If

quarta-feira, à noite. parece que as coisas quando têm de acontecer, comigo, sempre escolhem o horário que a cabeça pesa, que o corpo já está cansado. mas que a alma grita por ser livre, leve e solta – tão clichê, tão sincero. era uma noite quente para esta época do ano. era mais uma reviravolta dentro das reviravoltas que a vida decide dar quando quer atropelar. esta mesma vida que me ensinou a desviar de faróis, grandes ou pequenos, tanto faz. ser atingida não é mais uma questão de escolha. levanto, sacudo a poeira, lavo as mãos e joelhos ralados, o sangue seca e sigo. e logo passa.

nesta noite não me pus a andar, estava cansada. tomei o metrô até o caminho que já conhecia e me pus a cantarolar um pouco.

“- beatles?
– oi?
– the song… beatles?
– ahn, yeah!
– do you like it?
– beatles or the song?
– both
– yeah, i do
– do you have a broken heart?
– in a bilion pieces
– you are too pretty to cry, little girl
– i am not crying!
– are you in love?
– no… i guess not
– so your heart is crying, pretty girl!”.

tomei distância do simpático inquisidor belga com olhos azuis que pareciam ter sido arrancados do céu de outono. saltei na estação e o ar quase doce, quase gelado, bagunçou um pouco minha franja. ajeitei com a mão esquerda enquanto a direita procurava por um cigarro dentro da bolsa enorme que insisto em usar, mesmo quando não carrego nada além da chave, telefone e o maço de marlboro blue ice.

lembrei dos seus olhos, tão cheios de brilhos e que ficam tão pequenos quando você sorri o seu sorriso tímido que te deixa com o rosto mais irresistível. quase um rosto infantil, daqueles que as mulheres se derretem e tocam, encontrando uma barba aparada, boa de passar a mão – e timagesodo o resto do corpo. os cílios curtinhos e o cabelo despretensiosamente bagunçado, que eu gostava de bagunçar ainda mais ali na frente. a pontinha do seu nariz que costumava cutucar minha bochecha para pedir atenção… só para eu me virar e você colocar sua boca pequena em cima da minha boca pequena, ao mesmo tempo que sua mão grande escondia umas mechas do meu cabelo curtinho atrás da minha orelha esquerda. e, sem eu nunca dizer em voz alta, eu sabia porque sorria aquela sorriso bobo. você ainda se lembra dele? você suspirava fundo e me olhava nos olhos, dizendo que adorava os efeitos que as luzes causavam no meu rosto. que eu tinha rosto de criança, mas só até usar aquela expressão que você me causava.

eu quase não lembro seu cheiro. nem sua voz – poderia ser um charme para me fazer blasé, mas não é. e mesmo assim, sem quase saber seu nome, seu endereço, sua cor favorita ou a comida que você mais gosta, eu sinto sua falta. falta da sua risada, da sua mão delineando meu rosto. do gosto que tem seu beijo e de como você me faz sentir quando estou ao seu lado.

entre uma frase e outra, um cigarro ali e lençóis de algodão, eu aguardo por mais uma reviravolta dentro das reviravoltas. eu espero pelo momento do meu coração não estar espalhado em muitos lugares de são paulo, para que eu deixe de lado o orgulho e confesse que eu amaria amar você. se este momento chegar, espero também que você não fuja, nem se esconda, nem arranje desculpa. que seja só amor. sem vão.

 

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2 comentários sobre “If

  1. Que texto incrível! No começo fiquei imaginando quem seria esse belga do metrô, mas na metade minha curiosidade era só sobre essa pessoa de “cílios curtinhos e o cabelo despretensiosamente bagunçado”. =)

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