Quem é essa “velha” no meu espelho?

Toda vez que alguém da minha família descobria mais alguma tatuagem, ou um piercing ou um corte de cabelo radical que eu adotava, logo soltava a expressão “essas coisas da juventude”. Era o suficiente para estragar meu humor por uma semana, afinal estava tentando apenas ser feliz e não uma adolescente tipicamente rebelde, levada por modismos e prazeres no meio da dor.

Para ser sincera, eu nunca me tatuei ou me furei pensando na dor ou que apareceria mais que qualquer outra pessoa da minha idade; minhas tatuagens contam histórias únicas e pessoais, meus piercings são apenas enfeites que até hoje (10 anos depois) eu acho atraentes. Todavia, bem no finalzinho do ano passado,  tive um pequeno vislumbre do que os “jurássicos” familiares tentavam dizer. Junto com namorado,  filha, sobrinha e amigas corajosamente me enfiei em um estúdio de arte corporal para dar mais um adorno ao meu corpo. Era um piercing no nariz, nada de mais para quem já havia feito no mesmo local outras três vezes.

Nada demais? Seria, se eu não tivesse começado a suar quando lembrei a dor que era, se  quase não tivesse desmaiado quando – para tomar coragem – assisti outra garota passando pelo que eu estava prester a passar. Com  a mesma coragem que sentei na maca, pulei dela em segundos. Obviamente não faltaram coros de “amarelou”, “fraquinha” e “medrosa”. Mentalmente mandei à merda os os 11 pares de olhos que me encaravam e desafiavam. Fazer o que?

Se tal fato fosse há 3 anos, tenho certeza que eu teria ido em frente, passado por algo que não queria, apenas para provar que eu era forte o bastante para continuar. E algo que parece bobo, pôs uma nova perspectiva na minha vida: quantas vezes não fazemos algo por insistir que não voltar atrás é sempre o certo a fazer? Quantas “mutilações” – físicas, psicológicas, mentais – nos permitimos para nãos sermos vaiadas, para fazermos parte da turminha, para tentar provar algo para nós mesmos? Porque quando se é jovem o bastante para ser jovem, o amanhã não importa mesmo. Vai vir alguém é bradar o tal juízo… ahã! Que atire a primeira pedra quem nunca fez algo desse tipo na vida, uma cagada.

Pensei ter dado um exemplo errado a minha filha, mas não. Eu fui forte o suficiente para mostrar que as pessoas mudam de opinião, que não importa sob que pressão você esteja é sempre importante se respeitar, que modismos são modismos e coisas de jovens são coisas de jovens. Quando me olhei no retrovisor – e suspirei com saudades do piercing que jamais estaria ali outra vez – demorei um tempo para reconhecer a pessoa no espelho. Coco Chanel sempre dizia: “já não sou o que eu era, devo ser o que me tornei”.

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