Por que eu escrevo?

Anos escutando a mesma pergunta e a mesma indignação pousava em minha face. Você pergunta para alguém por que ela respira, come, dorme, se apaixona? Obviamente não; então porque raios vivem a questionar essa vivacidade? Para mim é tão pertinente quanto; a tinta da caneta mistura-se ao sangue das minhas veias.

A verdade é que essa é uma questão difícil, fugidia, sujeita a explicações que muitas vezes rumam para encontrar uma justificativa para toda uma vida. Antes mesmo do divã do Dr. Reinaldo, anteriormente às aulas de Literatura e redação, eu assim o fazia. Assim que descobri coordenação motora para juntar letras, palavras, vocábulos, orações, parágrafos, trechos… crescemos lado a lado, como irmãos siameses.

Já ouvi a Literatura ser apontada como doença e cura, sina e maldição, gozo e delírio. É provável que seja mesmo um pouco de tudo, ou nada disso. Talvez seja melhor nem saber porque dedico tantas horas ao pensar, ao escrever no estilo antigo – entenda-se papel e caneta – e depois publicar isso para qualquer um embrenhar-se minha vida, seja por curiosidade, seja por acaso.

Henry Miller dizia que escrever ajudava a aprofundar o caos à sua volta; eu acredito que eleve minha própria desordem psíquico-destrutiva. Lispector nunca se explicou muito bem, mas acredito que era porque a vida doía. Se não me recordo, confundo-me. Pois a existência é sofrida.

Machuca crescer vendo sua mãe ocupar-se de outras crianças que não são seus irmãos, ser a garota mais impopular da escola, ver as pessoas aproximando-se por interesse. Fere ter tudo e não ter nada ao mesmo tempo, acreditar nas pessoas e sentimentos, se auto-sabotar. Incomoda esperar o telefone tocar, descontar o dissabor na comida e passar a noite acompanhada da televisão, balde de pipoca e Coca-cola zero (ou de amigos tão loucos quanto você, pelo MSN). A Clarice sabia do que (não) estava falando: viver dói.

Há os que escrevem por motivos inconfessáveis. Por vaidade. Para ganhar dinheiro – ou pela tentativa de. Existe gente que escreve para ser admirada. A verdade que todo mundo que escreve tem ego, mas nem todos são egocêntricos. Não a ponto de acharem que suas próprias vidas dariam um livro – ou um blog.

Existem algumas correntes da psicologia que garantem que escrever, alivia. Isso é um ponto de vista: se você vai escrever para si mesmo, para que desperdiçar essa energia? Você já sabe toda a porcaria que está acontecendo dentro de ti. Vai escrever para os outros? Poucos são verdadeiramente sinceros quando passam pelos olhares de aprovação/rejeição. Na verdade não vejo alívio algum, só mais um pequeno tormento. Ah, que se dane a psicologia… estou ocupada demais com minhas próprias questões!

Já me indaguei com sinceridade e coragem (sim, é preciso uma boa dose de coragem para escrever, ainda mais sobre um tema tão específico como… ahn… sua vida, diria) sobre o que me leva, desde que me entendo por gente, a dedicar horas tentando colocar no papel algo que não existe no mundo real. E por diversas vezes acreditei que era para criar um mundo paralelo, meu refugo, minha liberdade e minha prisão. Mas minha visão deturpada e fatídica de mim, acabaram por cerrar-me numa vista míope de duplo segmento: heaven or hell, eu ou meu eu.

Também já teve o tempo em que eu ficava satisfeita em pensar que escrever apenas atendia a um impulso de partilhar com outras pessoas algumas das minhas histórias. Talvez mostrá-las uma coisa menos hipócrita – e assim o mundo seria um lugar mais feliz – ou apenas me gabar de certas coisas; na pior das hipóteses, expôr meu pior e por intermédio da desaprovação alheia, buscar minha rendição.

Atualmente contento-me em pensar que escrevo por puro prazer: para me distrair, desestressar, aliviar minha frustração de não ser  Fernanda Young, confessar meus pecados, exorcizar meus sentimentos – pois me faz bem. E isso basta, não tenho mais a pretensção de transformar opiniões. Tenho até mesmo a sensação de que se um dia parar de escrever, terei um belo motivo para não viver intensamente mais.

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2 comentários sobre “Por que eu escrevo?

  1. só você para responder a pergunta com um texto tão fabuloso, muitíssimo bem escrito.

    confesso: eu queria ter escrito esse texto.

    hoje a febre da escrita está contida em mim mas já houve uma época em que ela era minha maior dor e meu maior analgésico, ao mesmo tempo.

    escrevemos porque vivemos, mortos seríamos escritos. de qualquer forma, a palavra seria um hábito, respectivamente: habitaríamos nelas ou elas nos habitariam. 😉

    amo; entre tantas coisas outras, por aquilo que você escreve.

    bjo.

  2. Belíssimo texto. Normalmente para essas pessoas chatas que perguntam por que escrevo dou uma resposta chata: porque não sei fazer nada melhor. Acho que escrevo para libertar minhas agonias aprisionadas pelo tempo. Não sei dar uma explicação definitiva. Acho que a literatura é mais profunda do que esse negócio de ficar explicando. Gostei do seu blog (primeira vez que entro aqui) e pretendo voltar mais vezes.

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