
Algum paciente esperando o laudo médico “POSITIVO” de um tumor maligno ou HIV pode entender o que quero falar. Dada a sentença, os primeiros instantes são de negação: ou uma anestesia cavalar de morfina ou um parto sem analgésico de uma criança de 60 cm e 5 kg. Se é que alguma dor se compara a uma sentença de morte. Algumas semanas, alguns meses e, com muita sorte, quem sabe até um ano.
Na realidade não precisava da palavra do especialista, eu mesma já havia percebido os sintomas: começou nas córneas, espalhou-se para pulmões, coração e o cérebro. Mas, definitivamente, foi meu coração o órgão mais afetado.
Houve quem dissesse que tinha enlouquecido, Alzheimer precoce, depressão, síndrome do pânico, afinal quem pouco sabe, muito inventa. A fim de dar cabo em tantas “verdades”, anunciei: “pessoas, estou morrendo. Tenho três meses de vida, com poucas chances de reverter o quadro!”.
Reações, inúmeras e diversas, mas não eram elas que me preocupavam. Precisava decidir o que faria nesse breve espaço de sobrevida. Pensei em me matar, em viajar e morrer longe, em curtir cada doideira. Porém, no fim, optei por tentar um tratamento e ficar perto das pessoas que quisessem ficar ao meu lado.
Sessões de terapia, momentos de solidão, crises de identidade, muita fé, choros e quando não estava numa situação deplorável, aproveitava ao máximo meus amigos e meu namorado. Tudo era um fio de esperança…
Não adianta, a gente sabe quando vai morrer. E num belo sábado, após uma conversa, o “câncer” que corroía meu coração deu seu ataque fulminante. Foi dolorido, letal, quase sádico. Meu corpo ficou imóvel, minha garganta secou, meus olhos transbordavam e, sem avisar, dentro do meu corpo, meu coração explodiu e seus estilhaços transpassaram todos meus poros.
A última coisa que vi foi eu e ele dançando uma valsa na única vez (sincera) que ele disse que me amava. Apenas dois olhos castanhos observaram o fim da minha queda e eles eram implacáveis. Somente no meu “velório” descobri amigos oportunistas e amores de piedade.
Minha primeira lição foi, então, a de manter a minha vida apenas MINHA, mas já era tarde. E durante meu sepulcro, num raio de segundos, aprendi o que deveria ser valorizado: EU.
Assim como Brás Cubas, eu só aprendi a “viver” depois de “morrer”. Mas tal qual Guimarães Rosa eu descobri quão bom é morrer de amor… e continuar vivendo.