Poderia ter sido, mas não foi

Veja bem, meu bem, não me entenda mal, foi tudo real. Do primeiro oi desajeitado, incluindo aqueles “ois” sussurrados após o sexo, até o último beijo. Do primeiro beijo doce até o último sorriso sincero, abafado no teu travesseiro. Da primeiro olhar penetrante até a última saudade, outro ‘poderia ser amor’ se acabou…

Depois do filme, em um noite extremamente quente de inverno, eu me agarrei a sua barba, como já era de costume… Mas você não reagiu como das outras vezes. Eu me agarrei para ter a certeza que você estava ali. Você não estava. Seus doces olhos negros me olharam duas ou três vezes, não mais que isso. Suas mãos não percorreram meu corpo – de repente 160 centímetros pareciam uma distância colossal. Seus dedos não se entrelaçaram nos meus e nem sua respiração quente ardeu em minha nuca. A química era boa, sem dúvida, mas já não causava reação.

Você não estava ali. Olhei para o teto buscando resposta, mesmo sabendo que não acharia nada além de duas sombras imóveis. Mas eu continuava fitando a pintura branca que tantas vezes abrigaram a sombra do meu corpo em cima do seu. Seria mais fácil perguntar para você, com a voz baixinha para não acordar ninguém de madrugada no apartamento vazio, mas eu não quis perturbar seu sono bom.

Veja bem, meu bem, eu me encanto pela maneira que as pessoas se encantam comigo e você, claramente, não via mais encanto algum em mim. A primeira coisa que você deveria saber sobre mim – e nunca soube – é que meu sorriso diz tanta coisa… E muitas vezes ele esconde meu desconforto – como havia acabado de fazer, pouco antes de você virar para o lado e dormir.

 

 

Quando amanheceu, eu ainda não havia dormido. Enquanto você estava ao meu lado, eu queria olhar para você e sorrir de verdade, sem você querer saber o motivo. Eu dei o maior sorriso desses dois últimos anos. Você não entenderia e eu não quero explicar. Não para você. Porque o motivo de eu sorrir tanto nas últimas semanas está mais relacionado ao fato que eu posso sentir outra vez – com o corpo, com a alma e até mesmo, pasme, com o coração – do que isso que tivemos, que nem sei do que poderia chamar.

Quando você acordou,você me beijou, eu te olhei e me vesti, já sem nenhum sinal de amor. Você me envolveu e colocou meu cabelo para trás da orelha como sempre fez. Eu te beijei com urgência, com carinho, sem pressa – para guardar seu gosto na minha boca. Eu percorri todo seu pescoço e rosto com meus lábios, roçando meu nariz, para guardar o cheiro do perfume que você não usa na minha memória que nunca esquece coisa alguma, a não ser de dizer as coisas que nunca te disse. 

Você preparou meu café, exatamente da maneira que eu gosto, e bebi sem me prolongar, por mais que eu quisesse evitar o que estava por vir. Eu não me despedi com um beijo longo, nem uma mordida no queixo – minha marca registrada – ou sequer um carinho na barba com mechas ruivas, na qual já passei horas brincando. Eu te abracei pela primeira vez em 37 dias,  me aninhei no seu peito, encaixei minha cabeça embaixo do seu queixo, beijei seu tórax, murmurei qualquer coisa e evitei seu olhar um tanto surpreso.

Veja bem, meu bem: claro que eu gosto de você – como não? – mas eu gosto mais de mim. Muito mais, hoje eu sei. Eu não me satisfaço mais
com o que é pela metade, me alimento de inteiros. E para isso eu me desfaço da necessidade de tentar entender o que é para ficar subentendido; não tento adivinhar o que não quer ser dito.

Em uma manhã muito quente de setembro outro amor se acabou. Afinal, teve amor para acabar? Poderia ter sido, mas não foi.