E se der errado?

Eu acredito que alguém que já teve uma decepção amorosa verdadeira passa um período com medo (preguiça, desconfiança) de se envolver novamente. A primeira questão que surge é “e se der errado?”. É o temor de sentir novamente o coração sendo sugado pelas costas, das entranhas se revirando em loopings infinitos, das lágrimas arderem na face, de passar dias e noites com saudade, de escutar uma música e ser levada ao passado…

E no ápice do realismo cínico que assola qualquer coração partido, a gente sabe que vai dar errado. Um dia. E nosso ego não está pronto para lidar com outra rejeição. Nossa parte boa se eriça ao pensar que você será o responsável por outro alguém ficar do jeito que você já ficou.

Por segurança, e racionalidade, você decide que o correto é não começar nada. E não começa. E os dias ficam menos coloridos, os filmes de romance são trocados pelos de ação com muito sangue (te amo, Tarantino!), o medo vai colando nas artérias até virar amargor, até você se olhar no espelho e reconhecer que adoraria ter borboletas no estômago ao invés de um coração de ferro – ou pior, um espaço oco.

O tal “mal amada” passa pela sua cabeça – “mal comida” também, sejamos sinceras – e você lembra daquela sua professora de Geografia do colegial e como você prometeu à si mesma que não seria assim de jeito algum. Então você começa a sair do casulo. Bem aos poucos. Começa a reparar nas coisas que te fazem feliz de verdade, por menores que sejam. Começa a olhar para si no mundo e no mundo que há dentro de si. E passa a sorrir. E a atrair sorrisos. E se você persistir, descobrirá o melhor tipo de amor que existe. O próprio.

 

IMG_4248

 

Até que um dia, sem que você espere – pois as coisas boas acontecem assim, de repente – entre tantos “ois” e sorrisos, um “oi” e um sorriso te chama a atenção. E vira conversa. E a conversa vira flerte. E quando você percebe você fica sem jeito com o jeito que ele te deixa.

Você pensa na barba por fazer, nos olhos negros espremidos quando ele sorri, no jeito que ele segura o cigarro e na mania que ele tem de se exibir para você. Porque você esteve fora do jogo por um tempo, mas sabe todas as regras de trás para frente. Até que o inevitável, que vai contra toda e qualquer razão, acontece.

Li dia desses que pessoas que causam arrepios enquanto a gente sorri merecem moradia no peito. Mas arrepio maior causa a sensação que você sente. “E se der errado?”, você se pergunta. Porque você quer listar os defeitos, as diferenças, o fato de ele não ser tão alto. Você quer listar tudo que vai dar errado e compartilha com a melhor amiga, esperando que ela aponte todos os motivos – porque as amigas sempre têm mais motivos que a gente – porque isso vai dar errado. E ela lista. E você escuta. E você sorri. E o sorriso vira gargalhada por conta do absurdo que acabou de ouvir.

Você gargalha porque percebeu que é capaz de se apaixonar! E percebe também que a vida é muito mais do que se esconder atrás de um coração machucado.  Há muitas pessoas no mundo com muito medo de ter uma chance no amor. Não importa quem você ama ou se essa pessoa ama você de volta.  O fato de que você pode amar é que é importante.

E se der errado? Se der errado, deu. Tudo vai dar errado. Um dia.
Você opta por sorrir sem motivo, por dançar que nem idiota no meio da rua enquanto escuta a música que te lembra ele. E não se importa quando crianças apontam e as pessoas riem da sua cara. O dia está colorido! Você escolhe querer dar oi até para o extintor de incêndio, ficar com a pele bonita, com a autoestima “o céu é o limite”, com o bom humor irradiando.

E se der errado? Pense no que está dando certo – e por dar certo entenda com o que está fazendo bem a VOCÊ! “E se der errado?”, você insiste, em uma última tentativa. Se der errado, deu. Tudo vai dar errado. Um dia. É para isso que existe o recomeço. Cheio de primeiros beijos, primeiras vezes, de cor, de sabor, de música.

Simples assim!

 

 

Anúncios

The show must go on

Olho São Paulo do alto, como nunca havia olhado. Na companhia do Marlboro Light queimando entre os meus dedos,  eu tento alcançar aquela estrela – tenho a mania de sempre querer ir além do que realmente posso.

Encaro a brisa gelada somente de peito aberto. Admiro e estou sendo admirada, enquanto calada – algo raro – tento cadenciar um milhão de pensamentos que só se organizam quando me ponho a correr. Mas eu estou parada, estou aqui – não estou? – exatamente onde quero estar.

spnoite

Bebo as  luzes, palavras, carícias. Mas não me embriago. Com nada. Eu sorrio como há muito não via, assim de forma nua e crua. Sinto-me etérea. E sinto teu calor, teu cheiro e teus dedos me procurando. Músculos retesados e êxtase à paisana. Toda São Paulo vista do alto agora é meu cenário.

E então tudo passa a ser tato…

Meus seios estão em tuas mãos. Teu quadril se encaixa no meu ângulo e tua boca percorre meu 1,62 de altura. Eu não tenho pressa, nunca tive. Você me pede para que eu te peça. E eu te olho nos olhos e  digo: faça com que eu apenas sinta.

E, no entanto, a verdade é que eu quero me mostrar como é que se joga – all in é como se ganha e eu estou cansada de blefes. Eu quero volúpia, quero sensibilidade em cada milímetro do meu corpo. Quero me lembrar de quem fui anos atrás. Quero resgatar meu eu.

E eu me entrego como quem pula de paraquedas. E no ritmo compassado de amantes de longa data que nunca seremos, o gemido vem. Profundo e silencioso. Eu aproveito cada ato do meu espetáculo. Fica quietinho, fica. Mas não se controle. Só espere um pouco mais. Quero vangloriar-me de estampar dois sorrisos débeis em dois rostos tão distintos. E te entrego meu ventre de bom grado, diferente de como Geni deu-se ao seu carrasco.

De cima do palco a visão é ainda mais linda. E a labareda que começou na ponta do pé, passa por panturrilhas, coxas, nádegas, coluna, ombros, nuca e apaga-se num uníssono alto e curto. Desabo esgotada, arfando. Jogo meu corpo para o lado e me espreguiço languidamente.

Saio de fininho, sem fazer barulho. Vou até a varanda, finalmente toda nua, exposta. Acendo mais um cigarro e me perco na fumaça. Eu toco a estrela – a mania que tenho de sempre querer ir além do que realmente posso, nunca me impediu de chegar lá.

Eu sorrio. Eu admiro a noite de São Paulo e suas luzes. Eu respiro fundo e absorvo meu cheiro. Eu sorrio. Sorrio meu sorriso-Lolytha de ponta a ponta do rosto que há meses eu não via. Eu sorrio porque eu sinto.

Eu finalmente sinto.