Capítulo 12

Noelle não via Noah há duas semanas.”Talvez tenha sido um erro”, pensou. Precisara de um pouco de segurança e nem lembrava de como fôra parar do jardim da Avenida 13 para o quarto 1112 da Rua 14. Amaram-se desesperadamente. Não eram dois corpos que haviam se distanciado, eram os mesmos. O amor sublime, a paixão intensa, a cumplicidade, a intimidade e o êxtase infindável.

Depois daquela tarde, nem mais um telefonema. Se ele tentou, ela não sabia. Bloqueou o MSN, Orkut e restringiu suas chamadas telefônicas. Ela precisava de tempo para criar coragem e contar à Mark o quanto a vida deles havia mudado. Ela decidira ter o bebê, com ou sem o apoio de Mark, mas conhecendo aquele homem como conhecia, sabia que era bem provável que ele não reagisse tão bem, mas estaria do lado dela. Da pequena família que começava a se formar. Afinal, Mark era um homem maravilhoso, de caráter inigualável.

Foi apenas quando pronunciou as palavras “pequena família” que realmente percebeu o quanto sua própria vida mudara. Resolveu falar com Noah. “Não, não posso! Vou escrever uma carta”. Sentou-se na mesa da sala de desenhos de Mark e pensou em tudo que deveria escrever.

“Querido Noah.
Na verdade não sei nem por onde começar a explicar, talvez você já não queira saber meus motivos, minhas verdades; não depois de tanto tempo. Mas eu preciso falar, mesmo que você nunca ouça a voz dessas palavras mudas. Sei que se não fossem meus erros, minhas mentiras, estaríamos juntos até hoje. NÓS sabemos disso. Então não prolongarei essa introdução. A única pergunta que você me fez foi o por quê disso. Inventei várias desculpas, fiquei quieta, me fiz de desentendida. Em ilusória consciência achei que seria mais fácil que você acreditasse nas minhas mentiras, nessa tentativa débil de te fazer sofrer menos. Mas a minha vida mudou, nós nunca mais poderemos ser aquilo que sempre sonhamos.
Eu fiz o que fiz não porque não te amasse ou porque queria te humilhar. Eu fiz porque acima de qualquer coisa eu amava ser desejada, amava saber que poderia ter qualquer homem que quisesse, amava desafiar meus limites de sedução, amava correr riscos.
Fiz tudo que amava e perdi você! Sim a explicação é simples e patética: fui uma vagabunda! Passei anos sendo esse tipo de pessoa: que seduz e descarta, que não respeita ninguém (nem mesmo a si própria), que se ama acima de tudo, que não obedece regras e quebra limites. E eu seria sempre assim se a gente não tivesse terminado. Finalmente aprendi, por sua causa, o que precisava. Custou muito mais do que gostaríamos, do que eu ainda quero, mas aprendi. Talvez você me xingue ferozmente, não peço que me entenda. Não peço mais nada a você.
Mas a verdade é que eu quis ser sempre mais do que a Noelle D., quis ser a mais desejada, a mais amada, a mais disputada. Mas após tantos anos percebi que eu realmente só fui alguém quando estava com você.

Deus, em sua obra divina, percebeu o quanto eu havia me arrependido, mudado, e me mandou o Mark. Eu o amo, amo muito. Mas ninguém nunca será o que você foi, e ainda é, para mim. Talvez tenha sido melhor pra você não ter ficado comigo, embora você ainda disfarce sua dor, seu brilho nos olhos quando me vê. Eu aprendi a disfarçar também. Optei por ter meu bebê e é por essa razão que nossa história finalmente acabou. Mesmo que eu não fique com o Mark, não pediria para que você criasse um filho que não seja o nosso.
Não tenho como objetivo findar nossa amizade… essa sim, espero que sempre viva. Mesmo depois de tudo você continua sendo meu amigo, meu confidente. Estava mais do que na hora de você obter algumas respostas. Cinco anos é muito tempo para qualquer coisa. Saiba, meu amor, que eu sempre te amarei e me arrependerei até meu último dia do que fiz com você.
Sua – eternamente sua – Noelle”.

Noelle leu e releu a carta diversas vezes. Pegou o carro e foi até a casa de Noah, escutando “Perhaps Love”. Havia decidido entregá-la em mãos. Parou na garagem e tocou a campanhia. Noah abriu a porta, não conseguiu dizer nada.

-Vim te entregar isso.
– Mas o que é Nô?
– Sua resposta.
Olharam-se num silêncio ensurdecedor. Noah leu a carta calmamente. Mas suas lágrimas o traíram.
– Obrigado. Agora eu sei que posso voltar a confiar em você.
– Mas, como assim?
– Você me disse o que sempre quis ouvir: verdades! Se algum dia você achou que eu tinha deixado de te amar, de ter desejado estar ao seu lado cada segundo, você esqueceu quem eu sou!

Noelle não esperava por aquilo. Entrou no carro, pisou fundo no acelerador, chorava e sua vista logo ficou embaçada. Nem teve tempo de ver o caminhão que estava passando no cruzamento da Rua 14 com a Avenida 15. Acordou no hospital.

– Senhorita D.? (Era a voz de uma enfermeira de meia-idade, presumiu um pouco sedada). Lamento informar, mas a senhorita perdeu seu bebê.

Noelle não chorou, nem gritou. Não abriu a boca. Seu rosto tomava um contorno indecifrável. Primeiro olhou pro Noah choroso ao seu lado, depois para o nada…

 

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