Outro dia

“Anota aí Evê: vou parar de sofrer com essa história! Minha vida vai mudar. E vai ser num dia 15.
– Mas por que dia 15, filha?
– A gente ficou dia 11, ele me pediu em namoro dia 12, fazemos aniversário dia 13 e terminamos dia 14. Pode anotar: dia 15 tudo vai mudar. Mas vai ser em outubro, no nosso mês”.

O Quinze de Outubro veio. Em 1,83m de altura. Com o nariz mais lindo que eu já vira. De saia vermelha curta. De camiseta coladinha, escrito ‘vende-se’. Mas não era mais nosso, meu e do mocinho de outubro de 2000. Pertenceria a outro ‘nós’.
Ele sorriu, aquele sorriso de lado, sem mostrar dente algum, empinou aquele nariz arrebitado e perguntou: ‘quer comprar?’ Nem pensei duas vezes, respondi na hora: ‘eu vou levar por merecimento!’. E levei.

Outubro tinha agora outro rosto. Tinha sabor de leite condensado e chope gelado. Tinha tardes de filmes, gargalhadas e poucas roupas após as aulas de inglês. Teve até trilha sonora sertaneja. Teve viagens para São Paulo. Noites de festa com os amigos.

Esse Outubro não era verão. Era primavera, minha estação favorita. Era cheio de borboletas dando loopings malucos dentro do meu estômago. Fecho os olhos e lembro das longas conversas ao telefone, das fotos, das brigas, de você se lambuzando de chocolate e me sujando toda e de como gostava de sentir sua pele encostar na minha, após o dia na praia. Mas lembro, sobretudo, de como nos divertíamos. Nunca me diverti tanto ao lado de alguém. Passei noites desejando que aqueles dias de céu claro, sol brilhante e temperatura amena durassem para sempre…

Algum tempo depois eu veria meu desejo tomar forma. E para não deixar dúvida, era uma forma idêntica. Eu pude segurar nosso sentimento em meus braços, agarrá-lo com as mãos, dar nome. E embora o sentimento há muito não exista, ele não para de crescer e de me transbordar.

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Naquele Quinze de Outubro, em 2004, eu tinha certeza que minha vida iria mudar, mas eu não imaginaria que toda uma nova vida – uma que fazia sentido – estaria ali, em uma festa onde nada é o que parece. Mas HOJE eu sei que sempre seremos primavera. E enfrentaremos verão, outono e inverno juntos, mesmo que separados. Que nossa história não precisaria nem ter sido marcada na minha pele, pois ela vai continuar até mesmo quando já não estivermos mais por aqui. Em passos grandes e nem tão graciosos, mas perfeitos sob nosso ponto de vista, pois fomos nós que fizemos.

Nossa vida seguirá nos passos da nossa filha. E para sempre seremos uma família que começou naquele Quinze de Outubro.

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O amor é brega

E a verdade é que ele só não é brega quando é nosso!

Eu cresci escutando Zezé Di Camargo e Luciano, Fafá de Belém e Roberto Carlos. E a verdade é que perdi as contas de quantas vezes vi minha mãe, meu pai e meu padrasto cantarolando as letras do Rei. Fosse pelo lançamento de um  CD, fosse pelo show exibido todo final de ano na Globo, fosse em declarações.

Algumas dessas músicas marcaram a história da minha família e, claro, ficaram na minha cabeça. Vez ou outra até as canto para fazer minha filha dormir. E sim, sou brega, amei demais e usei umas duas canções do amigo de fé, camarada, citado para exprimir todo meu sentimento de um jeito que ele faz como poucos! E tem quase cinco meses que fugi de todas as canções dele…

Então hoje lendo o blog do André Kassu me deparei com parte de uma letra que não me recordava.  Kassu falava de sua mãe, que faleceu há pouco, então o trecho era lindo… Curiosa que eu sou, cacei nesse mundão grande do Google.

BURRA! Melhor seria ter continuado na busca desenfreada, e inútil,  pelo $ que acredito ter perdido. Calma, a música é boa, boa demais! E é por isso que eu não deveria ter escutado…

 

 

“Das lembranças que eu trago na vida, VOCÊ  é a saudade que e eu gosto de ter… Só assim sinto VOCÊ bem perto de mim outra vez..”

Capítulo 12

Noelle não via Noah há duas semanas.”Talvez tenha sido um erro”, pensou. Precisara de um pouco de segurança e nem lembrava de como fôra parar do jardim da Avenida 13 para o quarto 1112 da Rua 14. Amaram-se desesperadamente. Não eram dois corpos que haviam se distanciado, eram os mesmos. O amor sublime, a paixão intensa, a cumplicidade, a intimidade e o êxtase infindável.

Depois daquela tarde, nem mais um telefonema. Se ele tentou, ela não sabia. Bloqueou o MSN, Orkut e restringiu suas chamadas telefônicas. Ela precisava de tempo para criar coragem e contar à Mark o quanto a vida deles havia mudado. Ela decidira ter o bebê, com ou sem o apoio de Mark, mas conhecendo aquele homem como conhecia, sabia que era bem provável que ele não reagisse tão bem, mas estaria do lado dela. Da pequena família que começava a se formar. Afinal, Mark era um homem maravilhoso, de caráter inigualável.

Foi apenas quando pronunciou as palavras “pequena família” que realmente percebeu o quanto sua própria vida mudara. Resolveu falar com Noah. “Não, não posso! Vou escrever uma carta”. Sentou-se na mesa da sala de desenhos de Mark e pensou em tudo que deveria escrever.

“Querido Noah.
Na verdade não sei nem por onde começar a explicar, talvez você já não queira saber meus motivos, minhas verdades; não depois de tanto tempo. Mas eu preciso falar, mesmo que você nunca ouça a voz dessas palavras mudas. Sei que se não fossem meus erros, minhas mentiras, estaríamos juntos até hoje. NÓS sabemos disso. Então não prolongarei essa introdução. A única pergunta que você me fez foi o por quê disso. Inventei várias desculpas, fiquei quieta, me fiz de desentendida. Em ilusória consciência achei que seria mais fácil que você acreditasse nas minhas mentiras, nessa tentativa débil de te fazer sofrer menos. Mas a minha vida mudou, nós nunca mais poderemos ser aquilo que sempre sonhamos.
Eu fiz o que fiz não porque não te amasse ou porque queria te humilhar. Eu fiz porque acima de qualquer coisa eu amava ser desejada, amava saber que poderia ter qualquer homem que quisesse, amava desafiar meus limites de sedução, amava correr riscos.
Fiz tudo que amava e perdi você! Sim a explicação é simples e patética: fui uma vagabunda! Passei anos sendo esse tipo de pessoa: que seduz e descarta, que não respeita ninguém (nem mesmo a si própria), que se ama acima de tudo, que não obedece regras e quebra limites. E eu seria sempre assim se a gente não tivesse terminado. Finalmente aprendi, por sua causa, o que precisava. Custou muito mais do que gostaríamos, do que eu ainda quero, mas aprendi. Talvez você me xingue ferozmente, não peço que me entenda. Não peço mais nada a você.
Mas a verdade é que eu quis ser sempre mais do que a Noelle D., quis ser a mais desejada, a mais amada, a mais disputada. Mas após tantos anos percebi que eu realmente só fui alguém quando estava com você.

Deus, em sua obra divina, percebeu o quanto eu havia me arrependido, mudado, e me mandou o Mark. Eu o amo, amo muito. Mas ninguém nunca será o que você foi, e ainda é, para mim. Talvez tenha sido melhor pra você não ter ficado comigo, embora você ainda disfarce sua dor, seu brilho nos olhos quando me vê. Eu aprendi a disfarçar também. Optei por ter meu bebê e é por essa razão que nossa história finalmente acabou. Mesmo que eu não fique com o Mark, não pediria para que você criasse um filho que não seja o nosso.
Não tenho como objetivo findar nossa amizade… essa sim, espero que sempre viva. Mesmo depois de tudo você continua sendo meu amigo, meu confidente. Estava mais do que na hora de você obter algumas respostas. Cinco anos é muito tempo para qualquer coisa. Saiba, meu amor, que eu sempre te amarei e me arrependerei até meu último dia do que fiz com você.
Sua – eternamente sua – Noelle”.

Noelle leu e releu a carta diversas vezes. Pegou o carro e foi até a casa de Noah, escutando “Perhaps Love”. Havia decidido entregá-la em mãos. Parou na garagem e tocou a campanhia. Noah abriu a porta, não conseguiu dizer nada.

-Vim te entregar isso.
– Mas o que é Nô?
– Sua resposta.
Olharam-se num silêncio ensurdecedor. Noah leu a carta calmamente. Mas suas lágrimas o traíram.
– Obrigado. Agora eu sei que posso voltar a confiar em você.
– Mas, como assim?
– Você me disse o que sempre quis ouvir: verdades! Se algum dia você achou que eu tinha deixado de te amar, de ter desejado estar ao seu lado cada segundo, você esqueceu quem eu sou!

Noelle não esperava por aquilo. Entrou no carro, pisou fundo no acelerador, chorava e sua vista logo ficou embaçada. Nem teve tempo de ver o caminhão que estava passando no cruzamento da Rua 14 com a Avenida 15. Acordou no hospital.

– Senhorita D.? (Era a voz de uma enfermeira de meia-idade, presumiu um pouco sedada). Lamento informar, mas a senhorita perdeu seu bebê.

Noelle não chorou, nem gritou. Não abriu a boca. Seu rosto tomava um contorno indecifrável. Primeiro olhou pro Noah choroso ao seu lado, depois para o nada…