Um só que faz a diferença

Assim como toda noite, dei uma boa olhada no espelho para iniciar meu ritual de beleza noturna (sim, desde que virei repórter tenho um!). Foi então que percebi um pequeno brilho, mas minha atenção foi desviada por um choro baixinho.
Vi uma garotinha, escondida debaixo da cama, num quarto escuro, assistindo a mais uma briga dos pais. Ela chorava tanto que mal conseguia abrir os olhos, mas chorava em silêncio, tentando salvar seu orgulho.

Quando ela abriu os olhos viu seu pai e padrasto se batendo e então, sem ser avisada, a colocaram num carro e a esconderam: da família, dos amigos, da escola, do mundo.

Quando ela reapareceu tinha 12 anos de idade. Era gorda, feia, desajeitada. Mas era uma ótima menina: tinha muitos amigos, era convidada para todas as festas, era divertida e engraçada. Mas enquanto suas amigas se aventuravam nas terras dos primeiros beijos, ela era rejeitada por qualquer menino.

Então, retirou-se em um ostracismo social, marcado pelo som de suas lágrimas mudas e duras. Viveu no escuro até cansar de chorar.

Voltou à sociedade linda, deslumbrante e orgulhosa. Era sua vez de se divertir e logo aprendeu o poder da sedução. Não houvesse quem lhe escapasse e o poder subiu-lhe à cabeça.

Subiu tanto que ela pouco se importou quantas pessoas magoou, por cima de quem passou. Tão pouco ligou para sua saúde: bulimia e princípio de anorexia lhe renderam sua primeira paixão e, então, quando se curou, seu coração foi estraçalhado!

Nesse caminho ela sofreu abusos, indiferença, hostilidade, humilhações. Umas eram conseqüência dos seus atos, outras lhe eram dadas gratuitamente.

Um filho perdido, amores perdidos, orgulho perdido, família perdida… ela se perdeu! Ela chorou. Ela gritou. Gritou até perder o ar. Quase desfalecida, alguém a segurou pela anelar direito e ela ficou bem. Bem como nunca mais foi, feliz de verdade com o amor da sua vida.

Mas essa pobre menina fora criada às avessas: não lhe foi ensinado que o que ela tinha era pouco para ela, mas sim que ela nunca seria boa o bastante para tudo que tinha, na versão de sua mãe. Então a garotinha aprendeu a arte da auto-sabotagem, da autodestruição.

Tornou-se Ph.D e tudo que lhe parecia bom demais, seu cérebro processou como algo a ser excluído. Portanto, seu subconsciente tornou-se mais forte que ela mesma.

E assim foi construindo os alicerces de sua vida: seu padrasto morreu, sua família dissolveu-se, o poder aquisitivo diminuiu, sua mãe surtou (de vez) e ela tentou não se importar. Criou seu próprio mundinho por meio de personagens, reais e fictícios.

Erros demais, caprichos demais, estragos demais, ego demais, vícios demais, escolhas erradas demais, sedução de mais, vidas para administrar demais, poder demais… Ah, se eu conseguisse assistir esses relances bem detalhadamente teriam se passado muito mais do que 10 anos.

Mas voltando à mim: aquele brilho estreante no meu pequeno ritual era um enorme fio de cabelo branco; um único, mas tão comprido e iluminado que saltava aos olhos.

E, então, meus 25 anos, 5 meses e 4 dias pareceram pesados demais. Fechei meus olhos até tudo ficar escuro e senti, novamente, o sabor amargo de minhas lágrimas mudas, esperando que meu orgulho ressurgisse…

 

 

Capítulo 13

Já era hora de voltar. Foi com que esse pensamento que Noelle levantou da cama king- size, em lençóis egípcios, do alto da suíte presidencial do Plaza. Cansara de ver o mundo de cima, precisava voltar a vivê-lo!

“Passaram-se 13 meses, cansei de fugir. Eu disse 13 meses?”. Não era uma surpresa, de fato; 13 era seu número – a perseguia desde seu nascimento: o número de tatuagens espalhadas pelo seu corpo emoldurado, o número de calças jeans no armário, a quantidade de vezes que tinha viajado pela Europa (afinal ser órfã e única herdeira de ex-rotaryanos tinha que ter uma vantagem) e o número deles… “como será que ele está?”, tão logo surgiu tal pensamento, abriu os olhos com força, como se quisesse acordar de um pesadelo.

Arrumou-se, fez o check-out e horas depois chegava em casa. Tudo lhe parecia estranhamente diferente e igual ao mesmo tempo. Resolveu pegar o carro e dar uma volta, afinal era outono e a paisagem estava cinematográfica.

Passeou pelo Centro, próximo ao lago, aos bares, passeou por quase tudo. Mas sabia aonde exatamente queria/precisava ir.

Mark havia sido incisivo: se ela fosse embora o perderia. Ela não titubeou, foi-se. Era necessário tentar ajeitar a si mesma antes de qualquer coisa. Nem um adeus, nenhum abraço, tornaram-se estranhos no instante que ele a pressionou. E ela se foi…

Passou na Rua 9, nada. A casa estava fechada, em total estado de abandono. “Não foi somente o Mark que abandonei, foi toda nossa história”, admitiu. Uma pequena, tímida, lágrima morreu-lhe na bochecha. Mas era preciso seguir em frente.

Aproveitou para admirar cada canto DAQUELE trecho caminhado embaixo de chuva, pedalado contra o vento, vivificado na história DELES. Quando se aproximava da numeração 1413, Noelle dirigiu cada vez mais devagar, preparava-se para encarar talvez o olhar mais severo de sua vida, ou qualquer outra reação semelhante.

Entretanto não era para aquela cena que ela estava preparada. Com uma freada brusca, carro, olhos e coração haviam parado. Estavam pétreos e uma enxurrada de lágrimas molhavam sua face…