Queria berrar, queria se debater, mas o corpo estava imóvel e as palavras eram sepulcradas nos lábios vermelhos, tingidos por batom Dior. Cansara de ficar encolhida, mas jazia viva dentro de sua gaiola grafite.
Nesses instantes, toda história deles perspassou-lhe a mente, como um filme de Hollywood. Do beijo escondido na Telesp, pães de batata, caminhadas na praia, músicas, cartas, livros, filmes, declaração, promessas de um amor eterno. Tudo teria sido mentira?
Será que era possível viver tudo e depois assistir uma entrega àquela estranha? Tinha mais perguntas do que respostas. Quis sair do carro e tentar sanar todas suas dúvidas, mas não teve coragem – o que não era de sua natureza. Ele que fosse feliz, ela precisava recomeçar.
Ainda mais lentamente, alongou seu corpo, segurou o volante e ligou o rádio. O locutor anunciava as músicas do dia. Foi quando Noah olhou na direção do carro, profundamente – ela não soube dizer se ele já havia notado sua presença – e ela teve a certeza de todas suas perguntas.
Perdera Noah, de uma vez por todas. E o amou mais do que nunca; soube, que de uma maneira ou outra, o esperaria para o resto da vida.