Carta para minha filha, aos 9.

Oi Nunu!

Eu estava assistindo ao filme “O quarto de Jack”, um dos indicados ao Oscar 2016, e comecei a pensar em você, em nós. Faz dois anos desde que eu escrevi uma última carta por aqui. Dois anos é bastante tempo, independente da idade que temos –embora na idade da Mamãe eles pareçam passar muito mais rápido – e o (nosso) mundo mudou muito.

Nossa relação também. Eu me fechei mais para o mundo, passei a trabalhar o triplo do que costumava, passei a dividir você com seu pai, suas avós, suas amigas, seus interesses, suas séries, seus filmes, seus documentários; meus trabalhos, meus estudos, minhas viagens, meus treinos, meus filmes. A vida é assim: ela roda como o planeta Terra, sem parar. Mas algumas vezes caímos – na vida real a gravidade não exerce sua força – o que é bom, pois isto ensina a nos levantarmos e tentarmos mais uma vez. Aprendemos a andar de skate melhor, a ler melhor, a correr melhor, a escrever melhor, a comer melhor, a ser melhor!

Eu vi você perder o medo de ser você, de dar sua opinião, de sorrir mais; vi você fazer novos amigos, demonstrar carinho com mais facilidade e conversar mais sobre seus sentimentos – mesmo que você ainda faça a mesma cara torta quando quero te apresentar uma nova comida! Eu aprendi que fica cada vez mais difícil criar você sem conflitos, sem culpa, sem achar que eu só faço besteira. Eu também deixei meu mundo virtual mais de lado e passamos a compartilhar aprendizados; lemos dicionários, assistimos aos documentários, escrevemos redações, discutimos o futuro do planeta, fazemos roteiros das nossas viagens, conversamos sobre religião, política e diferentes tipos de pum.

Às vezes tudo dá certo, às vezes eu não sei o que fazer com você e você não sabe como lidar comigo. Mas eu sei que você me ama, com todo amor que conhece, e eu te amo com um amor que jamais achei que conheceria. Eu ainda continuo não me importando em ter um apartamento de frente para o mar, uma H-RV ou um prêmio pela minha profissão. Eu vejo você deitada no meu colo – seja por sono, chamego ou porque se machucou – e seus braços se transformam no lar mais aconchegante e maravilhoso que morei; você cria suas histórias e piadas e eu voo ao seu lado, nos seus sonhos e devaneios; você respeita meu espaço, pergunta sobre o que eu faço e fica admirada como eu faço para dar conta de tanta coisa… E este é meu prêmio!

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Eu já não converso mais com você enquanto você dorme. Ao olhar para você eu perco a fala e o fôlego. Fui eu quem pus você no mundo, que te transformei nessa criança de quem me orgulho tanto? Parece mentira! Passo longos minutos da madrugada admirando seus cabelos ondulados, seus olhos grandes, seu narizinho arrebitado e penso no que posso ter feito de tão bom para o Universo para ter você, exatamente do jeitinho que é, ao meu lado.

E a verdade é que a resposta é o que menos me interessa, já que você está comigo. Embora eu saiba que muitos mais conflitos estão por vir, também sei que no final das contas seremos eu e você, como somos desde que a minha vida passou a fazer sentido de verdade. De todo meu coração, me perdoe por todas as vezes que não fui a melhor mãe que poderia ter sido e já coloca mais algumas outras vezes na conta – eu ainda vou errar antes de achar que cheguei perto de acertar. E obrigada, infinitamente obrigada, por ter me escolhido. Eu nada seria se não fosse você!

Com amor, hoje e sempre.

Mamãe.

You always hurt the one you love…

Não sou, nunca foi ou tenho a menor pretensão de me tornar crítica de cinema. Gosto é gosto, e pronto! Mas gosto quando um filme mexe comigo; não na superfície (lágrimas, gargalhadas, susto), mas no mais profundo do meu eu. Que me faz pensar, que não sai da minha cabeça. Seja para o lado bom, seja para o lado ruim.

O filme “Blue Valentines”  narra a história  das personagens de Michelle Willians (a eterna Jen de Dawson’s Creek) e Ryan Gosling. O pecado, para mim, é a tradução: nada de “Namorados para sempre”, como achei que seria! O filme retrata, com cortes no tempo e dadaísmo de sentimentos, a ascensão, apogeu e queda de um relacionamento. Daqueles que pareciam que iam durar para sempre, mas cujas diferenças de valores, de desejos e pormenores rumam ao divórcio. E nem tão amigável assim!

É triste, melancólico e ao mesmo tempo romântico, cativante, poético até! Existe algo mais bonito que ver um amor genuíno nascer, proveniente da ingenuidade, dos sonhos e da esperança dos “felizes para sempre”?

A narrativa é um soco na boca do estômago, respirar algo tão palpável congela os pulmões. Realismo e realidade puras! Você para de se perguntar SE uma relação vai terminar para QUANDO ela vai terminar. Não, não é inspirador para casais apaixonados, mas finca seus dois pés no chão.  Por mais que você tenha assistido o excelente Diário de uma Paixão, também com o Ryan, e desejado um amor daqueles, é este filme que te faz cair na real e perceber que a mídia, entre tantas coisas, vende realidades paralelas. Não sou pessimista, amargurada, mal amada ou recalcada, mas hoje as pessoas optam tanto pelo supérfulo, pelo menos complicado, pela quantidade que esquecem de observar as pequenas coisas. Aquelas que importam, que não devem ser deixadas para trás, que fazem a vida menos difícil e muito mais feliz. E por isso Blue Valentines vira o retrato de uma geração.

You always hurt the one you love… the one you shouldn’t hurt at all. You always take the sweetest rose and crush it till the petals fall.
You always break the kindest heart with a hasty word you can’t recall. So if I broke your heart last night, it’s because I love you most of all”