Só agora eu sou assim

Por diversas vezes eu escutei que deveríamos ter cuidado com o que desejamos, afinal desejos podem, de fato, serem realizados. A cada paixão não correspondida, cada briga, cada rompimento, cada lágrima queimando a face, eu pedia ao Universo para ser uma pessoa menos passional, menos emotiva. E, então, eu me tornei cínica!

Sou capaz de ter crises de choros em filmes, seriados, músicas e até vídeos que falem de amor. São lindos, emocionantes e me arrepiam, mas esta é uma realidade desconstruída para mim. Não importa quão incrível seja eu estar com um alguém, há sempre uma barreira entre mim e o potencial desenrolar dos fatos.

Eu desapareço e nem sempre é porque eu quero causar algum mal, apenas prefiro evitar o inevitável. Sem dúvidas, mas cheia de anseios e angústias, eu sei que além disso eu vou me atirar no abismo, no mar, e ficar mergulhada até o pescoço. Eu não sei ser metade. Cheia de tantos “e se”, eu sou intensidade até a última célula.

Contraditório? Tenho a mania de sempre dizer que eu jamais faria algo, até ir lá e fazer. Às vezes é para provocar qualquer possibilidade de autoridade para cima de mim, às vezes é só porque eu realmente mudei de ideia no meio do caminho – depois de analisar tanto, a ponto de ser consumida pela enxaqueca e amanhecer com bolsas embaixo dos olhos. Nem sempre é preocupação com algo, é apenas uma maneira de eu viver diversas vidas, explorando todas as possibilidades. OVER. Over thinking, over reacting, over feeling.

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Mas nada em mim é falso. Se é para rir, dou gargalhadas até perder o ar; se choro, sou uma excelente alternativa para a crise hídrica; se é para ser amiga, troco minha vida pela sua. E mesmo assim, ressalto meu coração negro e peludo, para poder esconder algo que me é tão precioso… Não me dou por inteiro a qualquer um, porque a vida ensinou que nem todo mundo merece o melhor de mim. Difícil? E cansativo também. Mas nada comparado ao desgaste de recolher os cacos do coração, enquanto mãos e joelhos estão sendo cortados ao tentar juntá-los.

Coleciono papéis antigos, postais e lembranças de tudo que passei. Tenho um carinho por todos aqueles que passaram pela minha vida, reconhecendo nisso uma espécie de amor: o que não machuca. Mesmo que eu tente guardar rancor, só guardo nomes. E depois de um tempo, depois de entender o que aquela pessoa me ensinou, eu só passo a desejar que seja feliz na vida que escolheu. Mas que fique longe! Sou orgulhosa até a hora em que preciso deixar de ser. Sou fúria até a hora que a primeira lágrima cai e toda minha muralha cai por terra. E então eu fujo.

Fujo porque só assim me sinto livre: tendo asas para voar (mesmo que eu não saia do lugar) e raízes para voltar. É questão de saber que posso, que não tenho amarras. Ser assim, enfim, tão minha. E ainda que a solidão escolhida tenha seu certo pesar, não existe sorriso falso: todas minhas rugas são as cicatrizes de quanto fui e sou feliz. Não vivo a vida que não é minha, nem crio cenários alternativos para a vida real. É aqui. É assim. É agora!

E agora sou cínica. Sou tudo o que desejei tantas e tantas vezes. Minha frieza não é falta de vontade de viver a sorte de um amor tranquilo. É a vontade de não ver mãos cobertas de band-aids, de não usar merthiolate nos joelhos- porque, na verdade, para mim, doeu sempre! Mas daqui em diante  tudo pode mudar. Eu posso entrar no metrô, no Tinder, no Starbucks e encontrar a pessoa que vai me mostrar porque vale a pena mudar de ideia no meio do caminho.

Mas agora, só agora, eu vou ficar aqui, sorrir e sentir que não dói mais.

 

 

 

Quando for, será

A luz, ainda pálida, entra pela fresta da varanda que nunca consigo fechar, acertando meus olhos em cheio. Resmungo, me remexo e um dedo enrola o cabelo perto da nuca. Um beijo nas escápulas e um braço que me envolve. Abro os olhos assustada, quase esqueço da noite passada. É que foram muitas noites cortadas pela madrugada. Suas pernas se jogam sobre as minhas, você me puxa mais para perto, me abraça forte, enfia seu nariz na minha nuca, dizendo que meu cheiro é doce e adormece. Viro para te olhar. Lindo você assim, olhos fechados, encontrando paz em meu colo, com os cílios longos batendo no rosto, o nariz mexendo levemente enquanto respira e sua barba raspando em mim.

[Talvez se você não tivesse deitado na minha cama, nós poderíamos ser apenas amigos. Se eu não olhasse para você e me sentisse calma, seria mais fácil. Se eu não me sentisse assim, quase confortável em seus braços, eu poderia passar aqueles minutos de uma manhã recém chegada, dormindo]

“Vem pro meu lado, se encaixa aqui”, você me diz. E faz dos seus braços minha morada. Ainda cheirando a Marlboro Light, você me beija com gosto de café da noite anterior e diz baixinho que se eu não fosse desse meu jeitinho, tão errada, tão linda, você não teria se apaixonado.

[Talvez se alguém tivesse lhe dito isso, desse meu jeitinho, nós poderíamos ser apenas amigos. Se eu não tivesse deixado você chegar tão perto, seria menor a vontade de querer ir para tão longe. Se você não fosse toda essa calma hiperbólica, eu seria menos tempestade]

Vou até a varanda, do jeito que estou. Gosto de sentir a brisa gélida tocando meu corpo. Acendo o primeiro cigarro do dia e vejo as cores do céu se transformarem. Um azul quase cinza vai dando lugar ao meu azul favorito no mundo, esse da cor dos seus olhos. E a palidez vai perdendo a força, colorindo mais uma manhã de outono – esta que passou a ser minha estação favorita. Vou até a cozinha, pé ante pé, e preparo mais um café. Curto e forte. É a primeira dose de realidade que tomarei ao longo do dia.

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[Nós poderíamos ser apenas eu e você, mas se eu não tivesse lhe dado meu coração, o meu corpo e meus desejos – mesmo que você não saiba disso. Há muito mais que eu poderia dizer, mas você cala minha boca com um beijo de paixão e prefiro apagar as palavras no cinzeiro em cima do criado mudo]

Nem percebo quando você chega por trás de mim, me abraçando e soltando frases desconexas antes de me dar bom dia. “Quero um relacionamento sério”, você dispara. Te olho como se não houvesse entendido. Existe um relacionamento que não seja sério? O dia tinha começado doce e acabara de ficar mais amargo que o meu café sem açúcar.

[Não sei o que dizer. Cruel demais usar o clichê “vamos ser bons amigos!”. Então eu passo meu rosto pela sua barba, puxo seu cabelo, olho esses dois faróis que você tem, mordo seu queixo, te beijo, te fodo. E logo depois te aviso que tenho que encontrar minhas amigas para o café da manhã. Você sabe que não é isso, mas sabe que será assim. E você não consegue mais lidar com esse vazio]

Vou até a varanda e observo você ir. Desta vez você se foi mesmo. Vou mudar o telefone e até meu endereço, para que você realmente vá!

Vou até a padaria e me valho da desculpa da manhã fria para pedir um chocolate quente com conhaque às 7h27.  Eu encho a cara, mas o álcool não preenche o vazio. São cicatrizes que a maquiagem, comprada na Sephora em 7x sem juros no Visa, esconde. São dores equilibradas em cima do salto 15cm, que eu usava para alcançar tua boca.

Eu iria para qualquer lugar com você, mas não basta seguir o coração. Vez ou outra, é preciso guiá-lo. E desta vez o caminho mais seguro era na direção oposta. É que eu quero lembrar disso como um sonho bom, sem mágoas, sem ressentimentos, sem dívidas emocionais. Quero que você escute nossa música com um sorriso no rosto, quando seu coração quiser lembrar de mim. Mas que você sinta minha falta porque foi bom. Bom demais.

[Eu iria para qualquer lugar com você, até mesmo se esse caminho me fizesse subir aqueles três degraus que a maioria das mulheres sonha subir e eu tento evitar. Mas antes eu preciso não precisar de maquiagem, nem de salto para me equilibrar]

Quando isto acontecer, eu vou rezar para que o número do seu telefone ainda seja o mesmo e que nenhuma outra mulher tenha tido a sorte de descobrir o homem incrível que você é. Ou como seu beijo faz as pernas virarem gelatina, ou como seu cheiro fica bem na pele alheia, ou o rastro cor de rosa que sua barba mal feita deixa na pele branca. E então daremos uma volta, tomaremos um Starbucks na Hadock, fumaremos alguns cigarros. E não direi que talvez seja melhor que sejamos apenas bons amigos. Eu segurarei sua mão sem medo de ficar presa ali por tanto tempo, me encaixarei no seu peito, te contarei que te dei meu coração, meu corpo, meus segredos e todos meus sorrisos.

E será divertido, por inteiro.