Mais um café, por favor!

Era uma noite qualquer na Pauliceia. Era uma noite em que meu único plano era andar por aí, tropeçando em meu caminho, desfazendo meus rastros, meio andarilho tentando trilhar novos passos. Era uma noite em que só queria rir ao lado de uma amiga. Beber um café e comer um pedaço de bolo de cenoura. E foi o que eu fiz. Não era sábado à noite e eu não estava esperando coisa alguma. Era uma quarta-feira chuvosa, uma noite fria de setembro – mas, pela primeira vez, minha temperatura e a do dia eram as mesmas. Dura, fria, gélida, chuvosa. Era confortável assim, se misturar à paisagem.

Eu não me dei ao trabalho de me importar quando você irrompeu a bolha, trazendo consigo uma lufada de ar quente, e se botou debaixo do meu guarda-chuva. Nem mesmo  me incomodei com o arrepio que você provocou – choque térmico, claro – ou, sequer, seu sorriso ofuscante, digno de comercial de pasta de dente, me chamou a atenção. Você era mais um entre tantos. Mais uma voz, mais um conhecido depois de passar duas horas tagarelando com a gente, mais um a ser gentil e me oferecer carona – que eu protestei veemente enquanto o táxi não passava e eu me encolhia embaixo do ponto de ônibus, para me proteger da chuva.

E você ria da minha mania de ser sempre brava e não aceitar gentilezas com facilidade – eu não sabia que era assim tão fácil me entender, mas você entendeu. E mesmo quando você já estava dentro do carro, brincando sobre a minha expressão carrancuda, eu me neguei a ir. Você voltou, deu quatro passos embaixo daquelas grossas gotas geladas – o suficiente para deixar seu cabelo todo molhado – me segurou pela mão, abriu seu melhor sorriso e disse “vem”.

Mas nada disso teve importância; você era mais um entre tantos: mais uma voz, mais um conhecido, mas uma pessoa gentil. Mais um novo cheiro, mais uma nova mão, mais um cavalheiro. Viu, nem era assim nada demais!

 

chuva

Então percebi que você tinha a mania de falar, de falar muito e gesticular mais um tanto, até mais do que eu. Eu quis inúmeras vezes sair do carro e caminhar a pé, mesmo as ruas estando desertas, mesmo a chuva tendo engrossado. Mas você também tinha essa mania de prender a atenção, de ser interessante. E , assim sendo, quando você me chamou para um café, pensei que não havia problema algum em conversar um pouco mais com alguém inteligente e engraçado. Afinal, era preciso rir muito de vez em quando.

Eu não sabia que café poderia ser tão doce, quando bebido nos lábios de alguém. Nem que meu rosto poderia ter várias expressões conforme as luzes da Rua Sílvia. Eu não imaginava que eu cabia no seu abraço ou que a sua fisionomia se transformaria diante de sorrisos, suspiros e surpresas. A gente duvidou da força dos olhos nos olhos até nos olharmos. Segundos que pareceram muito mais tempo do que deveriam e uma fome que não foi notada até então- mesmo depois dos aperitivos que desfrutamos no balcão de um bar qualquer – fez-se presente, revirando as entranhas.

E nos reviramos de diversas maneiras. Em diversas pessoas. Por horas. Ora entregues ao calor dos edredons. Ora entregues à brisa da varanda.

Sentávamos e ríamos enquanto as cinzas do cigarro se consumiam e a noite escura tinha risos coloridos. E eu estava ali porque queria, porque você trazia consigo uma lufada de ar quente em uma noite fria.

Eu sabia sem querer saber que depois você seria mais um entre tantos, mais uma voz, mais um novo cheiro, mais um outro conhecido.

Eu não tinha calculado os riscos, tomei todos eles misturados com adoçante – era doce, mas não era açúcar.

Foi doce, mas não seria mais do que aquela noite. De luzes, de tantas fisionomias, de tantos gemidos.

Era um entre tantos. Mas era o um que tinha trazido ar quente, que se enfiou debaixo do meu guarda-chuva, que segurou minha mão.

 

E eu fui.

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