempre as coisas boas e, sem pedir, saberemos quando cada um precisará de colo. Nos (re)conhecemos, existem laços.

Esses são amigos! Os demais, por mais que você adore, são colegas, conhecidos. Amigos são uma espécie de família, pessoas que amamos porque amamos, não porque somos família de sangue. As diferenças são respeitadas e os defeitos, muitas vezes apontados, aceitos!

Eles são poucos e raros, se você tiver apenas um, estará sempre muito bem acompanhada. Mesmo que não se vejam sempre, nem se falem sempre. O importante é saber que APESAR de tudo existe alguém que te ama.

E digo isso, pois mesmo sendo quem sou, e dos meus inúmeros defeitos, tenho um pouco mais de um desses na minha vida. E ontem mesmo estive com três deles. E sentar numa lanchonete até 2:30 da manhã para ser zoada, criticada , comemorar e dar muita risada, nunca tinha sido tão bom…

Ah, o milagre que são os amigos!

“Pode ser que um dia deixemos de nos falar.
Mas, enquanto houver amizade,
faremos as pazes de novo.
Pode ser que um dia o tempo passe.
Mas, se a amizade permanecer,
um do outro há de se lembrar.

 

Pode ser que um dia nos afastemos.
Mas, se formos amigos de verdade,
a amizade nos reaproximará.

Pode ser que um dia não mais existamos.
Mas, se ainda sobrar amizade,
nasceremos de novo, um para o outro.
Pode ser que um dia tudo acabe.

Mas, com a amizade
construiremos tudo novamente,
cada vez de forma diferente,
sendo único e inesquecível cada momento
que juntos viveremos e nos
lembraremos pra sempre.

Há duas formas para viver sua vida.
Uma é acreditar que não existe milagre.
A outra é acreditar, que todas as coisas são um milagre”

Einsten.

 

_texto de 26/06/2008_

 

 

Brincando a gente também aprende

 

Eu vi essa brincadeira em alguns blogs e flogs e achei legal. Mas depois, comecei a responder mentalmente, analisando coisas que realmente marcaram essas datas. Coisas que num primeiro momento, talvez, nem tenha dado importância, porém, ao longo dos anos, mostraram-se lições, prioridades…

A vida muda: as verdades mudam, as certezas mudam, os erros mudam, alguns valores mudam… A GENTE MUDA! Tem também planos, sonhos… e até eles mudam! Às vezes precisamos abrir mão de alguns em nome de prioridades, emergências. Pode ser que num primeiro momento não nos agrade, não sabemos como lidar com a mudança, mas toda situação vira uma lição. 

 

E até uma brincadeira boba pode te fazer pensar sobre isso!

* Há 10 anos – 1998
1. Conheci parte da minha alma
2. Emagreci e fiquei linda
3. Tive meu primeiro namorado
4. Me apaixonei perdidamente (mas não era o mocinho acima)
5. Tive uma enorme decepção

* Há 5 anos – 2003
1. Fiz minha plástica
2. Morei sozinha pela primeira vez
3. Comemorei 3 anos (quebrando todos os recordes) de muito amor, com o amor da minha vida
4. Voltei a falar com uma amiga especial

5. Estava no segundo ano da faculdade e curtindo as primeiras aulas práticas de Jornalismo* Há 2 anos – 2006

1. Fui morar em SP com um amigo do meu ex

2. Tive meu primeiro trabalho pós faculdade (mas era somente RELACIONADO à área)

3. Engravidei
4. Vivi o céu e o inferno por causa da gravidez
5. Nasceu minha “sobrinha” Manuela

* Há 1 ano – 2007
 1. MINHA FILHA
2. Fui morar em Rio Claro
3. Descobri mais do que duas amigas, descobri amigas de alma
4. Voltei a morar em Santos
5. Me desapontei mais do que nunca comigo mesma, pois cometi o MAIOR erro da minha vida
* Em 2008 
1. Comecei um ano do cão
2. Ganhei uma festa-surpresa MARAVILHOSA arquitetada por grandes amigas, com a presença de pessoas MUITO queridas! (melhor presente da minha vida!)
3. Descobri quem realmente sãos as pessoas com quem posso contar e confiar
4. Consegui meus primeiros empregos na área (BeON Comunicação e Editora Símbolo)
5. Aprendi que tenho muito mais força, capacidade, autonomia, amor-próprio e inteligência do que supunha
* Ontem– 16/07/2008
1. Fui trabalhar cansadaaaaa
2. O pai da minha filha me levou aos extremos
3. Descobri o quanto amo minha equipe de trabalho
4. Falei com meu primeiro ex-namorado
5. Tomei um fora… e doeu prá caralho!
* Hoje – 17/07/2008
1. Perdi o fretado
2. Vim para SP de carona com o produtor
3. Passei o trajeto todo cantando “melodia de dor-de-cotovelo”
4. Almocei com a chefe… eu amo essa mulher!
 5. Estou me sentindo lindíssima!
* Amanhã eu vou – 18/07/2008
1. Ver minha mãe e irmãos
2. Parabenizar meus afilhados
3. Deitar e dormir
4. Gravar num petshop
5. Esquecer dos problemas
* 5 coisas com as quais não posso viver sem
1. MINHA FILHA
2. Minha família
3. Meus amigos (os de verdade!)
4. Meu emprego (e o $ que rende dele)
5. Chocolate

* 5 maus hábitos

1. Cigarro
2. Gostar de falar sobre meus sentimentos
3. Passar horas na frente do espelho
4. Postura toda torta
5. Me apegar às recordações

* 5 programas de TV
1. Friends
2. Ugly Betty
3. Grey’s anatomy
4. America’s next Top Model
5. Miami Ink
* 5 coisas que me assutam
1. Indiferença
2. Que minha filha um dia me renegue
3. Perder as pessoas que amo
4. Não ter condições de dar uma vida agradável para minha filha
5. Ficar sem emprego na área (agora que entrei, não quero mais sair)* 5 lugares onde quero ir de férias

 

1. Disney
2. Mochilão na África e parte da Ásia (Egito, Marrocos, África do Sul e Líbano, Israel, Arábia Saudita, Índia e China)

3. Mochilão nas Américas (Cuba, Bahamas, El Salvador, Colômbia, Peru, Chile, Uruguai e Argentina)
4. Mochilão na Europa (Paris, Amsterdã, Ibiza, Roma, Londres, Dublin, Escócia,Praga, Rússia, Suíça, Berlim, Polônia, Grécia)
5. Mochilão no EUA (Las Vegas, Nova York, Miami, Texas, Washigton, Seatle, Los Angeles, Alabama)

 Aproveite e faça sua balança… BRINQUE VOCÊ TAMBÉM!!!!

Um só que faz a diferença

Assim como toda noite, dei uma boa olhada no espelho para iniciar meu ritual de beleza noturna (sim, desde que virei repórter tenho um!). Foi então que percebi um pequeno brilho, mas minha atenção foi desviada por um choro baixinho.
Vi uma garotinha, escondida debaixo da cama, num quarto escuro, assistindo a mais uma briga dos pais. Ela chorava tanto que mal conseguia abrir os olhos, mas chorava em silêncio, tentando salvar seu orgulho.

Quando ela abriu os olhos viu seu pai e padrasto se batendo e então, sem ser avisada, a colocaram num carro e a esconderam: da família, dos amigos, da escola, do mundo.

Quando ela reapareceu tinha 12 anos de idade. Era gorda, feia, desajeitada. Mas era uma ótima menina: tinha muitos amigos, era convidada para todas as festas, era divertida e engraçada. Mas enquanto suas amigas se aventuravam nas terras dos primeiros beijos, ela era rejeitada por qualquer menino.

Então, retirou-se em um ostracismo social, marcado pelo som de suas lágrimas mudas e duras. Viveu no escuro até cansar de chorar.

Voltou à sociedade linda, deslumbrante e orgulhosa. Era sua vez de se divertir e logo aprendeu o poder da sedução. Não houvesse quem lhe escapasse e o poder subiu-lhe à cabeça.

Subiu tanto que ela pouco se importou quantas pessoas magoou, por cima de quem passou. Tão pouco ligou para sua saúde: bulimia e princípio de anorexia lhe renderam sua primeira paixão e, então, quando se curou, seu coração foi estraçalhado!

Nesse caminho ela sofreu abusos, indiferença, hostilidade, humilhações. Umas eram conseqüência dos seus atos, outras lhe eram dadas gratuitamente.

Um filho perdido, amores perdidos, orgulho perdido, família perdida… ela se perdeu! Ela chorou. Ela gritou. Gritou até perder o ar. Quase desfalecida, alguém a segurou pela anelar direito e ela ficou bem. Bem como nunca mais foi, feliz de verdade com o amor da sua vida.

Mas essa pobre menina fora criada às avessas: não lhe foi ensinado que o que ela tinha era pouco para ela, mas sim que ela nunca seria boa o bastante para tudo que tinha, na versão de sua mãe. Então a garotinha aprendeu a arte da auto-sabotagem, da autodestruição.

Tornou-se Ph.D e tudo que lhe parecia bom demais, seu cérebro processou como algo a ser excluído. Portanto, seu subconsciente tornou-se mais forte que ela mesma.

E assim foi construindo os alicerces de sua vida: seu padrasto morreu, sua família dissolveu-se, o poder aquisitivo diminuiu, sua mãe surtou (de vez) e ela tentou não se importar. Criou seu próprio mundinho por meio de personagens, reais e fictícios.

Erros demais, caprichos demais, estragos demais, ego demais, vícios demais, escolhas erradas demais, sedução de mais, vidas para administrar demais, poder demais… Ah, se eu conseguisse assistir esses relances bem detalhadamente teriam se passado muito mais do que 10 anos.

Mas voltando à mim: aquele brilho estreante no meu pequeno ritual era um enorme fio de cabelo branco; um único, mas tão comprido e iluminado que saltava aos olhos.

E, então, meus 25 anos, 5 meses e 4 dias pareceram pesados demais. Fechei meus olhos até tudo ficar escuro e senti, novamente, o sabor amargo de minhas lágrimas mudas, esperando que meu orgulho ressurgisse…

 

 

Antigas verdades viraram mentiras….

Algumas descobertas vêm com a força de uma patada de elefante: te desmontam, te partem ao meio, te deixam dolorida por MUITO tempo, te desorientam. Provavelmente é quando você descobre uma mentira, uma decepção, uma traição: você nem se lembra como foi parar nessa situação, mas com certeza escutou, ou viu, os sinais. O elefante nada tem de silencioso.

Mas não quero falar de coisas que te pegam – mais ou menos – de surpresa. Quero falar da cobra coral verdadeira: ela se mascara como uma cobra não peçonhenta, te ludibria com cores vibrantes, quando você consegue enxergá-la.

Quando não, ela se mistura às folhagens, esconde-se em locais bem seguros e escuros (para ela) e se você tiver sorte, nunca nem a enxergará. No entanto, se você não for esperta o suficiente para se render a sua beleza, passará pela serpente que ela realmente é… e vai fugir – ninguém pode ser tão burra assim!

Se você for realmente uma pessoa nascida na sexta-feira 13, logo depois da sua mãe ter visto um gato preto e os enfermeiros terem passado com a maca dela por debaixo da escada, você está fodida!

A serpente vai se aproximar sorretaramente, sem fazer barulho, vindo do nada e vai te acertar m cheio. A dor da picada vai te desmontar, te partir ao meio, te deixar dolorida por MUITO tempo, te desorientar. Você nem ao menos sabe quando ou porque essa peçonhenta surgiu, não escutou, nem viu nada… ou simplesmente ignorou os locais escuros e seguros (para você).

Provavelmente é quando você descobre que sente saudades de uma ex-amiga que jurava nem querer ver a cara, que brigar com as pessoas que te amam não vale a pena ou quando encontra um ex-amor e percebe que ele não é tão ex assim.Foi assim que desmontei, fui partida ao meio, que fiquei EXTREMAMENTE dolorida, desorientada.

Como se tivesse tomado um soco na boca do estômago: me faltou ar, cambaleei, o tempo parou. Você estava tão lindo, tão simples e no momento que nossos olhos se cruzaram e você sorriu para mim, eu soube.Eu não tinha sido acertada por um elefante ou picada por uma serpente, eu tinha sido atingida por uma verdade que tentei transformar – com relativo sucesso – em mentira:

EU AMO VOCÊ!!!

Nas garras do dragão

Meninas-crianças, meninas-garotas, meninas- mulheres… todas elas, todas nós somos tomadas por fantasias. Sejam heróis, cenas românticas, paixões por vilões ou admiração por criaturas mágicas.
Um ou outro item desta lista, talvez todas, bem poucas – raríssimas exceções – nenhuma. Não sei se delírio, fantasia, imbecilidade, vontade de escapar, ingenuidade… sempre me fascinei!

Em recente viagem deparei-me com um mito, com uma criatura mágica fascinante, uma lenda real: um dragão. Não um dragão qualquer, mas um poderoso, sem dúvida alguma. Tomada de um fascínio bestial, despi-me de medos e pudores para encará-lo bem de perto.

Barba espessa, narinas fumegantes, olhos penetrantes, corpo forte e longilíneo, estatura firme, porte majestoso, garras afiadas, boca entreaberta dando passagem a sua língua sibilante.

Parecia estar pronto para me aniquilar. Num movimento ágil enlaçou-me com suas patas dianteiras, reteu-me em seu peito e pude escutar as batidas do seu coração (sim, eles têm um!). Foi assim que me entreguei sem hesitar, estava pronta para o que viesse…

Em retribuição, o Dragão exerceu a recíproca da admiração, do deslumbramento. Fitou-me por longos minutos, olhou dentro dos meus olhos, viu minha alma e me apertou contra suas escamas. Com a ponta de uma de suas garras talhou meu ombro direito e o lambeu logo em seguida, provocando uma cicatriz.

Não fui atacada, devorada ou carbonizada. Como bons amigos passávamos horas juntos, caminhávamos, nos divertíamos. Embora de naturezas diferentes, nos entendíamos sem trocar palavras, somente por olhares, por gestos, sensações.

Tudo nele era grandioso demais: sua força, sua energia, seu porte, seu temperamento, seu comportamento, seus atos carinhosos – o que contrariava qualquer coisa que eu já tivesse escutado sobre dragões. O deslumbramento e admiração por esse mito aumentavam na mesma medida da nossa comunhão.

Diante de tantos sentimentos confusos, cheguei a acreditar que geraria uma espécie de Minodrago, mas por essas ironias da vida, depois de alguns meses, Ele se mostrou – ou eu finalmente enxerguei – o que sempre foi: um animal selvagem. Melhor escrevendo, uma lenda selvagem.

As garras afiadas, os olhos vermelhos, as narinas fumegantes, o corpo grande e pesado demais. Jamais conseguiria trazê-lo para o meu mundo e o Dragão, definitivamente, não estava pronto para abrir mão do seu. Era bicho solto, livre para voar, viver por aí exercendo o fascínio que lhe corria nas veias. Mantê-lo meu, estragaria esse brilho, destruir-se-ia um mito.

Fugi! Enquanto o Dragão dormia, escorreguei de suas garras, alisei sua barba, olhei a marca que Ele deixou em mim e dei o último beijo na ponta de seu nariz quentinho. Diante daquele lagarto adormecido, estirado preguiçosamente nas folhagens, me senti criança outra vez.

Corri até minhas pernas arderem, até meu coração quase explodir. E quando me certifiquei estar bem longe, berrei. Berrei mais do que gata selvagem no cio e chorei duas lágrimas de adeus. Nessa altura era inimaginável viver sem a paz encontrada no contato daquelas escamas, naquele cheiro tão peculiar.

O tempo passou, nunca mais vi ou ouvi “meu” Dragão, ou qualquer outro. Passei muitos dias recordando essa relação tão platônica, tão bizarra. Pelo menos aprendi a não fantasiar mais…

Desejei ter somente fantasiado o mito da minha infância ao invés de vivenciá-lo. Não por estar apaixonada, nem por arrependimento. Talvez porque os mitos devam ser apenas mitos. Ou talvez – TALVEZ – por ter descoberto sermos da mesma natureza e que, portanto, nunca nos pertenceremos.

Bonitinha, mas ordinária

 
Olho para o celular e fico desesperada, estou atrasada e o elevador parece não chegar nunca! Ele surge com um pequeno “plim” e para minha sorte nem está tão cheio. Mas tem gente bonita. Gente de todas as idades. Gente bem vestida. Parece que vamos todos ao mesmo evento. Mesmo tendo espaço, prefiro ir pro fundo para não amassar o vestido.
Penso nas pessoas que tenho que entrevistar, como falar e sinto o primeiro fio de suor escorrer pela minha panturrilha. O nervosismo sempre me consome antes das gravações. O elevador pára com um tranco e antes de tudo escurecer, percebo que tem somente umas dez pessoas ali dentro. Me espremo no canto, tenho uma claustrofobia leve, tenho medo que o elevador despenque, tenho medo que meu chefe, meu produtor, meu câmera e o promoter achem que tive uma diarréia de nervosismo e fugi!

Minha cabeça gira, meu vestido fica ainda mais colado e sem perceber, uma mão escorrega pelas minhas costas, aperta minha virilha e antes que pudesse berrar com o susto, ele sussurra: “sou eu!”. Eu, é o tal promoter, é um coordenador de eventos fantástico! Todo mundo o conhece em São Paulo, não existe um evento que, se ela não organiza, não compareça. Até inauguração de mercearia, se bobear.

Mas deixem que o apresente como ele é pra mim. Deus – como o chamo – é meu amante platônico virtual favorito (pois só nos vemos em compromissos sociais e precisamos manter a ética trabalhista). Por intermédio de e-mails, conversas instantâneas e alguns telefonemas falamos tudo que temos vontade, sem medo ou pudor. Não necessariamente sobre nós dois, mas nossas experiências, nossas vidas.

Somos, antes de tudo, amigos, e no ambiente de trabalho, colegas. Pois onde quer que estejamos, a tensão paira no ar. Se estivéssemos sozinhos no mundo, transaríamos até a exaustão, nos beijaríamos com sofreguidão, nos comeríamos no sentido antropofágico. A curiosidade, a vontade de satisfazer esse desejo reprimido, nos consome quando nossos olhos se encontram.

Conhecemos-nos há uns três anos, assim que entrei no site. Sou repórter, cubro eventos, entrevisto pessoas comuns, pessoas famosas, pessoas pseudo-famosas. Mas abordo outras questões, outros ângulos, algo mais caliente. Minha chefa costuma dizer que o contraste da minha personalidade sedutora, com meu rosto incrivelmente juvenil, deixa as pessoas diante de uma situação confortável.

Nas horas vagas tento sanar minha frustração genética de ter herdado centímetros de menos e alguns quilinhos a mais, desnecessários para uma topmodel, então poso para amigos, ou para mim mesmo, encarnado personagens sensuais, bem ao estilo Nelson Rodrigues, Lolita e pin-ups, mas isso é uma outra história…

Por a + b, Deus acredita que eu seja uma mestra do sexo, phd na multifuncionalidade das mãos e língua. A imaginação nos permite qualquer coisa…

Voltemos ao elevador: prendo a respiração e assim ele tem o controle total de mim. Ele passa a mão pela lateral do vestido, tenta outro ângulo, explora e percebe que estou sem calcinha (hey, meu vestido é de cetim – na cor cenoura, lindíssimo! – o que vocês esperavam?).

Ele se afasta e lentamente tateia minhas pernas pelo lado de dentro, mais vários fios de suor agora, respiro um pouco, prendo –a de novo, ninguém pode escutar. Ele me encontra! Foi como se todos esses anos estivéssemos esperando esse primeiro encontro, mais provocativo.

Seus dedos prestidigitadores começam a funcionar e uma onda de me toma, me engole e, como se fosse possível, o elevador fica ainda mais escuro. Ele sussurra que meus traços juvenis são potencializadores de tesão, pois neles residem os disfarces necessários para encobrir a lascívia das vagabundas. Contorço-me imovelmente, grito um grito mudo de prazer, estou quase explodindo, quando uma voz lá fora avisa que em segundos o elevador voltará a funcionar.

Agradeço, afinal tinha que trabalhar. As luzes se acendem, arrumo meus vestido, corrijo a postura e tento sair com cara de desespero pelo atraso.

Fiz todas minhas entrevistas, entre algumas delas, bebi, dancei e sorri. Mas quando terminei, percebi que Deus não tirava os olhos de mim. Bebemos mais, dançamos mais, rimos demais; toda dança do acasalamento entre animais no ápice do cio.

Já estava cansada de tanta gente, queria ir embora, queria transar. Não agüentei mais, despedi-me do meu chefe, liguei para Deus e avisei: “no seu carro em 5 minutos”. Levamos menos que isso!

Queria ali na garagem, no carro, em qualquer canto, mas Deus insistiu que eu estava mais linda do que nunca e que  precisava de mim na cama. Agüentamos firme todo o caminho para a casa dele. Dez semáforos, um túnel, duas avenidas. Um viaduto, três portas, dois molhos de chave, outra porta, uma escada e , voilá, enfim sós.

Ele fez meu vestido desaparecer em segundos, estava completamente nua a mercê daqueles olhos famigerados. Liguei o som, comecei a dançar e desprovida de qualquer peça, inicie um strip com as roupas dele. Levou muitos minutos, cada tentativa de enlace era um gemido alto de prazer, meu tesão aumentava mediante suas súplicas pelo meu corpo.

Nenhum dos dois agüentou mais, com um beijo faminto tentamos desafiar a Física para provarmos que dois corpos são capazes de ocupar o mesmo espaço. E assim, sucessivamente, ao longo da noite, até a exaustão…

Acendi um cigarro, enquanto observava o movimento na Paulista pela janela.

-“Por que estava mais linda do que nunca essa noite?”.

-“Porque hoje você foi a minha mulher, e será por mais noites, por algumas mais “.

A chuva tinha começado…

-” Algum problema com isso?”. Balanço a cabeça negativamente, ele se confunde.

– “Muitas mulheres se importariam!”, rebate.

– “Não sou muitas mulheres, HOJE fui sua mulher e serei SUA mais algumas noites… “

Ele abre um sorriso admirado.

 “Ah, o mito, a lenda, a farsa são surreais! Mas a realidade, a realidade… é muito melhor”